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Antes a morte que tal sorte
Comentário Luxemburgo 3 min. 10.07.2020

Antes a morte que tal sorte

Antes a morte que tal sorte

Foto: Guy Jallay
Comentário Luxemburgo 3 min. 10.07.2020

Antes a morte que tal sorte

Hugo GUEDES PINTO
Hugo GUEDES PINTO
Aqui está, nas reações às interdições britânicas de voar para Portugal continental, a dependência da droga turística. Há uns 20 anos, alguém tomou a “decisão estratégica” de fazer depender a economia portuguesa deste sector, abandonando progressivamente a indústria e a agricultura

Na sexta-feira o Reino Unido excluiu Portugal continental da sua lista de corredores aéreos seguros – ou seja, quem quiser por exemplo aterrar em Londres viajando desde Lisboa fica sujeito a uma quarentena de duas semanas, o que na prática vai dissuadir os turistas britânicos de irem a terras lusitanas este ano e desviar a maior parte dos 3,3 mil milhões de euros que eles trazem consigo para outras paragens.

A decisão já era esperada, mas os políticos portugueses não a tentaram alterar em antecipação; em vez disso, já depois do seu anúncio, rasgaram as vestes patrióticas e juntaram-se em coro oficial tão chocado quanto ofendido. O ministro dos Negócios Estrangeiros usou de linguagem altamente diplomática: “absurdo”, “injusto”, “a corrigir rapidamente”. O presidente da República veio lembrar pela enésima vez a “mais velha aliança do mundo” entre os dois países (e que não é conhecida por nenhum britânico), adicionando uma ameaça velada: “os países são como as pessoas, às vezes estão no alto e outras em baixo e precisam dos outros...”. Já a reacção do primeiro-ministro recordou-me o clássico que Sérgio Godinho canta, às vezes em dueto com os Xutos e Pontapés: “Ficar parado? Antes o poço da morte que tal sorte”.

António Costa usou o seu twitter para fazer um apelo que, de tão desajustado, representa bem o estado a que chegamos. A mensagem, totalmente escrita em inglês e completa com as hashtags #UK e #visitportugal, apresentava um gráfico comparando os casos totais do Reino Unido (a vermelho) e os casos totais do... Algarve (a verde, barra mais pequena) e rematava com “venham fazer férias no Algarve, são bem-vindos!”. Belíssimo, só levanta dois pequenos problemas, e nem sequer estou a falar da estranheza de ver um chefe de Governo a prestar-se a este papel quase de agência de viagens.

Primeiro há aqui uma manipulação grosseira: o Reino Unido tem (muito) mais casos que o Algarve, mas este é apenas uma região – os números totais de Portugal não são assim tão bons, sobretudo porque incluem Lisboa, onde a situação se complicou por desleixo da população (e do governo central). E se em vez de casos totais compararmos novas infecções, então Portugal apresenta neste momento quase o dobro do Reino Unido e a nível europeu apenas estará atrás da Suécia.

Ainda mais grave, no entanto, é a mensagem subjacente: “sabemos que muitos de vós estarão infectados mas ainda assim preferimos arriscar a nossa saúde para podermos continuar a servir-vos cervejas e fazer as vossas camas”. 

Aqui está, em todo o seu esplendor, a dependência da droga turística. Há uns 20 anos, talvez mais, talvez menos, alguém tomou a “decisão estratégica” de fazer depender a economia portuguesa deste sector, abandonando progressivamente a indústria e a agricultura sem nunca chegar a apostar no conhecimento. E assim se ligaram os destinos da outrora orgulhosa nação aos dos humores (e das bolsas) de visitantes alemães, espanhóis, britânicos e franceses. Quando estes deixaram de viajar para a margem islâmica do Mediterrâneo, afugentados por um choque externo – o terrorismo – e não paravam de chegar ao Algarve, Lisboa ou Porto, a ideia pareceu ainda mais genial: era uma economia de casino em que só se ganhava.

Agora que outro choque externo secou a fonte de receitas, entendemos bem o que é não estar ao comando do próprio destino: reduzidos a pedinchar, pelas mais altas figuras do Estado, que ingleses continuem a invadir praias, bares e hotéis, mesmo correndo o forte risco de criar novos focos de infecção no país, tudo em aparente falta de consideração pela saúde dos próprios habitantes locais. Ficar sem turismo? Literalmente, antes a morte que tal sorte.

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