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António Valente. Dividido entre Marcelo e Marisa
Luxemburgo 4 min. 01.01.2021

António Valente. Dividido entre Marcelo e Marisa

António Valente. Dividido entre Marcelo e Marisa

Foto: António Pires
Luxemburgo 4 min. 01.01.2021

António Valente. Dividido entre Marcelo e Marisa

Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Nuno RAMOS DE ALMEIDA
O vice-presidente do CLAE, o português António Valente, faz previsões muito pessimistas para o ano de 2021. A crise vai ter consequências pesadas do ponto de vista social e até implicações no crescimento dos suicídios.

Antes de chegar ao Luxemburgo, António Valente tinha estado mais de uma dezena de anos emigrado na Venezuela onde trabalhou no setor das panificação e restauração. Mas a violência das convulsões sociais, ainda no tempo do Caracazo, fê-lo querer ir embora. “Pessoas que nos sorriam um dia eram capazes das piores violências no dia seguinte”. Regressou a Portugal onde montou um negócio na mesma área. Mas sentia que embora ganhasse muito, apenas vivia para trabalhar e não trabalhava para viver.

Quando visitou o Luxemburgo, pela primeira vez, ficou maravilhado, “é um pedaço do paraíso na terra”, afirma com convicção. A paz social, a riqueza, mas sobretudo a natureza fizeram escolher viver aqui.

Não quis voltar a trabalhar na restauração, “se o quisesse teria ficado em Portugal”, justifica. Um dos primeiros empregos que arranjou foi na Luxair, mas não se adaptou à vida do trabalho de turnos. “Estava a constituir família e queria tempo para fazer outras coisas sem ser trabalhar”. Passado uns tempos, encontrou trabalho nas empresa em que ainda está. Fazem isolamentos sonoros e térmicos de instalações e edifícios. “É um trabalho que está sempre a mudar e em formações, gosto muito do que faço”.

Na empresa, começou por se inscrever na OGBL, mas depois mudou. “Normalmente, na OGBL quem decidia eram os trabalhadores alemães, agora que organizamos um grupo da LCGB, os outros trabalhadores de outras nacionalidades, passaram a ter também uma palavra a dizer”, explica.

Mas a sua paixão está no associativismo, dedica grande parte das suas horas livres a trabalhar para o CLAE (Comité de Ligação das Associações de Estrangeiros). É vice-presidente. Este ano pela primeira vez, o CLAE não organiza, em virtude da pandemia, o Festival das Migrações, mas Valente garante que não vão ficar parados: “Vamos organizar nas datas do festival uma série de debates online, para discutir problemas existentes no Luxemburgo e ouvirmos e mobilizarmos os imigrantes e as suas associações.”

Apesar disso, tem expectativas muito pessimistas para o ano de 2021, “vai ser um ano bastante complicado no mundo, em Portugal e no Grão-Ducado, a começar pelas as associações, muitas vão fechar por problemas económicos, devido a terem sido impedidas de fazer grande parte das atividades e convívios que lhes davam dinheiro para subsistir”, alerta.

Do ponto vista social, António Valente não tem dúvidas que vai haver um forte crescimento das desigualdades mesmo no Grão-Ducado, mas sobretudo em Portugal onde traça um cenário carregado: “Vamos presenciar ao desaparecimento da classe média. Os ricos vão ficar mais ricos e os pobres ainda mais pobres. Vai baixar o poder de compra das pessoas e estalar uma crise maior que nas anteriores”. Esta situação em vários países do sul da Europa, vai provocar o aumento da imigração para os países como o Luxemburgo, prevê Valente, sublinhando que “vai ser um ano propício para os exploradores que se aproveitem da miséria dos outros”, e que por isso é preciso um forte movimento social para evitar que situações de quase escravatura aconteçam.

O aumento da imigração e a crise podem ser combustível para que o populismo aumente no Luxemburgo e que partidos como o ADR possam extremar o seu discurso contra os estrangeiros, considera o dirigente associativo.

A crise também vai ter, segundo defende, fortes implicações psicológicas tanto a nível dos mais idosos, que se sentem mais isolados, como dos mais novos que sentem que os seus sonhos podem ser adiados para sempre. A António Valente é muito pessimista a esse respeito, “contacto com muita gente na minha atividade, vejo o desespero das pessoas, temo que o número de depressões e até de suicídios aumente.”

Mesmo a vida familiar foi afetada em 2020 com os confinamentos forçados e a fatura poderá ser paga em divórcios em 2021: “As pessoas vivem no meio da incerteza e muitas foram obrigadas a ficaram fechadas em casa, o que agudizou e dificultou as relações entre muitos casais.”

Sobre a política portuguesa, António Valente tem duvidas e mudou a sua posição. “Nas eleições anteriores votei em Passos Coelho, até porque sempre fui do PSD. Mas se houver agora eleições acho que votaria em António Costa.”. Diz que é fiel nas sua preferências, apesar de tudo: “vejo um partido como um clube de futebol e por isso não creio que vá mudar. Mas já votei em pessoas de vários partidos. Por exemplo, não o voltaria a fazer, mas votei em Paulo Portas quando se candidatou pelo círculo de Aveiro.”

Nas presidenciais de 24 de janeiro, o ativista social também está dividido entre dois amores: “voto Marcelo Rebelo de Sousa ou Marisa Matias. Sou amigo dela e sempre que tenho uma questão para resolver ou um problema que preciso de apoio e ajuda, ela está disponível. Neste momento ainda não decidi em quem votar, mas será num ou noutro.”

Uma coisa que deseja para 2021 é que os conselheiros eleitos da comunidades portuguesas no Luxemburgo sejam mais ativos, “deviam deixar-se de jogos políticos e ouvir mais as pessoas e empenharem-se na resolução dos problemas concretos dos portugueses no Grão-Ducado e combater as redes de exploração de trabalhadores existentes.”

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