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"As línguas são um instrumento de poder", defende investigadora portuguesa
Luxemburgo 2 min. 12.03.2014 Do nosso arquivo online

"As línguas são um instrumento de poder", defende investigadora portuguesa

Sarah Vasco Correia, especializada em sócio-linguística, apresentou no Instituto Camões um livro premiado sobre a transmissão da língua portuguesa entre gerações de imigrantes

"As línguas são um instrumento de poder", defende investigadora portuguesa

Sarah Vasco Correia, especializada em sócio-linguística, apresentou no Instituto Camões um livro premiado sobre a transmissão da língua portuguesa entre gerações de imigrantes
Fotos: Manuel Dias
Luxemburgo 2 min. 12.03.2014 Do nosso arquivo online

"As línguas são um instrumento de poder", defende investigadora portuguesa

A investigadora portuguesa Sarah Vasco Correia, especializada em linguística, lamenta que o caso do anúncio de emprego que exigia português, questionado no Parlamento pelo ADR, esteja a ser usado pelo partido para questionar a integração dos portugueses, o que pode "desencadear tensões" entre portugueses e luxemburgueses.

"Questionar a vontade de integração da comunidade portuguesa pode levar a um aumento de tensões entre a comunidade portuguesa e luxemburguesa. Usar o argumento de uma eventual discriminação dos luxemburgueses, quando na verdade se trata de propor um apoio suplementar aos portugueses, serve apenas para desencadear tensões", defendeu a socióloga, sublinhando que "as línguas também são instrumentos de poder e de identidade".

As declarações foram feitas na quarta-feira, à margem da apresentação do livro "Les Portugais du Luxembourg", sobre as dificuldades de transmissão da língua portuguesa entre a primeira e a segunda geração de imigrantes portugueses no Luxemburgo.

O estudo da investigadora portuguesa, que recebeu em 2012 o prémio da Fundação Robert Krieps para a melhor tese de mestrado, foi publicado no final do ano passado. O livro foi agora apresentado aos portugueses no Instituto Camões, que encheu para ouvir a socióloga, acompanhada pelo presidente da Fundação, Ben Fayot.

Para escrever a tese premiada, Sarah Vasco Correia fez 14 entrevistas a imigrantes portugueses, sete da primeira geração e sete aos filhos destes. É através desses testemunhos que a investigadora desmonta os mecanismos de transmissão da língua materna e identifica os entraves a essa transmissão.

À cabeça dos obstáculos estão as imagens "desvalorizantes" que a sociedade luxemburguesa associa à língua portuguesa. Imagens negativas que os imigrantes podem acabam por interiorizar, "num movimento de autodepreciação", defende-se na tese.

"A primeira geração de imigrantes portugueses viveu um processo de marginalização. Eram mais pobres que os luxemburgueses, tinham empregos inferiores e viviam em alojamentos abaixo das normas da população luxemburguesa. É natural que os filhos não se queiram identificar com esta realidade, porque foi sobretudo a segunda geração que sofreu as consequências destas atitudes", explica.

O estudo está repleto de exemplos em que as pressões sociais conduziram à rejeição da língua e da identidade, vistas como um entrave à integração. Mas também de casos de convivência harmoniosa entre as duas culturas e línguas dos imigrantes, um desfecho que a investigadora, ela própria filha de imigrantes  portugueses, considera "um factor de riqueza".

"É preciso ultrapassar o paradigma de uma língua, uma nação", defendeu a investigadora, de 28 anos.

O livro está à venda nas livrarias no Luxemburgo, e pode ser adquirido também junto da Fundação Robert Krieps.

P.T.A.


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