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Aldeia do “burgomestre português” vai geminar-se com a terra dele
Luxemburgo 9 min. 04.06.2019

Aldeia do “burgomestre português” vai geminar-se com a terra dele

Paula TELO ALVES
Paula TELO ALVES
É um casamento com muitos convidados. De Vila Pouca de Aguiar veio uma comitiva de 50 pessoas para assinar a geminação com Bettendorf. A pequena localidade ficou famosa quando José Vaz do Rio venceu as últimas eleições, um feito inédito no Luxemburgo. Mas o imigrante abdicou do cargo por não falar bem luxemburguês e ficou como vereador.
Ilustração: Florin Balaban / Contacto

A fanfarra de Bettendorf e Gilsdorf já anda a ensaiar o hino nacional português há vários dias. A cerimónia é só nesta quarta-feira, mas na localidade a festa começou antes. A bandeira portuguesa já está hasteada em frente à autarquia desde segunda-feira, dia em que chegaram os visitantes de Vila Pouca de Aguiar. Em Gilsdorf, a aldeia onde vive José Vaz do Rio, que faz parte do município, o centro polivalente encheu-se de gente para fazer as apresentações, na véspera da geminação. Slides, fotos e vídeos mostram o que cada uma das localidades tem de melhor.

Vê-se que o município luxemburguês vestiu a camisola, e não é uma figura de estilo. Durante a sessão, os edis luxemburgueses estão de pólo escuro com as bandeiras dos dois países ao peito. Nas costas, lê-se a data da geminação. Fizeram-se uma centena de T-shirts, e os funcionários camarários que servem de intérprete, zelam pelas bebidas e resolvem as encrencas com os computadores também as têm vestidas.

“O arquiteto da geminação fui eu”, conta José Vaz do Rio ao Contacto, no intervalo para o café. O vereador português é de Raíz do Monte, uma aldeia a oito quilómetros de Vila Pouca de Aguiar, que deixou em 1979 para vir para o Luxemburgo, mas há mais pessoas da região, “80 casais, fora os filhos”. “Temos aqui uma grande comunidade de Vila Pouca de Aguiar.” Em Bettendorf vivem 2.800 habitantes. Destes, cerca de 900 são portugueses.

Depois das apresentações de cada município, José Vaz do Rio lê um discurso, “em português, não em luxemburguês”, avisa. Conta que trabalhou seis anos nas Minas de Jales, em Vila Pouca de Aguiar, hoje fechadas. Veio para o Luxemburgo “a seguir à tropa”. Num dos braços tem tatuada a data em que começou o serviço militar, 1977, com as iniciais RIE, de Regimento de Infantaria de Elvas. Trabalhou seis anos na construção e depois conseguiu mudar-se para a fábrica da Goodyear. “Os princípios não foram muito fáceis. Em casa tínhamos duas cadeiras, a minha filha comia sentada no meu joelho. Nos primeiros quatro, cinco anos, não foi fácil”, recorda. A dificuldade maior foi “a língua”. “Mas tivemos sempre sorte com os vizinhos luxemburgueses. Eles aprendiam depressa a comunicar connosco em português”. Na sala ouvem-se risos desfasados, primeiro os portugueses, depois os luxemburgueses, quando a tradução lhes chega finalmente aos auscultadores. “Construímos aqui a nossa vida, em conjunto com os nossos filhos e netos”. É neste ponto que a voz de José Vaz do Rio treme. “Posso dizer que tenho duas pátrias, Portugal e o Luxemburgo”. Comoveu-se, “sim senhora”, admitirá depois.

O microfone é passado a outros imigrantes de Vila Pouca. Secondina da Conceição lembra-se de não perceber nenhuma das três línguas do país, quando aqui chegou, em 1972, e de ter de olhar para o preço na caixa do supermercado para saber quanto tinha de pagar. Nunca aprendeu alemão nem luxemburguês, e em francês “desenrasca-se”.

A fronteira linguística

Que as dificuldades linguísticas se vão esbatendo nas gerações seguintes mostra-o o testemunho de Andrea Vaz do Rio, a filha mais velha do vereador. Esbatendo, ’ma non troppo’. Conta que não teve dificuldades na escola, nem “com alemão, nem com luxemburguês”, e nos exames foi encaminhada para o Clássico, o ramo mais elitista do secundário. Mas os pais tiveram de ouvir que, “como portuguesa, não tinha a mínima hipótese de conseguir”. E quando chegou ao Clássico, começaram a apontar-lhe que o alemão não era suficientemente bom. Andrea lembra-se de “ter dores de barriga” no regresso às aulas, porque no primeiro dia fazia-se a chamada e alguns professores liam o seu nome em tom de gozo, por ter vários apelidos. Às vezes, a leitura acabava com o comentário “o último fecha a porta”, como se aos vários nomes correspondessem várias pessoas, provocando risos na sala.

Acabou por se licenciar em Estrasburgo, em França, em Ciências Económicas e Gestão de Empresas, e foi ali que lhe disseram que o seu alemão era excelente. E lamenta que as dificuldades sejam as mesmas para as novas gerações. “Uma grande parte das crianças com origens portuguesas não conseguem ter uma escolaridade de alto nível, e a língua alemã constitui frequentemente a barreira principal”, criticou, na apresentação em francês.

José Vaz do Rio chegou  ao Luxemburgo com a quarta classe. Hoje, depois de seis anos a estudar luxemburguês nos cursos noturnos, percebe e “fala alguma coisa”, mas achou que não chegava para burgomestre. Ficou magoado com as críticas quando abdicou do cargo, mas um ano e meio depois de ter tomado posse como primeiro vereador no triunvirato que governa a autarquia, em novembro de 2017, não se arrepende. “Está escrito na lei que todas as reuniões são em luxemburguês, e depois eu posso responder em francês, como respondo. Eu vi que ia ter muitas dificuldades”. E exemplifica: “Às vezes estamos os três, e enquanto nós estamos a falar, a burgomestre [Pascale Hansen, do DP, o partido de Xavier Bettel] está a enviar uma mensagem em luxemburguês ao primeiro-ministro, está a ver? Eu não podia fazer isso”. E depois, defende, o cargo de burgomestre, que trocou pelo de vereador, “é quase igual, mandamos todos três e trabalhamos todos três”.

Foto: Pierre Haas / Município de Bettendorf

Os conterrâneos que vieram de longe

A geminação com o concelho onde nasceu é “um grande orgulho”, mas quando lhe perguntamos o que sente por ter ali tantos conterrâneos, hesita. “Posso dizer uma coisa? Sinto pena de ter tido que sair do nosso país para vir trabalhar para o Luxemburgo, o nosso país é sempre Portugal”, diz. “Fomos quase obrigados a sair. Nas aldeias não havia possibilidade de dar uma vida melhor aos nossos filhos”. O objetivo, quando veio para o Luxemburgo, era o mesmo da maioria dos emigrantes. “Viemos para podermos fazer uma casa em Portugal e um dia voltarmos para a nossa terra, é normal. Mas os dias foram passando, a família foi crescendo e fomos ficando por aqui”.

Se os emigrantes não voltam à terra, a terra vem até aos emigrantes, que deste lado da fronteira se escrevem com “i”. A notícia da eleição de Vaz do Rio chegou às televisões em Portugal e foi recebida em Vila Pouca de Aguiar “com muita honra”. O presidente da Câmara Municipal da localidade transmontana, António Alberto Machado, atribuiu-lhe mesmo a medalha de mérito municipal. E ficou satisfeito com a proposta de geminação. Vila Pouca já vai na segunda geminação assinada com países onde vivem aguieireneses e tem mais meia dúzia na calha, dos Estados Unidos à Suíça.


José Vaz do Rio poderia ter sido o primeiro burgomestre com passaporte português.
Entrevista: "Se eu quisesse ser burgomestre, ninguém se punha à minha frente"
José Vaz do Rio recebe o Contacto na casa onde vive há 30 anos, em Gilsdorf, enquanto está ao telefone com a RTP. O imigrante português combina mais uma entrevista e marca a data no calendário. Por estes dias, só se fala do português que não quis ser burgomestre. Nesta conversa, em que entra também a mulher do imigrante português, Vaz do Rio explica as suas razões.

O concelho sofre da hemorragia que assola o interior do país: hoje sobram cerca de 13 mil habitantes, depois de ter perdido “cinco mil pessoas” nos últimos 30 anos, e a população “é extremamente envelhecida”. Na aldeia de Vaz do Rio, em Raíz do Monte, num jantar recente, o vereador fez as contas a quem ainda lá vive. “Sem os imigrantes, conseguimos contar 110 pessoas”. Nos meses de verão a população triplica, “com o regresso dos emigrantes”, lembra o autarca do concelho.

O objetivo de José Vaz do Rio é dar a conhecer a terra onde nasceu aos luxemburgueses, e garante que estes estão contentíssimos com a geminação. “Já andavam há semanas a dizer: ’José, quando é que vamos a Portugal, quando é que eles vêm?’”. E, de caminho, mudar a visão que os luxemburgueses têm de portugueses, e vice-versa. “Ainda ontem no jantar meti português-luxemburguês-português, para eles se misturarem”, conta. “Alguns falavam por gestos, mas no final estavam todos a rir”.

O vereador diz que é difícil mudar velhos hábitos, e que em Bettendorf ainda há “portugueses de um lado, luxemburgueses do outro”. “Não é o caso comigo, mas eu sei que não posso mudar nada”, pelo menos com os imigrantes da primeira geração. Tem esperança que seja diferente com as mais novas. Para o conseguir, de Vila Pouca de Aguiar vieram 21 alunos do sétimo ano, entre os 12 e 13 anos, que estão a viver com famílias de alunos luxemburgueses, num intercâmbio escolar que vai acontecer no ano que vem também em Portugal. Nessa altura, 32 crianças da escola de Bettendorf, incluindo "portugueses, luxemburgueses, jugoslavos e uma criança síria" vão retribuir a visita. “Graças às crianças, acho que eles [as famílias de acolhimento] vão continuar a fazer contactos, vão a Portugal, e os portugueses virão aqui também ver este lindo país”.


O primeiro candidato com passaporte português a vencer eleições no Luxemburgo abdicou do cargo de burgomestre.
Crónica de uma renúncia anunciada
Em Bettendorf, a alegria com a eleição de José Vaz do Rio deu lugar à desilusão. Há quem perceba as razões do português, mas também há quem esteja arrependido de ter votado nele. E há até quem desconfie que foi pressionado para ceder o lugar – uma teoria da conspiração que o português refuta com veemência. O Contacto esteve em Bettendorf e conta-lhe como foi.

Os miúdos “andam entusiasmados, são experiências que ficam para o resto da vida”, corrobora o presidente da Câmara de Vila Pouca de Aguiar. “Estas experiências permitem olharmos para uns e para outros de igual forma”.

Na quarta-feira, a burgomestre de Bettendorf e o presidente da Câmara de Vila Pouca vão descerrar a placa que oficializa o acordo. O autarca transmontano passou os últimos dias a abraçar conterrâneos. Quando estava a falar no colóquio, a meio de uma apresentação sobre o concelho em ’powerpoint’, um imigrante de Vila Pouca interrompeu-o para lhe dar um abraço, sem perceber que o momento não era o mais oportuno. O presidente conhece-o bem. “O pai do Helder, no dia em que ele nasceu, recebeu um convite para vir trabalhar para o Luxemburgo. Foi há quarenta e tal anos, no dia 25 de fevereiro. O táxi esperou mais de meia hora para o pai entrar no carro, para ir até à primeira fronteira de táxi, com um percurso de viagem muito atribulado”, recorda. “Conheço a grande maioria das pessoas que cá estão, e o Helder de cada vez que me vê chama-me ’meu amigo’ e dá-me um grande abraço”. Este foi o primeiro abraço no Luxemburgo.

“O Helder tem problemas cognitivos, mas em Vila Pouca de Aguiar nós temos vindo a desenvolver uma sociedade inclusiva”, diz, apontando o exemplo da atleta Natalie Sousa, de 16 anos, que ganhou a medalha de ouro nos últimos Paralímpicos. “Começou a praticar equitação terapêutica nos últimos quatro anos, no nosso Centro Hípico, conseguiu uma medalha de ouro e foi condecorada pelo Presidente da República”. São “pequenas estratégias” para conseguir “objetivos que parecem impossíveis”, explica. Como esta geminação? José Vaz do Rio acha que sim. “Acho que vou conseguir dar outra visão do português ao luxemburguês e do luxemburguês ao português”.


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