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Ainda bem que não há Uber no Luxemburgo
Opinião Luxemburgo 3 min. 24.06.2022
A fava

Ainda bem que não há Uber no Luxemburgo

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Ainda bem que não há Uber no Luxemburgo

Foto: Shutterstock
Opinião Luxemburgo 3 min. 24.06.2022
A fava

Ainda bem que não há Uber no Luxemburgo

Ricardo J. RODRIGUES
Ricardo J. RODRIGUES
No Luxemburgo não há Uber, nem Bolt, nem Taxify. Há WebTaxi, a melhor versão que temos de um serviço barato.

Quando cheguei aqui, fiquei chocado com o preço dos táxis. Em Lisboa estava habituado a mover-me para todo o lado no banco de trás de um Mercedes. Da Graça ao Bairro Alto dificilmente pagaria mais de cinco euros. Para o aeroporto, dez. Para casa dos meus meus pais, 12. Ok, se pudesse eu apanhava transportes públicos, mas em Lisboa eles funcionam francamente mal. Lembro-me de passar 40 minutos nas Laranjeiras à espera de um autocarro que os marcadores anuciavam dois. Do metro que devia ser rápido mas demorava 12 minutos e chegava demasiado carregado de gente. Dos comboios para Sintra onde os lugares para passageiros com necessidades especiais não chegam para tantos passageiros com necessidades especiais.

No Luxemburgo não há Uber, nem Bolt, nem Taxify. Há WebTaxi, a melhor versão que temos de um serviço barato. Aprendi bem a minha lição há coisa de um ano, quando saí de casa de um amigo em Sandweiller às três da matina. Em vez de chamar um serviço especial enganei-me e pedi o normal – então paguei 72 euros pela brincadeira. Era coisa para 25 na rede mais barata, e eu é que fui parvo.

Mas, verdade verdadinha, aqui evito o táxi. Haja nightbus e eu vou apanhá-lo. Se o elevador do Grund ou do Pfafenthal estiverem abertos desço à Ville Basse e cumpro o que me falta a pé. O problema é que tenho um amigo chamado Hervé com quem costumo jantar ao sábado e que me faz falhar sempre a última carreira. Bem, a culpa também é minha.

A Uber, a Bolt ou o Taxify não são nossos amigos quando o assunto é ter pressa.

Na semana passada, calhou ir a Lisboa e ao Porto. Acho que todos sentimos a mesma coisa quando vamos a Portugal: temos uma roda viva de gente para abraçar e queremos andar de um lado para o outro o mais depressa possível. No entanto apercebi-me de uma coisa nestes dias. A Uber, a Bolt ou o Taxify não são nossos amigos quando o assunto é ter pressa.

Um táxi, ou um Uber, são aqueles transportes que chamamos quando temos realmente pressa de chegar de um lado a outro. É a maneira como tentamos disfarçar o atraso. Nos oito anos em que dei aulas na universidade, conto pelas mãos as vezes em que cheguei de metro. Não sou a pessoa mais funcional de manhã, e muitas vezes tive de pedir desculpa aos meus alunos por ir em corrida contra o tempo.

Felizmente, tive sempre alunos espetaculares que me permitiram o defeito. Tentei compensá-los em dedicação, e acho que eles toleravam a falha por isso. Raras vezes saí de uma aula sem sentir que tinha acontecido qualquer coisa de espetacular naquela sala. Devo ter tido meio milhar de alunos que podiam ter-se queixado de mim por não chegar a horas. Nunca nenhum o fez. Para ser justo, também não lhes cobrava um atraso. Só ficava danado se sentisse falta de dedicação.

Mas voltemos à Uber. Estes dias em Lisboa e no Porto chamei vários, que me prometeram três minutos de espera. Depois a aplicação dizia que estavam a terminar outro serviço, e afinal eram sete minutos, Depois eram 12. A seguir eram 15. Um dia no Porto esperei 27 minutos por um Bolt que prometia quatro. E, se quando cheguei ao Luxemburgo achei estranho não haver low-costs no transporte público, a verdade é que isso me fez perceber um valor que eu achava perdido. Durante anos vi nos taxistas a voz da pequenez e da intolerância. Agora vejo os condutores que me levam, sem julgamento nem interesse, da forma mais rápida de um lugar ao outro.

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