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ADR diz que anúncio de emprego que exige português "é discriminatório"
Luxemburgo 4 min. 11.03.2014 Do nosso arquivo online

ADR diz que anúncio de emprego que exige português "é discriminatório"

O deputado do ADR Fernand Kartheiseir

ADR diz que anúncio de emprego que exige português "é discriminatório"

O deputado do ADR Fernand Kartheiseir
Foto: Guy Jallay
Luxemburgo 4 min. 11.03.2014 Do nosso arquivo online

ADR diz que anúncio de emprego que exige português "é discriminatório"

A história conta-se em poucas linhas. Uma associação sem fins lucrativos, que presta serviços na área do apoio às crianças, jovens e às famílias, publicou um anúncio para recrutar um funcionário em que exigia o domínio da língua portuguesa, para além das três línguas oficiais do país. O ADR diz que não concorda porque "é discriminação".

O anúncio do emprego foi  alvo de uma pergunta parlamentar apresentada pelo deputado Fernand Kartheiseir, do ADR, ao Ministro da Educação do Luxemburgo.

No requerimento, o deputado do ADR pergunta ao ministro se "considera normal que uma associação, que é subsidiada pelo Estado, exija o conhecimento de uma língua [o português] que não faz parte das línguas administrativas do país".

O deputado chega a sugerir a retirada do anúncio, porque o considera "discriminatório" em relação às  pessoas que frequentaram "a escola oficial" do Luxemburgo.

Mais: diz o deputado que o anúncio poderá estar a "favorecer" os falantes de língua portuguesa em relação aos que "frequentaram o sistema escolar do Luxemburgo". E pergunta ainda se, uma vez que a associação em causa "trabalha" com os mais novos, "o uso do luxemburguês não facilitaria a integração das crianças".

Na resposta o ministro da Educação, Claude Meisch, garante ao deputado do partido mais à direita no espectro luxemburguês que a associação não violou a lei que regula a actividade das associações no Luxemburgo, e recorda que a mesma lei exige que as asbl  "tenham um número suficiente de pessoas qualificadas que possam responder às necessidades dos utentes e garantam que as actividades desenvolvidas [das associações] sejam acessíveis aos utentes".

Claude Meisch recorda ao deputado do ADR que "neste caso concreto não se trata de familiarizar as pessoas com as línguas oficiais  do país ou ainda de facilitar a sua integração, mas de as compreender e ajudar".

"Como é que podemos ajudar estas pessoas, se não conseguimos comunicar?", pergunta o ministro da Educação.  "A verdade é que a maior parte das pessoas que precisam de ajuda falam português e não se conseguem exprimir noutras línguas", conclui o ministro.

Liliana Mirada defende posição do partido e diz que portugueses "são privilegiados" no Luxemburgo

Liliana Miranda é a secretária-geral do ADR. Esta luso-luxemburguesa defende a posição do deputado do ADR e reafirma que "considera o anúncio como uma forma de discriminação".

A secretária-geral do partido nacionalista garante ao CONTACTO que a iniciativa do deputado se prende com o facto de o ADR não querer a generalização de casos como este.

"Sobretudo que não se estenda à função pública, e que o Estado comece a contratar pessoas que não falam as línguas administrativas do país", diz Liliana Miranda ao CONTACTO.  "A única excepção que aceitamos é que possam ser recrutados para o OLAI, por exemplo, que trata da integração dos imigrantes recém-chegados, pessoas que falem outras línguas, mas não queremos que a situação se generalize".

Liliana Miranda diz que a situação no sector da Saúde está a tornar-se grave, uma vez que a maior parte do pessoal que trabalha nos serviços públicos do país não fala luxemburguês.

"Há muitos idosos no Luxemburgo que estão internados nos hospitais, ou em casas de saúde, e que  falam apenas luxemburguês. Ora essas pessoas são confrontadas com o facto de os médicos e os enfermeiros que cuidam deles  só falarem francês. Nós pensamos que para ser médico ou enfermeiro no Luxemburgo deve ser exigido o domínio do luxemburguês. Os mais velhos gostam de ser tratados na sua língua materna e isso, hoje em dia, não acontece", diz Miranda ao CONTACTO.

A secretária do ADR e candidata do partido às próximas eleições europeias diz que não percebe porque é que se "privilegia" os portugueses.

"Então e as outras comunidades que vivem no país? Os asiáticos por exemplo? Que língua falamos com eles? O anúncio em causa nem sequer exigia o inglês. É por isso que nós dizemos que a imigração faz sentido se houver integração e o uso da língua luxemburguesa é um óptimo instrumento para isso", conclui Liliana Miranda, que adquiriu recentemente a nacionalidade luxemburguesa.

Confrontada com o facto de um quarto da população do Luxemburgo falar português, Liliana Miranda insiste que os falantes de língua portuguesa "são privilegiados" no Luxemburgo e dá como exemplo " a quantidade de documentos oficiais do país que é traduzida para português".

Domingos Martins