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As mulheres que o paraíso maltrata

As mulheres que o paraíso maltrata

As mulheres que o paraíso maltrata


por Ricardo J. Rodrigues/ 03.03.2021

Ilustrações de Alex Gozblau

São vítimas de violência doméstica, trabalhos forçados, exploração sexual. Denunciaram os abusos que sofreram às autoridades, mas sentiram que o sistema luxemburguês as abandonou. Os números do tráfico humano estão a crescer com a pandemia e a ONU condenou recentemente o país por não proteger devidamente as vítimas. Estas são histórias que não deveríamos ter de contar.

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Crónica da perda
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Ilustração de Alex Gozblau

Gisela não se chama Gisela. Nenhuma das mulheres desta reportagem responde pelo verdadeiro nome, porque isso poderia expô-las e colocá-las em risco. Mas as suas histórias são tão duras quanto reais. Esta mulher é brasileira, tem 30 anos, veio para o Luxemburgo há 12. Há dias apareceu na Associação de Apoio aos Trabalhadores Imigrantes (ASTI) a pedir apoio alimentar. Desde que a pandemia começou, a ASTI desenvolveu um programa de assistência aos trabalhadores sem papéis, fornecendo-lhes senhas para se abastecerem nos supermercados sociais. Gisela apareceu pela primeira vez na semana passada.

Quando chegou à Europa, conheceu um português por quem se enamorou de imediato, conta. “Fomos viver juntos passadas poucas semanas e engravidei logo. Parecia um sonho, vir para a Europa, apaixonar-me, constituir família.” Nesses primeiros tempos lavava pratos na copa de um restaurante. Trabalhava a negro, mas a ideia era aprender francês e legalizar-se.

“A violência começou quando o primeiro bebé nasceu. Primeiro foram os insultos. Ele dizia que eu estava gorda, que não valia nada, que não servia para ser mulher dele. No dia seguinte pedia-me desculpa e eu tinha pena dele. Demorei muito tempo a perceber que aquilo não era amor, era doença”, diz, as mãos a entrelaçarem-se uma na outra.

“A pandemia está a tornar claras situações que estavam escondidas”, avisa Jessica Lopes, que além de prestar assistência nesta associação é dirigente da plataforma JIF (Journée International des Femmes), que organiza a Marcha das Mulheres de 8 de Março. “Temos pessoas que chegam aqui a pedir comida e na verdade não é só fome que sentem, é um total abandono.” Na maioria dos casos são mulheres, provenientes de países extracomunitários, sem papéis. Trabalhavam sem descontos nos cafés ou nas limpezas antes da crise sanitária, mas as restrições deixaram-nas sem salário nem capacidade de pagar contas. “São normalmente estes casos que vêm parar aqui.”

O problema é que, quando estas pessoas decidem finalmente denunciar os abusos às autoridades, tornam-se frequentemente duplamente vítimas – pelo abusador e pelo Estado.

Marta Correia Ventura, presidente do The Insight Project

Por trás das dificuldades chegam muitas vezes histórias de abusos de direitos humanos. “Há casos de violência doméstica, trabalhos forçados ou escravatura sexual que nestas alturas são levadas ao limite e fazem as pessoas explodir”, diz Marta Correia Ventura, advogada especializada em direitos humanos e presidente do The Insight Project, uma associação que luta contra o tráfico de seres humanos no Luxemburgo. “O problema é que, quando estas pessoas decidem finalmente denunciar os abusos às autoridades, tornam-se frequentemente duplamente vítimas – pelo abusador e pelo Estado.”

Apesar de a ministra da Igualdade, Taina Bofferding, dizer esta semana numa entrevista a este mesmo jornal que “no Luxemburgo existem muitos programas e serviços de apoio” às vítimas, a verdade é que um relatório da ONU, datado de junho do ano passado, faz reparos às políticas nacionais de proteção de vítimas. O “Traficking in Persons Report” diz que, em termos globais, o país cumpre os requisitos mínimos de salvaguarda. Mas avisa que as sentenças dos abusadores são demasiado leves e que faltam mecanismo de proteção para as vítimas enquanto os agressores ficam à solta. “É preciso rever as leis e criar uma consciencialização nas figuras de autoridade de que há problemas sérios neste país”, diz Marta Correia Ventura. Jessica Lopes alinha pela mesma batuta: “Os problemas estão a aumentar. Já não dá para dizer que está tudo bem no Luxemburgo.”

Gisela perdeu a conta às vezes que pediu ao companheiro para assumir o compromisso com ela, que registasse a união que eles tinham de facto. Estava em situação ilegal sem qualquer necessidade, afinal partilhava a vida com um cidadão comunitário. “Ele dizia que ia tratar disso, sim, mas nunca o fazia. Nem sequer foi registar as crianças como suas. O único documento que eu tinha deles era a cédula de nascimento do hospital.”

Tiveram três filhos – que hoje têm 11, 8 e 3 anos. “Aos poucos fui deixando de trabalhar, ele não queria que eu tivesse contacto com outras pessoas, tinha ciúmes. Mas, como só me dava dinheiro para comida, eu fazia trabalhos de limpeza às escondidas, para poder dar algum conforto aos meus filhos.” Sem esses biscates, não teria sequer autonomia para lhes comprar as coisas básicas: uma mochila, um estojo para as canetas, um bolo pelo aniversário.

Gisela tentou sempre protestar. As cédulas de nascimento permitiam aos miúdos aceder ao sistema de ensino, mas não garantiam qualquer legalidade à família. “Quando eu dizia alguma coisa ele respondia que, se eu apresentasse queixa no Luxemburgo, ele ficaria com as crianças e eu seria deportada para o Brasil. Então eu aguentava”, diz. “Aguentei mais de dez anos de insultos, algumas bofetadas e uma humilhação constante. Mas não podia fazer nada. A perspetiva de perder os meus filhos era muito pior.”

As coisas agravaram-se com a pandemia. Ele, que trabalhava na construção civil, via-se agora com os dias livres. “Deixámos de ter sequer dinheiro para comer. Em maio já não aguentava mais e fui falar com a assistente social da comuna. Precisava de ajuda.” Gisela não queria contar tudo, mas aos poucos foi abrindo o jogo. E, um dia, decidiu lutar.

Apresentei queixa porque já não aguentava mais os abusos. Por causa disso, perdi os meus filhos. Mais valia ter estado quieta.

Gisela

“Houve uma noite em julho em que o meu companheiro chegou a casa bêbedo e me começou a insultar em frente das crianças. O meu filho mais velho tentou defender-me e ele acabou por espancá-lo. Na manhã seguinte, peguei nas crianças e fui com elas à assistente social. Ela aconselhou-me a apresentar queixa, resolver isto de uma vez por todas. Mas tive medo, e nesse dia voltei para casa.” Em outubro a cena repetiu-se. “E foi então que, finalmente, apresentei queixa na policía”, diz.

A assistente social tentou encontrar-lhe poiso numa casa-abrigo, não havia vagas. Tão pouco podia voltar a casa, então mudou-se para o apartamento de uns amigos brasileiros que viviam em Esch-sur-Alzette – e que tinham vindo do Brasil na mesma altura que ela. Com a ajuda deles, tentou encontrar biscates a fazer limpezas e engomar roupa a negro. A vida tinha de mudar. O seu objetivo agora era um: encontrar trabalho e regularizar-se. Mas como é que faz isso durante uma pandemia?

Há uma semana, Gisela recebeu uma carta dos serviços de imigração luxemburgueses. Foi na mesma altura em que decidiu pedir ajuda alimentar à ASTI. A correspondência dava-lhe um prazo para sair do país – até ao fim de março Gisela tem de abandonar o Luxemburgo. O pai dos miúdos foi contactado pela polícia, prometeu regularizar a situação das crianças e por isso elas ficarão à sua guarda, já que têm direito à nacionalidade comunitária. E agora ela só pensa que nunca deveria ter falado do assunto, que nunca deveria ter apresentado queixa, que mais valia ter aguentado os abusos. “Eu só queria um pouco de dignidade”, diz, e depois desata num pranto.

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O ciclo vicioso
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Ilustração de Alex Gozblau

No centro da capital há um gabinete que serve simultaneamente de sede ao COTEH, o serviço de assistência às vítimas de tráfico humano, e ao SAVTEH, que acolhe a organização Femmes en Detresse (Mulheres em Perigo). As instalações não estão identificadas publicamente, nem serão reveladas nesta reportagem. A assistente social e a psicóloga que aqui trabalham também não querem ser identificadas. “Podemos ser seguidas por um agressor que depois pode atacar quem já sofreu maus tratos”, explicam.

Estas organizações foram criadas em 2009 para apoiar as vítimas das redes de tráfico humano, depois da introdução de leis específicas no código civil luxemburguês. Os casos chegam-lhes através da polícia, de inspetores de trabalho ou de assistentes sociais. Entre 2014 e 2018, 70 pessoas foram identificadas como vítimas de tráfico humano no Grão-Ducado, revela um relatório do Gabinete das Nações Unidas para os Assuntos de Droga e de Crime (UNODC). Destas, 46 eram mulheres. Mas o estudo, que foi revelado em fevereiro deste ano, avisa que os números estão a aumentar. E que essa tendência está a aumentar com a pandemia.

Nos 50 casos que acompanhei desde que aqui estou nenhum agressor foi condenado sequer a um dia de prisão. Isto faz das vítimas ainda mais vítimas.

Assistente social da Femmes en Detresse

“As coisas são normalmente piores para as mulheres, e o tempo de recuperação também é mais longo”, diz a psicóloga do COTEH. “Um dos grandes problemas é que elas têm de apresentar queixa na polícia e o agressor sabe que elas o fizeram. Isso faz com que um grande número de vítimas se retraia.” A assistente social da Femmes en Detresse interrompe e aponta uma visão larga do problema: “Mesmo quem avança pode passar por um processo muito frustrante. Nos 50 casos que acompanhei desde que aqui estou nenhum agressor foi condenado sequer a um dia de prisão. Isto faz das vítimas ainda mais vítimas.”

Mahalia tem 55 anos e é filipina. Vivia na casa da irmã em Manila e trabalhava como empregada doméstica. “Ganhava 50 euros por mês. Quando a minha filha chegou à altura de entrar na universidade eu percebi que tinha de encontrar outro trabalho”, conta agora. Há seis anos, conheceu um casal que vivia no Luxemburgo e precisava de uma ama para o seu bebé – que sofria de autismo. “Prometeram-me 300 euros por mês, o que para mim era muito bom. Davam-se casa e comida. Era a maneira de conseguir enviar dinheiro para as Filipinas.”

Nos dois primeiros anos andou a correr mundo. Passava períodos de três meses no Luxemburgo e outros três em casa. “Da primeira vez pagaram-me de facto 300 euros, mas pelos três meses. Da segunda foram 200 e depois foram 100. Ia e vinha com vistos turísticos. Ao fim desses dois anos já não me pagavam nada. Quando o meu passaporte caducou, eles pediram-me para guardá-lo com a promessa de irem tratar dos meus documentos. Nunca mais o vi.”

O patrão era holandês, a patroa era filipino-holandesa. Mahalia queixa-se sobretudo dela. “Estava sempre a insultar-me e a dizer que eu fazia tudo mal. Dava-me bofetadas constantemente, às vezes cuspia-me. Se eu começasse a chorar, ela enchia o lavatório de água e mergulhava a minha cabeça lá dentro, agarrando-me pelos cabelos. Dizia que era para eu limpar as lágrimas.”

Chorava cada vez mais, de exaustão e de medo. “Eu tinha de acordar às quatro da manhã para lavar à mão malhas e as sedas da patroa. Depois fazia o pequeno-almoço para toda a gente, ia com ela levar a criança à escola e ir às compras. Nunca me deixava sair sozinha, por isso eu nunca aprendi a andar de autocarro. Muitas vezes pensei ir à polícia, mas como é que eu conseguia lá chegar?”

Os dias terminavam às 23h, era a hora em que tinha de massajar os pés da patroa. “Se ela não gostasse da massagem, dava-me um pontapé. Uma vez deixou-me a cara cheia de nódoas negras e fiquei uma semana trancada em casa”, conta. Só falava com a família sob supervisão dos patrões e abriram-lhe uma conta no Facebook. “Eu não tinha acesso à palavra-passe. Ela é que escrevia à minha irmã e à minha filha, fazendo-se passar por mim. Dizia que estava tudo bem e explicava que não podia enviar dinheiro, como se fosse eu que estivesse a falar.” 

Se eu começasse a chorar, ela enchia o lavatório de água e mergulhava a minha cabeça lá dentro, agarrando-me pelos cabelos. Dizia que era para eu limpar as lágrimas.

Mahalia

Esteve assim quase dois anos, até um dia em que a patroa saiu de casa e se esqueceu do telemóvel em cima da mesa. “Mandei uma mensagem muito longa à minha irmã a explicar o que estava a acontecer. Não recebi resposta, mas uma semana depois a polícia veio bater à porta de casa. A minha irmã tinha avisado uma prima nossa que vivia na Alemanha e esta notificara as autoridades.” Foi a 12 de julho de 2017. Quando a levaram para a esquadra, pensou que ia dormir na prisão. “E o que é estranho é que essa ideia soava-me a liberdade.”

Mahalia chama aos agentes da Polícia Judiciária os seus heróis, afinal foram eles que a salvaram. Mas quando a conversa chega à barra da Justiça, o discurso muda. “Fui colocada numa casa abrigo para vítimas de tráfico humano e comecei a aprender francês, aprendi a andar de autocarro, a ser gente outra vez. Quando o Procurador decidiu que os meus patrões deviam ser julgados em tribunal fiquei contente, porque acho que nenhum ser humano tem direito de tratar outro assim.”

A investigação foi longa e o processo só avançou em 2020. “Este era um dos raros casos em que estavam reunidos todos os sinal de tráfico laboral, e todos acreditámos que iríamos assistir a uma condenação exemplar”, conta a assistente social da Femmes en Detresse. “A polícia, os advogados, o procurador e mesmo nós não tínhamos dúvidas de que isto era mais até do que tráfico, era tortura.” Mas não foi esse o entendimento do juiz. Em outubro do ano passado, e depois da apresentação de um recurso, os patrões de Mahalia foram condenados a uma multa de 2000 euros por não terem declarado os descontos da filipina. E mais nada.

Apesar do governo cumprir os critérios mínimos, o número de acusações diminuiu e os tribunais continuam a suspender as prisões efetivas aos criminosos sentenciados, criando potenciais problemas de segurança às vítimas e minando qualquer efeito dissuasor.

Relatório da ONU sobre Tráfico Humano 2020

 “Apesar de estarem previstas penas de 10 a 15 anos de prisão por tráfico de seres humanos, a lei luxemburguesa não aceita o uso da força, a fraude ou a coerção como fatores determinantes de abuso, apenas como fatores de agravamento. O que não faz qualquer sentido, porque são precisamente os fatores que estão na base de qualquer situação de tráfico humano”, lamenta a advogada Marta Correia ventura, do The Insight Project. O relatório que a ONU divulgou em junho do ano passado pede ao Luxemburgo uma mudança urgente nesta lei e avisa: “Apesar do governo cumprir os critérios mínimos, o número de acusações diminuiu e os tribunais continuam a suspender as prisões efetivas aos criminosos sentenciados, criando potenciais problemas de segurança às vítimas e minando qualquer efeito dissuasor.”

Depois da sentença, Mahalia já não tem dúvidas: “Vou abandonar o país.” Conseguiu os papéis de autorização de permanência, até arranjou emprego a cuidar de crianças, que é o que mais gosta de fazer. “Mas o Luxemburgo é demasiado pequeno. O risco de encontrar os meus antigos patrões na rua é grande. E eles vão-se rir de mim, vão humilhar-me mais uma vez, porque estragaram-me a vida e não tiveram consequências nenhumas. Assim não consigo viver.”

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A dança da culpa
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Ilustração de Alex Gozblau

Na passada quinta, 25 de fevereiro, o The Insight Project organizou uma campanha de sensibilização contra o tráfico humano junto ao liceu Michel-Rodange, na capital. Havia um mural que simulava uma prisão, panfletos e papéis, e cerca de 50 miúdos entre os 12 e os 18 anos foram abordados para falar do tema. “Muitos deles ficavam supreendidos por falarmos de casos deste género num dos países mais ricos do mundo. As pessoas associam os problemas de tráfico a África ou à Ásia, mas raramente percebem que as coisas também acontecem na Europa”, diz Marta Correia Ventura.

A preocupação de Marta foi criar consciência para os perigos que os adolescentes sofrem. “Nas redes sociais, no Fortnite, eles podem estar a falar com adultos disfarçados, por isso nunca devem passar dados, e muito menos fotografias, a quem não conhecem. É preciso fazê-los ver que o que entra na net fica lá para sempre”, diz a presidente do The Insight Project. No Velho Continente, explica ela, a exploração sexual tem crescido ao ritmo do desenvolvimento tecnológico.

Stéphanie Gardini é assistente social nos Médicos do Mundo, uma organização que presta apoio médico a quem não tem documentos. Se em 2015 a associação não deu mais de 532 consultas, o ano passado ultrapassou as 3000, e a tendência tem vindo sempre a crescer. “Com a pandemia começámos a reparar num grande aumento de mulheres a recorrerem à nossa ajuda e por isso decidimos criar uma consulta específica para elas.” Desde 14 de janeiro que as instalações da associação têm atendimento exclusivamente feminino, às terças feiras, entre as 15h e as 17h.

“É também aqui que conseguimos detetar muitos abusos e muitas vítimas que por vezes nem têm consciência de o serem”, diz Stéphanie. “Ou então têm simplesmente medo das represálias.” Para a assistente social, há uma falha brutal no sistema: “O Luxemburgo é pequeno, todas as casas-abrigo estão em território nacional, permitindo às vítimas serem rapidamente localizadas pelos agressores. Sobretudo quando são mulheres escravizadas sexualmente.”

Uma noite houve este homem que apareceu num carro bonito, fui com ele. Quando chegámos a casa estavam outros três. Fui parar ao hospital com o corpo feito num caco. Perfuraram-me a vagina e o ânus, partiram-me a bacia e as costelas e deixaram a minha cara num bolo. Quando terminaram, atiraram-me para a rua e urinaram em cima de mim.

Kaahini

Mas os problemas, muitas vezes, começam antes - no próprio ato de denúncia. Veja-se o caso de Kaahini. Nigeriana, tem 32 anos. A sua história é longa e começa quando tinha 11 anos. “Eu vivia no estado de Ondo, que é muçulmano e conservador. O meu pai tinha duas mulheres e achava que com aquela idade tinha de me casar com um homem de 40. Mas eu queria estudar, por isso fugi para Lagos. Ia trabalhar para casa de uma amiga da minha mãe, mas perdi-me na cidade e logo na primeira noite fui violada.”

Tinha teto e comida, faltava dinheiro para pagar os estudos. Um dia, quando tinha 17 anos, a dona da casa recebeu a visita de uma amiga nigeriana que vivia na Grécia. “Ela perguntou-me se eu não queria viajar, tentar a minha sorte na Europa. Disse-me que ali teria mais possibilidades. Perguntei-lhe o que precisava de fazer e ela disse que tinha de tirar os documentos, o que me custaria 10 mil euros. Depois ela tomaria conta de mim em Atenas.”

A mãe de Kaahini concordou com a ideia, na Europa a filha poderia sonhar com uma outra vida. Vendeu os terrenos que tinha para tratar das papeladas da rapariga. Antes de partir, a nigeriana que vivia na Grécia levou-a a um feiticeiro de voodoo. “Fez-me prometer que não fugiria e aceitaria tudo o que ela dissesse, caso contrário a minha família sofreria uma enorme tragédia.”

No final de 2009 embarcou num voo para Istambul. “Houve um homem que me acompanhou no avião, dizia que vinha para guardar-me. Quando chegámos entregou-me a outro homem, este turco, que me levou para uma casa onde viviam mais sete raparigas. “Disse-me que para estar ali tinha de dormir com ele. Eu, sozinha, sem entender nada, acedi. Durante três meses foi essa a minha vida.”

Uma noite o homem anunciou-lhe que chegara a hora de partida. Meteu-a num autocarro para Izmir, e ali houve outro homem que o levou para um pavilhão junto à praia. “Quando a noite caiu disseram-nos para corrermos. Eu era a única africana e a única mulher, ia cheia de medo por não saber nadar.” Na praia esperava-os um bote de plástico, que tiveram de encher com bombas ali mesmo. “Entrámos mas, mesmo antes de chegar a Lesbos a embarcação começou a esvaziar. Eu não sabia nadar mas dois rapazes ajudaram-me. Quando chegámos a terra, violaram-me à frente de toda a gente.”

Passou três semanas num campo de refugiados, até a registarem e lhe darem autorização de embarque para Atenas. Assim que saiu do barco telefonou à mulher que tinha conhecido na Nigéria e esta levou-a para casa. Ali viu duas dezenas de raparigas bonitas, da idade dela. “Eu estava tão feliz. Tinha atravessado um mundo de dificuldades mas finalmente estava na Europa. Achava que estávamos num salão de cabeleireiro. Depois reparei que, ao cair da noite, as raparigas começaram todas a preparar-se para sair. E foi aí que comecei a ficar desconfiada.”

No dia seguinte, a madame (era assim que chamava à nova patroa) pediu-lhe o passaporte e informou-a que o devolveria quando ela lhe pagasse a dívida. “Disse-me que lhe devia 50 mil euros pela viagem, mais o que fosse acumulando em despesas de dormida e alimentação.” Nessa noite mandou-a pela primeira vez para as ruas, bater as esquinas do bairro de Patisia, na capital grega. “Havia sempre homens a vigiar-nos, tanto em casa como nas ruas. Às vezes também abusavam de nós.”

Numa noite boa alugava o corpo a 10 ou 15 clientes, e levava umas boas centenas de euros para a madame. “Era muito perigoso porque às vezes os homens levavam-nos para casa e espancavam-nos. Uma noite houve este homem que apareceu num carro bonito, fui com ele. Quando chegámos a casa estavam outros três. Fui parar ao hospital com o corpo feito num caco. Perfuraram-me a vagina e o ânus, partiram-me a bacia e as costelas e deixaram a minha cara num bolo. Quando terminaram, atiraram-me para a rua e urinaram em cima de mim.”

Aguentou três anos nesta vida, e não foram poucas as vezes em que pensou suicidar-se. “Em 2014 um cliente que gostava muito de mim e me tratava bem prometeu ajudar-me. Durante semanas preparou a minha fuga com alguns passadores e, uma noite, em vez de me levar para casa, levou-me para Salónica, no norte do país. Daí atravessei a pé para a Sérvia, depois para a Hungria, e segui numa carrinha para a Áustria e depois para a Alemanha. Três noites depois deixaram-me numa estação de serviço no Luxemburgo.

Tentou imediatamente saber onde eram os serviços de imigração, mas eram cinco da tarde e estavam fechados. Essa é também uma das críticas que a ONU e o The Insight Project fazem aos serviços de apoio a vítimas no Grão-Ducado: funcionam apenas a horas de expediente, mesmo a linha de socorro telefónico. Deram-lhe o contacto de um abrigo em Limpertsberg e foi bater à porta. “Sai daqui, puta”, gritou-lhe o guarda.

No dia seguinte teve a primeira entrevista nos serviços de imigração, numa altura em que o Luxemburgo montava a operação de acolhimento dos refugiados por causa da guerra na Síria. “O entrevistador não acreditou na minha história, disse que eu tinha vindo para me prostituir, obrigou-me a despir-me para provar que não estava grávida. A minha sorte foi ele ter decidido transferir o meu caso para a Polícia Judiciária. E aí, finalmente, fui bem tratada.”

Andei dois anos a lutar no Luxemburgo por asilo por ter sido vítima de exploração sexual, mas o pedido foi reprovado. Deram-me o estatuto de refugiada, e explicaram-me que era quase o mesmo. Era o melhor para proteger o sistema, ninguém quer admitir problemas no paraíso.

Kaahini

A PJ tem no país um gabinete específico para as vítimas de tráfico humano, e os agentes recebem formação para não revitimizar quem já recebeu maus tratos. “Foram eles que fizeram um pedido de asilo em meu nome, diziam-me que eu tinha direito a ele por ter sido vítima de escravatura sexual. Andei dois anos a lutar por isso, mas o pedido foi reprovado. Deram-me o estatuto de refugiada, e explicaram-me que para todos os efeitos teria os mesmos direitos. Era o melhor para proteger o sistema, ninguém quer admitir problemas no paraíso.”

Kaahini conseguiu reconstruir a vida no Luxemburgo, aprendeu francês e encontrou trabalho num hospital – o seu sonho de infância. Agora tem uma casa própria numa aldeia no oeste do país, a vida reconstrói-se, um dia acredita que poderá voltar a confiar nos homens. Talvez até ter filhos. “Mas quando passo nas ruas da Gare e vejo outras raparigas nigerianas a bater as ruas penso que elas podem estar na mesma teia em que eu estive. Mas que, se calhar, se pedirem ajuda, vão chamá-las de putas e fazê-las sentir ainda mais pequenas do que elas se sentem. Qualquer pessoa que tenha sido escravizada sabe o risco de falar. Às vezes torna tudo pior.”

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