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Amália já não vai ser nome de rua em Differdange
Luxemburgo 8 21 min. 14.05.2019

Amália já não vai ser nome de rua em Differdange

Amália já não vai ser nome de rua em Differdange

Foto: Matic Zorman
Luxemburgo 8 21 min. 14.05.2019

Amália já não vai ser nome de rua em Differdange

Paula TELO ALVES
Paula TELO ALVES
A proposta de batizar uma rua com o nome da fadista causou incómodo na autarquia do sul do Luxemburgo. Em causa está a alegada ligação de Amália com a ditadura de Salazar. Em vez disso, a rua deverá vir a chamar-se Sophia de Mello Breyner Andresen. Mas há quem conteste que a fadista fosse fascista e a preferisse à poetisa portuense.

O assunto foi discutido à porta fechada. O nome das ruas de um novo bairro de Differdange era o ponto 7 da agenda do conselho comunal de 3 abril, mas antes de o encontro começar, o burgomestre fez um aviso. “A pedido de alguns conselheiros”, as propostas não iam ser discutidas em público, disse Roberto Traversini, na gravação do encontro disponível no site da autarquia.

Na mesa estava a sugestão de batizar uma das ruas com o nome de Amália Rodrigues. Uma forma de homenagear os mais de nove mil portugueses a viver em Differdange, que representam mais de um terço da população. Mas a ideia não agradou a Gary Diderich, conselheiro comunal e porta-voz nacional do Déi Lénk (A Esquerda). “Informámo-nos junto da comunidade portuguesa para saber quem é essa pessoa e aí recebemos reações contraditórias. Nem todos estão de acordo sobre o papel de Amália durante a ditadura de Salazar”, disse Gary Diderich ao Contacto. “Ela não era, segundo as nossas informações, uma colaboradora do regime, mas também não era uma pessoa que estivesse na resistência, e era um cartão-de-visita do regime”, defende.

A rua da discórdia fica na zona de Mathendhal, um novo bairro a ser construído em Differdange. A proposta de Amália Rodrigues veio da Comissão de Integração, de que fazem parte imigrantes portugueses. Mas um dia antes de ser discutida, um dos membros do Conselho Nacional para Estrangeiros (CNE), um órgão de consulta do Governo para as questões da emigração, que vive na localidade, publicou um texto nas redes sociais a criticar a escolha. “Ela era, apesar das suas convicções políticas, um dos três F, ou bandeiras do regime fascista de Salazar: Fado, Futebol e Fátima”, escreveu Mário Lobo, num texto publicado em francês. “Ora, os portugueses que vieram para o Luxemburgo emigraram precisamente para escapar à fortuna maldita que era a ditadura”.

Batizar a rua com o nome de Sophia de Mello Breyner, cujo centenário do nascimento se celebra este ano, seria “o ponto de partida” para que “um dia os portugueses no Luxemburgo não sejam sinónimo exclusivamente de Fado e sardinhas”, propôs Mário Lobo. “Já somos muito mais do que empregadas de limpeza e pedreiros”, escreveu.  


Ao Contacto, o membro do CNE explica a sua posição. “Estou farto que os portugueses sejam só associados ao fado e às sardinhas”, diz. “É certo que Amália é um símbolo português e que o fado é património da humanidade, mas é uma parte pequeníssima da nossa cultura. E nós continuamos a dar só esta imagem da cultura portuguesa”.

Mário Lobo é formador de informática e chegou ao Luxemburgo há 11 anos, como “refugiado económico”. “Entre o desemprego e a emigração, a escolha foi fácil”. Para o português, o fado representa a “cristalização de um estilo de vida” que “já é tempo de esquecer, ou pelo menos de ultrapassar”. Apesar de não acreditar que “Amália era apoiante do fascismo”, defende que foi “uma ferramenta do regime fascista”, para manter a imagem “de um país pequenino, de uma vida sofrida”.

É também a imagem dos portugueses no Luxemburgo que o membro do CNE gostaria de mudar. “Não é menosprezar essa população, mas é também evitar que ao português se cole sempre o rótulo de mulher da limpeza ou pedreiro”. “Há histórias de mulheres licenciadas que chegaram ao Luxemburgo, nesta nova emigração, e quando vão à ADEM [centro de emprego] pela primeira vez, dizem-lhes: ’mulher da limpeza é no segundo andar’”. “Já não somos só pedreiros e mulheres de limpeza”, reitera, recordando que o Luxemburgo tem também um vice-primeiro-ministro lusodescendente, Félix Braz, ou uma cabeça de lista às eleições europeias de origem portuguesa. “Se é para dar a uma rua o nome de “uma mulher portuguesa, então que seja Sophia”, “uma artista da palavra”, defende.

Gary Diderich fez like ao post e faz suas as críticas de Mário Lobo. “Se a primeira pessoa que escolhemos para dar o nome de uma rua representa o estereótipo português – o fado, as sardinhas, um futebolista do Benfica [Eusébio] –, arriscamo-nos a confinar uma comunidade a estes estereótipos”.

Se a primeira pessoa que escolhemos para dar o nome de uma rua representa o estereótipo português – o fado, as sardinhas, um futebolista do Benfica [Eusébio] –, arriscamo-nos a confinar uma comunidade a estes estereótipos. 

Amália não foi o único nome que causou controvérsia: o Déi Lénk também se opôs a Indira Gandhi e Kethy Thull, autora de um livro de receitas de cozinha luxemburguesa, por “ser um símbolo da ideia de que o lugar da mulher é em casa”. O conselho comunal decidiu adiar a decisão para 15 de maio, para permitir a discussão de novas propostas. No acordo a que chegaram os presidentes dos partidos, que deverá ser votado numa nova assembleia municipal, já esta quarta-feira, o nome português na lista deverá ser Sophia. Mas há quem preferisse a fadista.

Paulo Aguiar, conselheiro comunal – o equivalente a deputado municipal –, eleito pelos Verdes, que governam a autarquia, é um deles. “Fico muito triste por certas pessoas verem a Amália como uma figura do regime de Salazar, porque daquilo que eu leio, não corresponde à verdade”. O português ainda tentou “tirar as dúvidas” e “provar por A mais B” que Amália não era fascista, mas foi tarefa impossível. “Não sei onde é que vou conseguir esse ’certificado’”.

Amália está pelo menos numa rua de Differdange, na fachada do restaurante português Le Centenaire
Amália está pelo menos numa rua de Differdange, na fachada do restaurante português Le Centenaire
Foto: Matic Zorman

Polémica é “disparatada”

O musicólogo Rui Vieira Nery é o presidente das comemorações do centenário do nascimento de Amália, que se realizam em 2020, com o apoio da Unesco, e acha que a associação da fadista ao regime é “completamente disparatada”. “Isso é não conhecer a história do fado, é reduzir o fado a essa suposta associação. É claro que o regime tentou manipular o fado como um instrumento de propaganda, mas o fado é muito mais do que isso”, diz o ex-secretário de Estado da Cultura ao Contacto.

“Não há a menor suspeita de colaboração ativa da Amália com a PIDE”, garante, recordando que a fadista cantou “poetas de esquerda”, incluindo Zeca Afonso, Ary dos Santos, Manuel Alegre. “Em 1962 ela gravou ’o fado do abandono’, do David Mourão Ferreira, sobre os presos políticos da prisão de Peniche, nomeadamente Álvaro Cunhal, que estava lá preso, o que fez com que o disco estivesse durante algum tempo apreendido”, recorda. E lembra que “um dos mais importantes compositores na carreira da fadista, Alain Oulman, foi expulso pela PIDE e continuou a enviar canções, que a Amália continuou a gravar”. A fadista chegou mesmo “a dar dinheiro às famílias dos presos políticos”, como reconheceram José Saramago e Carlos Carvalhas, ex-secretário-geral do PCP.

Para Rui Vieira Nery, a associação “fado e sardinhas” também representa uma desvalorização cultural de uma mulher que cantou os maiores poetas portugueses. “Ela foi uma força de renovação da música popular portuguesa, é uma mulher amada pelo povo português, e isso foi bem patente no funeral dela: centenas de milhares de pessoas saíram à rua e milhares de pessoas vão visitar o túmulo dela ao Panteão nacional, e não vai dizer que são todos fascistas”, ironiza.

Sobre a proposta de dar o nome de Sophia de Mello Breyner à rua que era para ser Amália, Rui Vieira Nery acha “uma pena contrapor dois nomes tão importantes na cultura portuguesa”. “Sophia merece ter uma rua em todas as cidades do mundo, é uma grande poetisa mundial, agora manda a decência e a verdade histórica que não se confundam as coisas”.

Uma cidade de imigrantes

Differdange é a terceira maior localidade do país e a segunda com maior percentagem de portugueses. Ali vivem mais de nove mil imigrantes, que representam 35% da população. O peso dos portugueses só é maior em Larochette (44%). Mesmo em números absolutos, Differdange é a terceira localidade com mais portugueses (9 mil), a seguir à capital (12 mil) e Esch-sur-Alzette (11 mil), segundo o Statec.

Foi ali que nasceu o ministro da Justiça Félix Braz, filho de algarvios e figura de proa dos Verdes, o partido do conselheiro municipal Paulo Aguiar. Além de deputado municipal dos ecologistas, Paulo Aguiar é o presidente da Comissão Consultiva de Integração, um órgão cuja missão resume assim: “permitir que as pessoas se sintam em casa”. “Não gosto da palavra ’integração’, prefiro ’inclusão’. Se estamos neste país, trabalhamos, pagamos os nossos impostos e os nossos filhos vão à escola, fazemos parte integrante da sociedade”. É por isso que, após 24 anos no Luxemburgo, Paulo Aguiar não se sente “nem integrado, nem excluído”: sente-se “extremamente bem”. “Os meus vizinhos vêm comer as sardinhas a minha casa e eu vou a casa deles comer as salsichas luxemburguesas”, conta.

O conselheiro municipal Paulo Aguiar.
O conselheiro municipal Paulo Aguiar.
Foto: Matic Zorman

O português chegou ao Luxemburgo com 17 anos e andou “perdido”: foi trabalhar para uma fábrica, que acabaria por falir. Através do Serviço Nacional da Juventude, acabou na “Maison des Jeunes”, onde conheceu “um patrão espetacular”. “Eu mal falava francês, luxemburguês nem imaginava, e ele disse-me: ’Paulo, vamos começar pelas bases. Primeiro, as línguas’”. “Ele só me dizia o que eu tinha de fazer e eu fazia”. Encorajado pelo luxemburguês, Paulo Aguiar voltou à escola para obter o diploma de educador. “Quando eu soube que tinha sido eleito conselheiro comunal, ele foi a primeira pessoa a quem liguei. ’É por tua causa que estou aqui’”, disse-lhe, a chorar. “Não”, respondeu-lhe o luxemburguês, “é por tua causa”.

O futebol também faz parte das atividades de Paulo Aguiar, que é presidente do clube de futebol de salão de Differdange, batizado R.A.F. São as iniciais de “Regroupement Amical de Futsal”, mas há quem brinque que quer dizer “Rien à faire” (nada a fazer), conta Paulo, a rir. “São jogadores de domingo de manhã, é uma desculpa para estarem ali na galhofa”. Também não parece haver nada a fazer quanto à proposta de batizar uma rua Amália. Mas na cidade há quem pense que a fadista representaria melhor os imigrantes do que a poetisa que poucos conhecem.

“Sophia quê?”

O fotógrafo Paulo Lobo, responsável da revista de arquitetura Wunnen, documenta há anos a presença portuguesa no Luxemburgo, das marchas populares à vida nos cafés. Este mês, nos encontros de “Street Photography”, apresentou uma seleção de fotografias a que chamou “Ó gente da minha Differdange”. A alusão ao poema escrito por Amália, popularizado por Mariza, não é acidental. A polémica em torno do nome da rua da cidade a que chegou em 1971, com sete anos, vindo da Baixa da Banheira, enerva-o. “Amália era a voz do povo, era conhecida em Portugal e no mundo inteiro, não era por isso que era colaboradora do regime”, insurge-se. "Já agora apagamos tudo, arrancamos tudo, somos páginas em branco. Vamos deixar de ler Shakespeare porque era machista?", questiona.

Sentado no “Fim do Mundo”, o primeiro café português para quem chega à cidade de comboio, Paulo Lobo diz que a poetisa Sophia de Mello Breyner não representa os portugueses de Differdange. “Aqui ninguém a conhece. Se realmente a ideia é homenagear a comunidade portuguesa que aqui está, escolha-se um símbolo que toda a gente conhece. Por mim até podia ser Rua do Pastel de Nata: é neutro, não foi fascista”, ironiza. Os proprietários do café dão-lhe razão. “Sofia quê?”, pergunta João Gil, quando lhe dizemos o nome previsto para a “rua portuguesa”. A mulher, Maria da Conceição, há 25 anos no Luxemburgo, também não sabe quem é.

São 10h da manhã e o café começa a encher-se ao ritmo preguiçoso dos domingos. Imigrantes cabo-verdianos jogam sueca. Por cima do café há quartos para arrendar por 600 euros, 800 “com comida e roupa lavada”, única hipótese para quem não pode pagar um apartamento nem passar o crivo das agências imobiliárias. “São todos trabalhadores da construção”, conta a proprietária do café. Sentado ao balcão, Alfredo Loures, motorista a viver em Differdange há três anos, é o único que sabe quem foi Sophia de Mello Breyner. “É uma escritora, não é?”.

A localidade industrial foi berço das primeiras associações de imigrantes no país. O primeiro clube de futebol português foi em Differdange, a primeira rádio pirata em português (rádio Viriato) também. A União Amigável de Portugueses (UAP) já não joga, mas no café onde nasceu a primeira equipa de futebol português no país, em 1970, imigrantes continuam a bater cartas.

Michel Ribeiro nasceu em Differdange e é presidente da coletividade desde 1999. Nunca ouviu falar da poetisa do Porto. “Eu do que me lembro dos antigos aqui a falar era a Amália, o Marco Paulo, que já cantava nessa altura, e os jogadores de futebol”, recorda. E acha que o nome da rua devia ser decidido pelos portugueses que ali vivem. “Eles na comuna davam cinco ou seis nomes e a gente escolhia”. Michel admite que gosta de música pimba mas “até votava para a Amália”. “Ela ultrapassa gerações, e você pergunta aí e qualquer pessoa sabe quem é”.

Sophia de Mello Breyner, cujo centenário do nascimento foi assinalado este ano na Universidade do Luxemburgo, é uma desconhecida para a maioria das pessoas que frequentam o café da UAP. “Quem é essa?”, pergunta Patrick, a jogar uma partida de cartas. A assistir ao jogo, Danilo Correia, de 27 anos, a viver no país há sete, é o único que a conhece. “Li na escola”, explica este trabalhador da construção.

A sede da UAP é pouso obrigatório de muitos reformados do setor, mas a nova geração que frequenta o café não parece ter escapado à mesma sina. Quando perguntamos aos jovens embrenhados numa partida de sueca o que fazem, a resposta é invariavelmente a mesma. “Trabalho nas obras, pá e ’piocha’ [picareta], não dei para mais”, diz Fábio Guedes, boné com a bandeira de Portugal, de 28 anos. “Vim para aqui com 17 anos, foi logo”. “Ponha que trabalhamos no duro”, propõe outro jogador. Riem-se todos.

O regresso dos imigrantes das férias em Portugal. Retrato da exposição "Terra de Vida", de Paulo Lobo.
O regresso dos imigrantes das férias em Portugal. Retrato da exposição "Terra de Vida", de Paulo Lobo.
Foto: Paulo Lobo

A difícil ascensão social

A imagem de Portugal no Luxemburgo pode não ser só as empregadas de limpeza e os ’maçons’, “mas também ainda é”, diz Paulo Lobo, que defende que não há nada de que ter vergonha e lamenta esse comentário no post do membro do Conselho Nacional para os Estrangeiros. “Ele não conhece as realidades cá?”, questiona o fotógrafo.

Se a polémica com Amália revela um passado mal resolvido, a relação de Portugal com a emigração é outra ferida por sarar. “Eu fui no ano passado a Lisboa com uma exposição à Fábrica Braço de Prata, sobre os portugueses no Luxemburgo, e também houve quem dissesse ’vocês vêm para aqui outra vez com estas imagens dos portugueses sem nível, dos portugueses como deve ser’. Houve um que agrediu verbalmente um dos fotógrafos, que tinha feito fotos de ranchos folclóricos. E ele, como jovem lusodescendente, tem o direito de se interrogar sobre a sua identidade”, defende.

Paulo Lobo também já ouviu críticas pelos retratos que faz há mais de vinte anos dos portugueses no país, e que deram origem à exposição “Terra de Vida”, na Kulturfabrik. Mostrava o folclore, as marchas populares, os cafés e mercearias, os trabalhadores da construção. “Por que é que não vais fotografar ali o dentista, o arquiteto? Assim dás outra imagem dos portugueses”, recorda Paulo Lobo. “Gostava que não houvesse uma sobranceria e que estas pessoas não tivessem de se sentir inferiorizadas”.

Em 2015, um relatório do Observatório da Emigração deitou por terra o mito da nova emigração qualificada. Apesar de o número de emigrantes qualificados ter aumentado na última década, “continuam a predominar os indivíduos com baixas e muito baixas qualificações”. A chamada “fuga de cérebros” ter-se-á concentrado sobretudo em Londres. No Luxemburgo, segundo o último Censo, em 2011, só 4% dos portugueses tinham um diploma de ensino superior; 73% tinham apenas o ensino básico, uma percentagem que aumentou mesmo oito pontos percentuais desde 2001. Mesmo a nova geração, que já nasceu aqui, em muitos casos não termina os estudos”, aponta Paulo Lobo.

A educação é uma das maiores dificuldades dos portugueses, a braços com três línguas e uma origem social que os penaliza. No Grão-Ducado só cerca de 10% dos alunos portugueses chegam ao liceu clássico. A maioria são encaminhados para o liceu técnico e a formação profissional. Differdange tem um dos piores resultados a nível nacional. Para contrariar o insucesso escolar na localidade, o antigo burgomestre e atual ministro da Educação, Claude Meisch, criou a Escola Internacional de Differdange, que adotou o modelo das escolas europeias e permite escolher a língua de alfabetização, incluindo português.  

Casal fotografado por Paulo Lobo para a exposição "Terra de Vida"
Casal fotografado por Paulo Lobo para a exposição "Terra de Vida"
Foto: Paulo Lobo

Paulo Lobo não teve essa facilidade, no início dos anos 1970. Na escola primária, lembra-se de ter sido humilhado, culpa dos “clichés que os luxemburgueses tinham sobre os portugueses”. Vinha longe o tempo em que Portugal estaria nas rotas do turismo e nas bocas do mundo, e se não fossem as viagens nas férias, o fotógrafo não teria descoberto a riqueza cultural do país. Nos anos 1980 descobriu Sérgio Godinho e sobretudo o fado, que se tornou uma das suas obsessões. “Uma coisa do passado tocava-nos novamente, à nova geração de portugueses, às vezes nascidos no estrangeiro”, diz o homem que fotografou Mafalda Arnauth e Camané. “Reconectava-me com essa cultura a que não tinha acesso, porque não havia internet, como há hoje. Ir a Portugal era conhecer outra cultura musical, era um balão de ar. Aqui, onde eu tinha passado por situações em que me tinham humilhado por eu ser português, eu sentia-me novamente orgulhoso. Para mim era importante dizer: ’vocês nem sabem do que é que estão a falar, Portugal tem uma cultura enorme’”. E Amália é uma figura de proa dessa cultura, defende. “Ela pôs em canção grandes poetas. Defendeu a língua e a cultura portuguesa, e era um vínculo extraordinário entre o povo e a elite”. 

Vindo de um meio operário, Paulo Lobo sente-se alienado dos chamados “Very Important Portuguese”, que começaram a chegar a partir dos anos 1980, por causa da Comunidade Europeia. “Também não me identifiquei com eles. Ao fim e ao cabo, não pareciam ser aqueles que eu tinha conhecido lá em Portugal, que tinham uma cultura musical e literária extraordinária, mas sem esmagarem os outros, os ’senhores doutores’”.

Foto: Matic Zorman

Em busca da identidade

Como se definem os portugueses que fizeram de Differdange “terra de vida”? Jean Portante, o mais premiado escritor luxemburguês, descendente de imigrantes italianos que vieram trabalhar aqui nas minas de ferro, no final do séc. XIX, usou a localidade como cenário dos seus romances. Um deles chama-se “Mourir partout sauf à Differdange” (“Morrer em todo o lado menos em Differdange”). Outro, “Mrs Haroy ou a memória da baleia”, descreve as agruras da busca da identidade neste bastião da imigração. “O que é preciso comer para se tornar num verdadeiro luxemburguês?”, questiona-se a personagem de Fernando, que recusa o esparguete associado às suas origens italianas. “Pés de porco, salada de focinho de vaca, tripas, morcela e sobretudo queijo derretido (’Kachkéis’)”, é a resposta.

Se somos o que comemos, em Differdange os imigrantes portugueses que se sucederam aos italianos a partir dos anos 60 e 70 mantêm-se resolutamente portugueses. Nas ruas do centro da cidade, a maioria dos cafés anunciam “spécialités portugaises”. Do café Europe ao Verde Minho, neste domingo em que o sol brilha, vêem-se muitos portugueses a fumar à porta. À entrada do restaurante “Le Centenaire”, o prato do dia é anunciado em português e francês: o bacalhau converte-se em “morrue [sic]”, o frango de churrasco em “poulet barbecue”. Da rua vê-se uma publicidade que mostra a caricatura de Amália, a “nossa voz”, ao lado de Cristiano Ronaldo e do infante D. Henrique. Os desenhos ilustram uma campanha do Licor Nacional, com quem o restaurante teve um acordo. O contrato acabou e a marca quis retirar os posters da fachada, mas a proprietária recusou. “Não tira, não, tem tudo a ver com a gente”, pediu Jocelma Santos, dona do restaurante.

Jocelma é brasileira e vive há 25 anos no Luxemburgo. Casou com um português e apaixonou-se por Portugal. Foi ela quem mandou fazer na Alemanha os painéis de falsos azulejos que decoram o espaço. Fotografias de Cristiano Ronaldo, galo de Barcelos, folclore e guitarra portuguesa anunciam que a casa é portuguesa, com certeza. Jocelma é da Bahia mas adora fado, e achava uma boa ideia dar o nome de Amália a uma rua. “O meu marido é de Lisboa e toda a vez que a gente vai, eu vou ouvir”.

Mas nem só de fado vivem os imigrantes. Michel Lopes não tem a imagem típica que se associa aos portugueses, mas também ninguém diria que é pianista clássico. O músico, professor de piano no Conservatório do Luxemburgo, usa brinco, calça sapatilhas e nos tempos livres toca no “De Läb”, um grupo de “hip hop à luxemburguesa”. A banda recebeu no domingo o prémio de mérito cultural atribuído pela autarquia de Differdange, no espaço 1535°, que acolhe ateliers de criativos, de arquitetos a designers e produtores de cinema. A reabilitação dos edifícios da Arcelor Mittal coube ao arquiteto português Jean-Paul Carvalho. O local, com bares ’hipster’ e estética industrial, é um símbolo da encruzilhada entre o passado e o futuro de Differdange: do outro lado da rua, a siderurgia onde trabalharam imigrantes italianos e portugueses continua a funcionar. Mesmo aos domingos, o fumo sai das chaminés.

O pianista Michel Lopes.
O pianista Michel Lopes.
Foto: Matic Zorman

A maioria dos membros dos “De Läb” são de Differdange, mas Michel Lopes, o único lusodescendente, nasceu no bairro da Gare, na capital. O pai “era analfabeto”, a mãe “nem a quarta classe tem”. Os pais gostavam de ver um programa televisivo chamado “L’École des fans”, uma espécie de ídolo para os pequeninos. “Passou-lhes pela cabeça que eu fosse estudar piano”. Começou aos cinco anos e hoje tem uma carreira que inclui já vários prémios. É um dos portugueses da segunda geração que conseguiram a ascensão social com que os pais sonhavam, mas viveu na pele sentimentos de inferioridade. Há uns anos, foi convidado para tocar num jantar com empresários portugueses em que estava o antigo primeiro-ministro Jean-Claude Juncker. Humilhado por se ver no papel de pianista de bar, no meio de “gente a comer e a falar”, Michel Lopes tocou uma improvisação ao piano, em protesto: uma variação da “Grândola”, a que juntou o hino nacional luxemburguês. “O Juncker levantou-se e veio-me dar um abraço”, recorda.

O pianista ouve muitas vezes a mesma pergunta: “És mais luxemburguês ou português?”. “Sou europeu”, responde. Um europeu que casou com uma belga, já viveu em três países, toca piano e assa sardinhas no quintal. "Os meus vizinhos adoram." E acha a associação de Amália ao salazarismo “uma estupidez revoltante”. “É como dizer que o Wagner era nazi, porque o Hitler ouvia Wagner”, compara.

É como dizer que o Wagner era nazi, porque o Hitler ouvia Wagner. 

“Estamos numa época completamente louca, em que qualquer coisa serve para desqualificar as pessoas”, lamenta também Paulo Lobo. “Tenho a impressão que vivemos no século das pessoas perfeitas, que passam a vida a apontar erros aos outros”. E dá o exemplo do escritor francês André Gide, que “aparentemente tinha tendências pedófilas”. “Vamos desqualificar o Gide? Os artistas com vidas mais podres produziram obras belíssimas, isso faz parte da condição humana”. Paulo Lobo não gosta destes ajustes de contas com o passado. “Daqui a cem anos, gostava de saber como é que nos vão julgar a nós”.