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As contradições e perguntas sem resposta na morte de Puto G
Luxemburgo 5 min. 28.08.2018

As contradições e perguntas sem resposta na morte de Puto G

Memorial improvisado, em homenagem a Puto G, no areal do lago de Remerschen.

As contradições e perguntas sem resposta na morte de Puto G

Memorial improvisado, em homenagem a Puto G, no areal do lago de Remerschen.
Foto: Henrique de Burgo
Luxemburgo 5 min. 28.08.2018

As contradições e perguntas sem resposta na morte de Puto G

Paula TELO ALVES
Paula TELO ALVES
Uma semana depois da publicação da investigação do Contacto sobre a morte do rapper português Puto G, revelando que o pessoal do lago só chamou os socorros quase uma hora depois de o músico se afogar, apesar dos insistentes apelos dos amigos, a autarquia de Schengen negou novamente qualquer responsabilidade. E defendeu que os amigos de Puto G não sabiam onde o rapper estava, e só teriam dado o alerta hora e meia depois. As contradições e as muitas perguntas por responder no caso que abalou o Luxemburgo.

A hora e meia mal contada

Quando o Contacto esteve no lago em 30 de julho, um dia depois do segundo afogamento no espaço de um mês, a responsável do recinto, Dominique Fagny, alegou que, no caso de Puto G, os amigos "estavam todos embriagados" e só deram pela falta do músico "por volta das 16h30", "uma hora e meia" depois de ele ter desaparecido. "Uns diziam que o tinham visto nos jogos [aquáticos], outros no bar, havia 25 pessoas a dizer coisas diferentes", afirmou a funcionária contratada pela autarquia de Schengen. A responsável repetiu a mesma história à RTL na quinta-feira passada, desta vez com o apoio da autarquia.

Aqui, as perguntas são tantas que é difícil saber por onde começar. Puto G desapareceu às 15h40 e os socorros foram chamados cerca de uma hora depois, às 16h36. Como é que a funcionária pode falar em hora e meia? Puto G teria então desaparecido antes mesmo de chegar ao lago, às 15h? Depois, hora e meia a seguir a quê? Qual é o momento zero a partir do qual a responsável conta uma hora e meia? O afogamento? Mas não tinha afirmado que ninguém viu o afogamento? Ou o alegado desaparecimento? Mas aqui, há outro problema. É difícil imaginar os amigos de Puto G, alegadamente, segundo Dominique Fagny, embriagados e incapazes de articular uma frase, a comunicar-lhe, educadamente: “O nosso amigo desapareceu há hora e meia.” A história de Dominique Fagny parece aceitar que os socorros só chegaram hora e meia depois, como aconteceu efetivamente. Mas a justificação não bate certo com a hora a que foi feito o telefonema nem com a lógica.

Vereador deu o dito por não dito

Tom Weber, o vereador responsável pela gestão do lago, contou uma versão diferente de Dominique Fagny, quando o jornal o questionou sobre a falta de segurança no recinto e sobre os riscos de afogamento colocados pelas algas que invadiram o lago. Numa entrevista gravada na autarquia de Schengen a 1 de agosto, o vereador disse ao Contacto que "os dois mortos não tiveram problemas com as algas", afirmando que, em ambos os casos, as vítimas desapareceram na água sem voltarem à tona, invocando testemunhas no local. No caso do búlgaro, o vereador disse que se teria tratado de "uma crise cardíaca", apesar de admitir que não conhecia os resultados da autópsia. Já sobre Puto G, cujo corpo não foi autopsiado, defendeu que se terá tratado também de "uma crise", justificando a conclusão com os testemunhos dos amigos. "Ele estava com os amigos, juntos, e eles viram-no mergulhar, mas não o conseguiram encontrar", disse Tom Weber. Um relato que contraria a versão de Dominique Fagny de que os amigos só deram conta do desaparecimento "uma hora e meia mais tarde" e que não sabiam dizer onde estava. Agora, depois da investigação do Contacto, o vereador parece ter-se esquecido do que disse e apoia a versão da responsável do lago.

O chefe dos mergulhadores da proteção civil também descreveu o afogamento de Puto G ao Contacto numa reportagem anterior, o que seria impossível se, de facto, como alega a responsável do lago, ninguém soubesse onde estava o músico. E quem teria então dado indicação aos mergulhadores sobre o local onde o corpo se encontrava, se, como pretende Fagny, ninguém sabia dele?

Os certificados que antes de o ser nunca o foram

Em declarações também à televisão RTL, o vereador de Schengen disse que os chamados “vigilantes” do lago têm “os certificados” ou as qualificações necessárias. A jornalista não o questionou sobre que certificados serão esses, deixando no ar a ideia de que se trata de qualificações necessárias para exercer a função de salva-vidas. Sucede que a lei não exige aparentemente nadadores-salvadores em lagos, por falta de regulamentação. E, por isso, os “certificados necessários” podem ser qualquer coisa. O que nenhum deles tem, segundo o próprio vereador Tom Weber admitiu ao Contacto em 1 de agosto, é formação de nadador-salvador. Em vez disso, têm apenas um certificado de “Freischwimmer”, que atesta que sabem nadar.

As algas inocentes

Na sexta-feira, a Procuradoria emitiu um comunicado em que declara que a morte de Puto G não ficou a dever-se às algas. Curiosa conclusão, quando se sabe que não houve autópsia e quando a causa continua sem ser revelada pela mesma Procuradoria. Como dizia Eça de Queirós ao historiador Oliveira Martins, quando este fantasiava sobre pormenores das vidas de reis mortos e enterrados: “Como sabes? Estavas lá?”.

Descartar responsabilidades

O burgomestre de Schengen, Michel Gloden, questionou em declarações à RTL por que razão os amigos de Puto G não ligaram eles próprios para o 112. Em resposta, o advogado Bernard Colin, em entrevista ao Contacto, não poupa críticas à autarquia e acusa-a de tentar descartar responsabilidades para cima de pessoas em pânico. A reportagem do Contacto também explicava que, quando os jovens foram pedir ajuda, acreditavam que havia nadadores-salvadores, a única forma de acorrer a tempo ao amigo. Em vez disso, terão sido ignorados e mesmo ameaçados pelos funcionários. Depois, os empregados do lago ter-lhes-ão dito que já tinham chamado socorros, segundo Inês Varela contou ao Contacto: "Eles [os funcionários do lago] não diziam que não, diziam 'Tenham calma, que já estamos a resolver, os bombeiros já estão a chegar'", recorda Inês. "E nessa frase de 'os bombeiros já estão a chegar' é quando passa uma hora e vinte".

A investigação que continua... parada

A Procuradoria anunciou na sexta-feira que a investigação à morte de Puto G nunca esteve fechada e que vai continuar. E prometeu investigar as alegações de omissão de auxílio reveladas pelo Contacto. Mas, quase dois meses depois de o 'rapper' ter morrido, Inês Varela – que o viu afogar-se – continua sem ser contactada pela Polícia para ser ouvida. Há dois meses que o inquérito está parado?


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