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Adolescentes. Uma geração à deriva no meio da pandemia
Luxemburgo 10 min. 27.01.2021 Do nosso arquivo online

Adolescentes. Uma geração à deriva no meio da pandemia

Adolescentes. Uma geração à deriva no meio da pandemia

Foto: DR
Luxemburgo 10 min. 27.01.2021 Do nosso arquivo online

Adolescentes. Uma geração à deriva no meio da pandemia

Paula SANTOS FERREIRA
Paula SANTOS FERREIRA
São cada vez mais os jovens que procuram apoio psicológico. Têm a vida em "suspenso", e a crise está a causar-lhes sérios problemas emocionais. Os seus testemunhos ao Contacto são um grito de alerta.

A Matilde celebrou o seu 13º aniversário com uma festa online, Ana, de 17 anos, conta que entre os seus amigos os novos amores estão adiados por causa do medo de contágios. Sophie, de 15 anos, desenvolveu uma fobia social desde o confinamento, deixou de ir à escola e passa os dias fechada em casa. O Pedro, de 20 anos, está a mentalizar-se que tem de viver nesta crise "sem fim à vista", que pode destruir os seus planos.

A pandemia está a roubar aos adolescentes e jovens a vida intensa e descontraída tão própria das suas idades. A covid-19 obrigo-os a fecharem-se na sua concha, provocou-lhes "angústias" e "medos" conduzindo a muitas "depressões e problemas psicológicos", como confirmam especialistas ao Contacto.

O primeiro-ministro Xavier Bettel já alertou com preocupação para "o grande aumento de pacientes, sobretudo jovens, nas consultas de psicologia e psiquiatria" no Luxemburgo. Em França, Emmanuel Macron vai disponibilizar já em fevereiro "cheques-psicólogo" para que os jovens em risco possam aceder a consultas gratuitas de saúde mental.

Há quase um ano que esta geração se sente perdida e sem chão, por causa da crise pandémica. Sophie, 15 anos, não sai de casa há semanas. Não quer enfrentar a pandemia, não vai à escola, na capital do Luxemburgo, nem quer ver os amigos. "A minha filha desenvolveu uma fobia social por causa do confinamento e desta crise sanitária", conta a sua mãe muito preocupada. Sophie, filha única, está já a ser acompanhada por especialistas e os pais não a abandonam um segundo, dando-lhe todo o apoio e tentando que a sua filha volte a ser a adolescente que sempre foi. "A pandemia está a ser dramática para os jovens, as consultas de psicólogos e pedopsiquiatras estão cheias, foi difícil conseguirmos uma vaga com urgência para a Sophie", realça esta mãe.

Em Portugal, as escolas estão fechadas e Matilde, de 13 anos, filha única, está de novo em casa, e esta semana de quarentena. Um dos jovens com quem joga vólei testou positivo à covid-19. "Não tenho receio e estou sem sintomas. Às vezes penso só que andámos todos a tocar na mesma bola, nos jogos com ele", conta a adolescente que vive na Lagoa de Santo André, no Alentejo. Matilde reconhece ser uma "sortuda" nestes tempos: "Vivo ao pé do mar, estou perto da natureza e sempre dá para passearmos e descontrairmos".

Mesmo em confinamento Matilde não quis deixar de celebrar o seu aniversário, por isso convidou oito amigos para uma festa de anos online, um escape room virtual. Foi a festa possível com cada um na sua casa, mas juntos virtualmente. "Foi giro, mas preferia poder ter feito uma festa normal com eles ao pé de mim".

Novas realidades

Nestes tempos "esquisitos", Matilde e o seu grupo de amigos fizeram um trato: "Falarmos todos os dias uns com os outros, perguntarmos todos os dias se está tudo bem. Assim apoiamo-nos uns aos outros para não deixarmos ninguém ficar triste".

Manuela, professora do ensino secundário numa escola de Lisboa, confirma os problemas que os seus alunos estão a viver, por culpa da covid-19: "Os adolescentes estão mais apáticos nas aulas, questionam frequentemente quando é que a pandemia acaba. Estão cansados. Aqueles que estão a passar dificuldades em casa são os mais tristes e ansiosos. Estão preocupados com os pais, que perderam os empregos e com a situação de aperto financeiro". As escolas públicas fecharam, mas as suas cantinas continuam abertas a preparar refeições para alunos em dificuldade, no sistema take away. "Há famílias que pela primeira vez estão a passar fome e isso é devastador para os pais e para os jovens", declara esta docente.

No Luxemburgo, as escolas estão de novo abertas, mas o dia-a-dia de Ana, de 17 anos, resume-se a "casa e escola", nas semanas em que tem aulas presenciais, e fechada em casa, na semana com ensino à distância. "Já vivemos assim há quase um ano, sem poder conviver livremente, estar com amigos, sair, estamos já a perder a esperança. Só pergunto: Quando é que isto acaba?! Quando vou voltar a ter uma vida normal".

"A pandemia está a afetar seriamente os jovens. Há cada vez mais pacientes nas nossas consultas de psicologia, e este aumento está a verificar-se em todas as entidades e instituições que oferecem apoio psicológico no Luxemburgo", realça Anne-Marie Antoine, psicóloga do Planning Familial (PF), organização que oferece acompanhamento médico e psicológico no âmbito da saúde sexual. "A procura está a começar a ser maior do que a oferta", frisa preocupada.


Jovens. As marcas que a covid-19 vai deixar no futuro
A pandemia já está a afetar mais de metade dos adolescentes e jovens adultos do Luxemburgo, segundo indica um estudo da UNI, e vai continuar a mudar as suas vidas nos próximos anos.

Muitas angústias e medos

"A crise está a demorar tempo demais, está a adiar e suspender a vida destes adolescentes, a não permitir que vivam as experiências próprias desta fase tão importante e marcante das suas vidas. Está a privá-los do convívio e de liberdades e a provocar-lhes medos, e muitas angústias", explica Anne-Marie Antoine. "Há cada vez mais jovens a cair em depressões, com ataques de pânico e crises de ansiedade, a desenvolver problemas psicológicos sérios", alerta.

Uma realidade que é visível nas escolas do Luxemburgo. "As mudanças nas rotinas escolares são uma das grandes causas de stress dos alunos, mas há também outros problemas devido à situação pandémica", confirma Claire Rousson, responsável pela rede de apoio psicológico nas escolas, do Centro Psicossocial e de Acompanhamento Escolar (CePas), do Ministério da Educação luxemburguês.

Nas escolas, os psicólogos estão a acompanhar alunos com "ataques de pânico e de ansiedade, problemas de sono, problemas alimentares ou ainda casos de auto-mutilação", descreve Claire Rousson. "Há, de facto, um aumento da procura do nosso apoio, mas ainda não é significativo porque são sobretudo os alunos que já tiveram acompanhamento psicológico que nos procuram". Aqueles que só agora estão a enfrentar dificuldades por causa da pandemia, "como nunca tiveram este apoio, não pensam logo em nos procurar, mas deviam", sobretudo os adolescentes mais vulneráveis, salienta Claire Rousson.

Os jovens estão a viver uma "montanha russa de emoções" há um ano, lembra Anne-Marie Antoine: "Começou com o primeiro confinamento onde eles acreditaram que a crise iria passar em três meses, e que tudo voltaria ao normal. Só que depois chegou a segunda vaga da pandemia. A esperança de que tudo ia terminar foi renovada com a vacina, mas agora surgem as novas variantes do vírus mais contagiosas. Os jovens estão cansados, desesperados e só nos perguntam 'quando é que tudo isto vai mesmo terminar?'".

Medo do amor

O medo de serem infetados pelo vírus está a adiar as vivências dos primeiros namoros, o despertar das paixões da adolescência. "Os meus amigos nem pensam em namoros ou em conhecer novas pessoas porque têm medo de ficar infetados e contaminar os familiares, sobretudo os avós. Somos conscientes e cumprimos as regras", diz Ana. "Sem a pandemia claro que haveria namoros e novos romances, mas não há", reconhece esta jovem de 17 anos.

A psicóloga do Planning Familial sublinha que a covid-19 está a afetar a vida afetiva e sexual dos jovens. Conhecer alguém e iniciar uma relação é algo raro em tempo de pandemia, não só porque "não têm onde conhecer pessoas novas, com os seus locais habituais de convívio fechados", mas também pelas razões apontadas por Ana, o "medo de serem contagiados e transmitir a doença aos familiares". Muitos nem sequer arriscam, assegura Anne-Marie Antoine, criticando o facto de se culpabilizar os jovens pelo aumento das infeções. "Eles interiorizam essa culpa, sem ter culpa, e retraem-se ainda mais".

Já os que se encontram numa relação amorosa "tendem a fechar-se nessa relação" pela impossibilidade de convivo social. Este isolamento a dois pode ter efeitos negativos e conduzir a "situações emergentes de imposição, de dominação, que podem chegar à violência e isso é preocupante", vinca a especialista do PF. Com a crise, os insatisfeitos com o seu relacionamento não têm coragem de sair da relação. "Não querem ficar sozinhos, pensam que nunca mais encontram outro parceiro. 'Não estou bem, mas não tenho escolha'", dizem.


Jovens com medo de viver
O editorial do Contacto desta semana.

Há pares que conseguem manter uma relação saudável. O namoro de Pedro, de 20 anos, é mais antigo do que a covid-19 e o jovem conta que ele e a namorada se "apoiam mutuamente" o que atenua o impacto da crise. "No meu caso, não está a ser difícil pois como vivemos em países diferentes, eu no Luxemburgo e ela na Holanda, já mantínhamos uma relação à distância. A crise acabou por fazer com que passemos mais tempo só os dois, pois não podemos passear nem conviver com os amigos, como fazíamos e sentimos falta disso", assume o estudante. 

Contudo, Pedro conhece quem já enfrentou problemas de solidão. 2Um amigo meu já passou um mau bocado. Ele não tem namorada e tinha sempre uma agenda social repleta, saía muito, adorava conhecer gente nova. Para ele foi muito duro, de repente, deixar de conviver socialmente. Chegou a isolar-se, mas nós, os amigos percebemos e não o largámos. Como ele gosta muito de falar acabou por desabafar connosco, o que foi muito importante. Agora já está a gerir melhor a ausência da vida social".

"O receio de novas relações e a grande solidão em que cada vez mais jovens se encontram, nesta fase tão importante da sua vida, a fase da construção do eu, da identidade pessoal e sexual, pode deixar marcas dramáticas no futuro”, explica a psicóloga do Planning Familial. A especialista teme que se esteja a criar uma geração de adultos inseguros mesmo ao nível da vida sexual e com relacionamentos difíceis".

Com o amor e as novas relações adiadas, e a vida feita em casa, os adolescentes viram-se "para a família e estão a apoiar-se mais nos pais", conta a estudante Ana, confirmando que no seu caso está "a gerir toda esta incerteza em família", o que ajuda muito. "O pouco tempo que me sobra dos estudos passo-o na cozinha. Adoro cozinhar e tenho-me dedicado à culinária para descontrair, para não pensar em tudo o que estamos a viver", confessa a jovem.

Também Pedro já se mentalizou que a crise "vai demorar a passar". "Vou vivendo um dia de cada vez e faço questão de manter os meus planos de para o ano entrar na universidade e ao mesmo tempo procurar trabalho. Sei que será difícil, mas tenho de pensar positivo para conseguir ultrapassar esta fase". Tal como Ana, este estudante de 20 anos, reconhece que a importância do apoio dos pais nesta fase conturbada.

As psicólogas Claire Rousson e Anne-Marie Antoine alertam o mesmo: "O apoio dos pais é fundamental neste momento para os jovens". Ambas pedem para os progenitores "estarem atentos aos seus filhos para perceber se estão a começar a ter problemas, e privilegiar sempre o diálogo com eles".

"Os pais devem sempre valorizar os factos positivos e motivar os filhos a fazer o mesmo, com muito diálogo e sinais de apoio. Para que os jovens consigam desabafar com os pais os seus anseios e angústias", refere a psicóloga do Planning Familial. Claire Rousson concorda e adianta: "Neste período de tantas incertezas, indecisões, os pais têm de mostrar aos filhos que eles, jovens, continuam a saber tomar decisões, mesmo as mais pequenas. Que continuam a decidir a sua vida, é importante para a sua autoestima e para se sentirem menos perdidos". 

Anne-Marie Antoine aconselha ainda os pais realizar "passeios em família pela floresta2, a introduzir "a meditação ou ioga na vida familiar, que ajudam muito a relaxar, a descomprimir", aconselha Anne-Marie Antoine. Contudo, se os pais percebem que a situação está a ficar séria devem procurar apoio psicológico para os filhos. Claire Rousson lembra que há sempre psicólogos disponíveis nas escolas e que os pais podem recorrer à sua ajuda. É essencial para que os adolescentes não se sintam tão perdidos.

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