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António Costa em entrevista : “O Luxemburgo será sempre um destino preferencial na minha agenda de visitas”
António Costa reafirmou a intenção de passar o Dia de Portugal com emigrantes portugueses, uma promessa que fez quando visitou o Luxemburgo, em Junho

António Costa em entrevista : “O Luxemburgo será sempre um destino preferencial na minha agenda de visitas”

Foto: Reuters
António Costa reafirmou a intenção de passar o Dia de Portugal com emigrantes portugueses, uma promessa que fez quando visitou o Luxemburgo, em Junho
Luxemburgo 6 min. 23.12.2015

António Costa em entrevista : “O Luxemburgo será sempre um destino preferencial na minha agenda de visitas”

Em entrevista ao Luxemburger Wort e ao CONTACTO, a primeira a um jornal do Luxemburgo, António Costa fala sobre a coligação inédita formada pelos partidos de esquerda e recorda a vinda ao Luxemburgo no último 10 de Junho, reafirmando a intenção de passar o Dia de Portugal com os emigrantes portugueses.

O seu Governo é o primeiro que é apoiado por uma coligação de partidos de esquerda. Como está a correr esta aliança inédita?

António Costa – Os acordos firmados com o PCP, o PEV e o BE não escondem que existem diferenças de fundo, mas temos a capacidade necessária para, apesar dessas diferenças, trabalhar numa convergência de políticas que permita melhorar a condição de vida dos portugueses. As primeiras semanas desta aliança têm demonstrado que os partidos estão verdadeiramente empenhados num rumo comum para o país.

O povo português sente-se traído pelo resultado das eleições?

António Costa – O resultado das eleições deixou claro que o povo português desejava uma mudança de política. Cerca de 62% dos eleitores votou contra a austeridade imposta aos portugueses nos últimos quatro anos, elegendo uma maioria parlamentar que tem toda a legitimidade para governar. É um procedimento normal da democracia, segundo o qual forma Governo o partido ou partidos que disponham de um suporte parlamentar maioritário, como aliás sempre defendeu o Presidente da República.

Ao contrário da Grécia, Portugal não depende do financiamento europeu, mas dos mercados, que ficaram alarmados com a notícia de um Governo apoiado pela esquerda radical. Conseguiu acalmar o mercado financeiro?

António Costa – Não concordo com a ideia de que os mercados tenham manifestado uma preocupação significativa. Houve alguma volatilidade nos mercados no período de maior incerteza sobre a constituição do Governo mas esta foi ultrapassada mal se clarificou que havia condições para a formação de um Governo estável e com uma ampla maioria de apoio. De qualquer forma o Governo expressa o seu pleno comprometimento com uma trajectória sustentável de redução do défice e da dívida que contribuirá para melhorar a percepção dos mercados financeiros relativamente à situação económica portuguesa.

Portugal continua sem entregar a proposta de orçamento para 2016. Bruxelas está impaciente. Quando espera terminar o porjecto de orçamento e de que forma vai Portugal conseguir respeitar o pacto de estabilidade e crescimento?

António Costa – O Governo já manifestou o seu compromisso com o cumprimento das obrigações e regras da UE e da zona euro, sem qualquer disrupção. Como é conhecido, face ao período eleitoral, o anterior Governo entendeu não apresentar o plano orçamental português para 2016 no momento previsto. Desde que estamos em funções contactámos as instituições e os nossos parceiros europeus para lhes apresentar as linhas de actuação fundamentais previstas no Programa de Governo. Assumimos também o compromisso de apresentar o plano orçamental para 2016 até ao final do ano, apontando-se neste momento a sua apresentação às instituições europeias para a primeira metade de Janeiro. Relativamente ao respeito pelo quadro do pacto de estabilidade e de crescimento, o cenário macroeconómico subjacente ao Programa de Governo mostra uma trajectória descendente do peso do défice e da dívida pública no PIB, ao contrário do que aconteceu ao longo dos últimos anos, em que o peso da dívida não parou de subir. Essa trajectória está plenamente em linha com o cumprimento das obrigações associadas à participação plena na UEM.

O seu Governo garantiu que vai respeitar os compromissos internacionais, mas quer pôr fim à austeridade iniciada em 2011 pelo anterior Executivo. Não há uma contradição entre estes dois objectivos?

António Costa – Acreditamos que será possível prosseguir com o objectivo de pôr fim, de forma responsável, ao ciclo de empobrecimento que a anterior política de austeridade impôs, respeitando, ao mesmo tempo, os tratados internacionais a que estamos vinculados. Tentou passar-se a ideia de que não haveria alternativa à austeridade sem incumprir com o Tratado Orçamental mas, pelo contrário, estamos convencidos que não existe consolidação sustentável das finanças públicas sem crescimento económico e sem uma alteração verdadeiramente estrutural da economia que promova a competitividade baseada no conhecimento, na tecnologia e na inovação. Nesse sentido, definimos uma trajectória gradual de redução do défice que nos permitirá descer a 1,9%, em 2019.

Portugal tem uma lição a tirar das dificuldades enfrentadas pela Grécia na União Europeia?

António Costa – Julgo que a Europa como um todo tem tirado as conclusões desta crise: tem compreendido que só através do diálogo entre todos, sem posições unilaterais, e sem excluir ninguém, conseguimos as soluções. Mas há uma segunda lição, que está à vista de todos: a aplicação de políticas de austeridade sem uma estratégia de crescimento apenas conduz a maior empobrecimento.

Os portugueses são a maior comunidade estrangeira no Luxemburgo. Quando espera visitar o Grão-Ducado?

António Costa – O Luxemburgo é – e será sempre – um dos destinos preferenciais na minha agenda de visita às comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo. Ainda este ano tive oportunidade de festejar o 10 de junho em Esch-sur-Alzette, onde fui muito bem recebido e acarinhado por todos os portugueses que se juntaram às comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades, e espero poder regressar em breve. Nessa ocasião, manifestei aliás o desejo de, no futuro, celebrar sempre que possível essa data junto das comunidades portuguesas – excepto se o próprio Presidente da República decidir deslocar-se ao estrangeiro –, de forma a agradecer e honrar o seu extraordinário contributo para a economia, a valorização da língua e a promoção da imagem do país no estrangeiro.

(Entrevista publicada também no Luxemburger Wort) 

AntónioCosta entre as escolhas de Mars Di Bartolomeo

António Costa e Mars Di Bartolomeo
António Costa e Mars Di Bartolomeo
Foto: Arquivo LW

A entrevista a António Costa foi um dos destaques na edição de sábado do Luxemburger Wort, que teve o presidente da Câmara dos Deputados, Mars Di Bartolomeo, como “chefe de redacção por um dia”. Uma função que o também ex-ministro da Saúde de Juncker conhece bem, ele que foi jornalista e chefe de redacção do Tageblatt.

O socialista aceitou o desafio do diário luxemburguês, que já convidou várias personalidades para assumir o papel de chefe de redacção. A opção de entrevistar António Costa reflecte também “a amizade entre os dois países”, disse ao CONTACTO o jornalista Christophe Langenbrink, que coordenou a edição.

“A escolha do presidente da Câmara dos Deputados deve-se seguramente também à amizade que une os dois países. São ambos do mesmo partido, mas esta é também a primeira vez que Portugal tem uma coligação governamental deste tipo, e as questões reflectem este importante momento político”, explicou o jornalista do Luxemburger Wort, que faz parte do mesmo grupo do semanário português. “Optámos também por publicar a entrevista em dois dos nossos jornais, em francês e em português, pelo interesse que entendemos ter para a grande comunidade portuguesa no país”, disse Langenbrink.

Mars Di Bartolomeo esteve em Portugal em Fevereiro deste ano a convite de Assunção Esteves, altura em que se encontrou também com António Costa.






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