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Adeus Luxemburgo. Voltei de vez para Portugal

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Adeus Luxemburgo. Voltei de vez para Portugal

Adeus Luxemburgo. Voltei de vez para Portugal

Adeus Luxemburgo. Voltei de vez para Portugal


por Paula SANTOS FERREIRA/ 21.04.2021

Reportagem sobre emigrantes que regressam do Luxemburgo para Portugal Familia de Helena e Pedro com os filhos Eduardo e Beatriz @Rodrigo Cabrita para Contacto Rodrigo Cabrita

Conheça a história de quatro imigrantes que regressaram a Portugal.

O Grão-Ducado proporcionou-lhes uma vida melhor, mas continuaram sempre a sonhar com Portugal. A história de quatro imigrantes e famílias que concretizaram o sonho e regressaram recentemente ao seu país natal.

Cátia Maia Loureiro viveu 26 anos no Luxemburgo, agora está de regresso.
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Cátia Loureiro. Sonho de 26 anos concretizado
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Cátia Maia Loureiro viveu 26 anos no Luxemburgo, agora está de regresso.
Rodrigo Cabrita

A colorida Abelha Maia em forma de suporte de vaso junto à entrada principal da moradia na Amora dá as boas-vindas às visitas da família Maia Guerra. A divertida figura de metal foi uma oferta da mãe de Cátia Maia Loureiro quando esta sua filha, de 40 anos, e as netas Inês de 12 anos e Victória de 4 anos, deixaram o Luxemburgo em agosto passado e regressaram de vez a Portugal. O marido Bruno Guerra, de 45 anos, empresário, continua no país de acolhimento, mas sempre que pode vem visitar a família. Foi numa destas visitas recentes que o Contacto esteve com o casal que desde há nove meses ganhou uma vida nova. Cátia cumpriu o sonho que acalentava desde os 14 anos, quando “foi obrigada” a fazer a viagem em sentido contrário, deixando a Figueira da Foz e mudando-se para um novo país com a sua mãe.

Cátia Maia Loureiro foi para o Luxemburgo com 14 anos mas sempre  sonhou regressar.
Cátia Maia Loureiro foi para o Luxemburgo com 14 anos mas sempre sonhou regressar.
Foto: Rodrigo Cabrita

 

“Vinte e seis anos depois aqui estou eu de volta ao meu país. Desde os 14 anos quando parti que sempre desejei voltar embora tivesse tido uma vida boa no Luxemburgo. Mas Portugal estava sempre no meu pensamento”, conta Cátia Loureiro, olhando cúmplice para o marido sentado à sua frente na sala de jantar. Embora tivesse chegado a Portugal, em plena pandemia, a covid-19 nada teve a ver com a decisão de mudar de vida.

“As nossas filhas iam transitar para a fase posterior da vida escolar, a Inês terminou a escola primária e a Victória passava para o pré-escolar. Foi a altura certa para voltarmos, pois quisemos que o resto do percurso escolar já fosse feito em Portugal”, conta o casal, salientando que tudo foi preparado com tempo. Antes de se decidir pela Amora, perto do Seixal, onde Bruno nasceu e cresceu, o casal visitou outras cidades portuguesas. “Pensámos na Figueira da Foz onde tenho a minha família, embora a minha mãe continue a morar no Luxemburgo porque tem lá o meu irmão mais novo, fomos a Coimbra, Aveiro, e outras cidades com oportunidades para eu começar uma nova carreira e perto de escolas e universidades para as miúdas”, lembra Cátia que no Luxemburgo trabalhava em secretariado médico e já tinha uma boa carreira.

“Quero abraçar novos desafios no meu país e já tenho um projeto na área da educação”, conta esta portuguesa entusiasmada. Mas este primeiro ano em Portugal é “um ano sabático” em que Cátia decidiu dedicar-se a tempo inteiro às duas filhas para que “o processo de transição e integração delas fosse o mais suave e o melhor possível”. Esta é a prioridade do casal até porque as filhas nasceram no Luxemburgo e Cátia sabe por experiência própria o quão difícil é uma adolescente deixar os seus amigos, o ‘seu mundo’ e mudar-se para outro país.

Cátia Maia Loureiro na sua mini horta que vai ser ampliada, um sonho antigo.
Cátia Maia Loureiro na sua mini horta que vai ser ampliada, um sonho antigo.
Foto: Rodrigo Cabrita

Por isso, nas férias escolares Inês já voltou ao Luxemburgo para visitar os amigos, ficando em casa da avó materna que continua emigrada. “Passou lá o Natal e o ano novo, custou-nos muito estar sem ela, mas sabíamos que era importante para a Inês. E já combinamos que no verão a melhor amiga vem ficar connosco uns dias”, salienta Cátia. Contudo, os pais estão tranquilos e orgulhosos porque a Inês está “ótima na escola, com notas excelentes e bem inserida”. Desde pequenina, que Inês frequentava as aulas de português do Instituto Camões, no Luxemburgo e em casa os pais ajudavam-na com a escrita, como “nas cartas que ela enviava aos familiares cá”. “A Inês com 12 anos domina fluentemente quatro línguas, português, o luxemburguês, francês e o alemão. É incrível”, salienta Bruno Guerra.

Também a pequenina Victória está “totalmente adaptada”, além de que “quando a crise pandémica acalmar e sempre que houver oportunidade vamos ao Luxemburgo”, refere Cátia.

“Agora sou mãe a tempo inteiro e para nós o confinamento foi positivo nesta nossa mudança, porque pude estar sempre com elas”. No dia da reportagem a hora de almoço, Cátia ia buscar as filhas à escola, como sempre faz. Apesar de estar a frequentar um curso, o dia desta mãe é feito em função dos horários das meninas.

Cátia Maia Loureiro à porta de casa junto à abelha Maia que dá as boas-vindas aos visitantes.
Cátia Maia Loureiro à porta de casa junto à abelha Maia que dá as boas-vindas aos visitantes.
Foto: Rodrigo Cabrita

 Portugal é um "país de oportunidades"

Bruno Guerra nado e criado na margem sul de Lisboa mudou-se com 22 anos para o Grão-Ducado onde já vivia o seu pai. “Estou lá há 23 anos, e claro que também penso em mudar-me para cá um dia e alargar a minha atividade aqui”, diz Bruno Guerra.

Tudo o que temos devemos ao Luxemburgo, senti-me sempre muito bem lá, mas com muitas saudades do mar e do nosso sol. Lá conseguem ser sete dias sem sol e custa muito. Toda a população no Luxemburgo tem carência de vitamina D e todos tomam, crianças e adultos”, conta Cátia. Ao que Bruno acrescenta: “todo o emigrante português sente falta da família, dos sabores, da luz, do sol, e muitos como nós, do mar”. Sobretudo, eles os dois criados à beira mar.

Os amigos lá são a família que falta aos emigrantes

Bruno Guerra

“Não estou nada arrependida, nada. Sempre quis voltar para o meu país e estou mais feliz cá, e as meninas também gostam muito”, garante Cátia que agora tem saudades da mãe que são atenuadas com os telefonemas diários, de “três a quatro vezes por dia”. “Eu e a minha mãe somos muito próximas e agora sinto falta dela”, justifica.

Cátia também tem saudades dos amigos que foram “fazendo ao longo da vida”. “Os amigos lá são a família que falta aos emigrantes”, frisa Bruno. Agora é a vez dos amigos virem visitar Cátia a Portugal e nas próximas férias o casal já espera ter visitas.

“Atualmente, há mais qualidade de vida em Portugal do que no Luxemburgo. Os salários são inferiores aos do Luxemburgo, sem dúvida, mas lá está cada vez mais difícil, sobretudo para quem ganha o salário mínimo, porque a habitação e os bens alimentares estão cada vez mais caros”, vinca este casal. Por isso, contas feitas às despesas do orçamento familiar, à família, ao sol, ao mar, ao acordar no país natal, onde sempre se sonhou em regressar “compensa mais viver em Portugal”.

Os papéis inverteram-se e “Portugal é que é agora o país das oportunidades” defende Bruno Guerra sublinhando que “há cada vez mais portugueses a regressar a Portugal”. O casal conhece várias famílias que já voltaram e outras que vivem entre cá e lá. Alguns até são amigos e depois de anos a conviverem no Grão-Ducado, reencontram-se agora na sua terra natal.

 É o caso do casal Helena Girão e Pedro Rodrigues com quem Cátia e Bruno partilharam o transporte dos seus pertences do Luxemburgo para Portugal. Helena e Pedro regressaram de vez, no mesmo mês, que Cátia, em agosto de 2020. Bruno Guerra veio também, mas apenas para passar as férias de verão e ajudar Cátia e as meninas nas mudanças para a casa nova.

Helena Girão e  Pedro Rodrigues, com os filhos Eduardo e Beatriz vivem em Palmela.
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Família Girão Rodrigues. Um regresso feliz
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Helena Girão e Pedro Rodrigues, com os filhos Eduardo e Beatriz vivem em Palmela.
Foto: Rodrigo Cabrita

 Helena Girão e Pedro Rodrigues vivem em Palmela, muito perto de Cátia por isso a amizade continua viva e só a pandemia os têm impedido de se encontrarem com frequência quando Bruno está em Portugal.

Helena, de 37 anos e Pedro, 40 anos, viveram no Luxemburgo durante cinco anos e desde o início planearem regressar no verão de 2020, altura que o filho mais velho, Eduardo, agora com 10 anos, terminaria a primária e começava um novo ciclo escolar. “Estava na altura de voltarmos para os nossos filhos frequentarem aqui a escola”, explica esta portuguesa.

Os anos passados no Grão-Ducado não irão esquecer. “O Luxemburgo é um país fantástico para se viver, adorámos lá estar”, vinca Helena. A localização geográfica em muito ajudou à escolha deste país para a “aventura” de uma vida fora de Portugal. “Adoramos viajar e passeámos muito aos fins de semana. Em 2019 visitámos 11 países”, conta Helena de sorriso largo no rosto e os olhos a brilhar.

A família com a cadelinha Yara que já foi adotada em Portugal.
A família com a cadelinha Yara que já foi adotada em Portugal.
Rodrigo Cabrita

Embora o casal tivesse cá uma “vida confortável”, o desejo de viver uns anos no estrangeiro foi mais forte e quando foram visitar uns amigos ao Luxemburgo perceberam que aquele era o país onde queriam “passar os próximos anos”. Despediram-se dos seus empregos – o “Pedro trabalhava há 15 anos na mesma empresa e eu estava na minha área, em gestão e recursos humanos” – e rumaram mais o filho Eduardo e a cadela Mel para o Grão-Ducado. A Beatriz, de três anos, já nasceu no Luxemburgo.

“O nosso objetivo foi experimentar uma vida nova e melhorar a nossa vida, estar uns anos fora e regressar. Durante estes anos investimos em bens imobiliários em Portugal e aproveitámos o tempo no Luxemburgo para passear muito e conhecer outros países”, diz Helena contando que até a Mel “passeou muito lá”. Já cá em Portugal decidiram dar uma amiga à cadelinha e adotaram a branquinha Yara.

“Foi uma ótima experiência e fizemos muitos amigos”, vinca esta portuguesa nascida em Sintra que ao contrário de muitos portugueses não estranhou o clima do Luxemburgo e a falta de sol. “O tempo no Luxemburgo é igual ao de Sintra, muito nublado”.

“Quando tínhamos saudades do mar íamos até à costa belga”, relembra Helena contando que em Portugal tem saudades do verde da “sua” floresta, em Niederkorn, onde ia correr todos os dias com uma amiga. “Agora corro na serra, mas o verde não é igual”.

Quando se mudaram para o Luxemburgo, Pedro Rodrigues continuou a sua profissão de eletricista e Helena ficou seis meses em casa, para apoiar o filho Eduardo na nova escola e país. Além de esperar pela oportunidade de um emprego que gostasse ligado à sua área. Acabou por encontrar como gestora de loja tendo depois mudado para a emprega onde permaneceu até ao fim, no serviço de apoio ao emigrante numa instituição financeira.

Desde o primeiro ano no Luxemburgo que o filho frequentou as aulas da Escola Portuguesa, “para continuar sempre a aprender a língua portuguesa de modo a que quando voltássemos para cá ele estivesse preparado”, salienta Helena Girão deixando o “mesmo conselho a todos os pais” que pensem em emigrar para o Luxemburgo. Quando regressaram Eduardo foi para o 7ª ano cá, “saltou um ano pois lá ele iria para a quarta classe”.

Quando vivia no Luxemburgo tinha saudades de cá e agora que estou em Portugal tenho saudades de lá

Eduardo, 10 anos

Os filhos não se importaram de voltar, Eduardo até ficou feliz por poder de novo conviver os avós e os primos, mas ainda tem saudades dos amigos do Luxemburgo. “Lá, todos os domingos realizámos uma videochamada com a família de cá, com a avó e os seis primos e ele ficava triste por não poder estar com eles”, lembra a mãe. Ao seu lado, Eduardo confirma, mas de seguida confessa: “Quando vivia no Luxemburgo tinha saudades de cá e agora que estou em Portugal tenho saudades de lá. O que eu gostava é que os dois países estivessem ao lado um do outro”. Eduardo tem “saudades dos amigos” que deixou no Luxemburgo e espera poder lá voltar quando for possível para os rever. “Tenho também saudades das línguas que falava lá, o luxemburguês, francês e alemão e também das piscinas de lá”, conta o menino, admitindo, no entanto, que gosta de voltar a estar perto dos primos.

Eduardo, 10 anos gostava que Portugal e Luxemburgo fossem vizinhos para poder visitar todos os amigos.
Eduardo, 10 anos gostava que Portugal e Luxemburgo fossem vizinhos para poder visitar todos os amigos.
Foto: Rodrigo Cabrita

Helena compreende o que o filho está a sentir. As saudades da família, dos pais e da sua irmã gêmea - “somos muito unidas” - foi o que mais lhe custou no Luxemburgo. Cá, tem saudades dos muitos amigos que lá fez, “portugueses, franceses, luxemburgueses e de outras nacionalidades”. “Nós fomos para lá com a vontade de conhecer uma nova realidade e novas pessoas e para mim é fácil fazer amigos, por isso, ganhámos muitos lá. Pessoas fantásticas”. Tal como o filho também sente falta das “piscinas de água quente”, confidencia a rir.

Quando cá chegaram Helena voltou a ficar uns meses em casa para apoiar a integração dos dois filhos. Em janeiro deste ano começou a trabalhar na sua área, numa empresa imobiliária. “Agora já não vamos sair de Portugal”, diz Helena.

Luísa Alberto regressou em junho passado a Lisboa.
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Luísa Alberto. A covid apressa o retorno
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Luísa Alberto regressou em junho passado a Lisboa.
Foto: Rodrigo Cabrita

 Os parques e as florestas do Luxemburgo onde Luísa Alberto gostava de passear nos seus tempos livres deixam também saudades a esta portuguesa que regressou a Lisboa, em junho do ano passado, por causa da crise da pandemia.

“A natureza lá é maravilhosa, o verde é único e a vegetação mais densa do que a que temos aqui”, conta Luísa Alberto sentada num banco do Parque Eduardo VII, em Lisboa, por onde gosta de passear na sua hora de almoço, pois fica próximo da casa onde é ama da uma menina. De livro na mão, pronto para ser aberto num daqueles bancos de jardim, Luísa Alberto admite que o hábito de passear a pé ganhou no Luxemburgo onde viveu durante três anos. “E a neve? Que saudades tenho da neve”, confessa com um sorriso. Quando puder voltar a viajar Luísa planeia visitar o Grão-Ducado e rever os seus amigos, com quem se continua a falar por telefone.

Quando Luísa Alberto regressou a Portugal inscreveu-se no centro de emprego e recomeçou a procurar trabalho. Agora trabalha para o casal para quem foi trabalhar no Grão- Ducado.
Quando Luísa Alberto regressou a Portugal inscreveu-se no centro de emprego e recomeçou a procurar trabalho. Agora trabalha para o casal para quem foi trabalhar no Grão- Ducado.
Foto: Rodrigo Cabrita

Luísa não tem filhos, mas tem as suas “quatro meninas”. As filhas do casal português de quem cuidava no Luxemburgo, como empregada interna. Foi para ser ama destas meninas que Luísa deixou Lisboa e partiu para o Grão-Ducado. Só que o casal decidiu regressar a Lisboa, quando a epidemia começou lá. Luísa continuou no Grão-Ducado mais uns bons meses até que também ela decidiu voltar. A covid mudou-lhe a vida que até então “corria bem”. 

Voltei para a minha casa, para junto dos meus familiares e para o meu país, onde nos sentimos sempre melhor

Luísa Alberto

Com o regresso dos seus patrões ficou sem emprego e foi trabalhar “para as limpezas”. Só que o contrato precário terminou e Luísa voltou a ficar desempregada. Como não dominava o francês pediu ajuda aos serviços sociais do Centro de Apoio Social e Associativo (CASA) para tratar “dos papéis do desemprego”, situação que lhe permitiu voltar para Portugal com este subsídio por três meses (ver caixa).


Portugueses no Luxemburgo mais indecisos quanto a regressar a Portugal
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Enquanto esperava nova oportunidade vivia do subsídio de desemprego, só que este mal chegava para pagar o quarto em Strassen e viver mensalmente. “Pagava 600 euros pelo quarto” e o que restava “era muito pouco, estava a ser difícil fazer face a todas as despesas”. “O custo de vida lá é muito caro, e as rendas das casas caríssimas”, vinca. Perante as poucas perspetivas de encontrar um emprego que lhe permitisse voltar a “viver decentemente” no Luxemburgo, Luísa decidiu era chegada a hora de regressar ao seu país. “Voltei para a minha casa, para junto dos meus familiares e para o meu país, onde nos sentimos sempre melhor”, diz.

 Assim, em junho de 2020 desceu da camioneta que a trouxe do Grão-Ducado até Lisboa, voltando a pisar a sua cidade. Inscreveu-se no centro de emprego e recomeçou a procurar trabalho. Só que, entretanto, o casal para quem foi trabalhar no Grão-Ducado contratou-a novamente para cuidar da filha mais nova, agora com dois anos. Luísa está “feliz”. Retomou o seu antigo emprego, está com as “suas meninas”, e pode ao final do dia voltar para sua casa. “Estou no meu país, falo a minha língua, tenho a minha família por perto e estou muito bem”, garante. “Se a covid não tivesse aparecido ainda deveria estar no Luxemburgo e ficar lá por mais uns tempos, mas acabaria por regressar, pois essa sempre foi a minha intenção. Acabei por vir mais cedo, mas não estou nada arrependida, estou muito bem aqui”.

Luísa Alberto no Parque Eduardo VII, em Lisboa, onde gosta de passear à hora do almoço.
Rodrigo Cabrita


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Filipe S.. "Há males que vêm por bem"
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Quinze dias depois de voltar para a sua terra natal, em Barcelos, Filipe S. já estava a trabalhar e ao fim do dia pode chegar à sua casa e beijar a mulher e as filhas, de 4 e 8 anos, algo impossível e do qual sentia tanta falta, quando vivia sozinho num quarto alugado no Grão-Ducado.

Ainda bem que voltei. Não estou nada arrependido, estou muito feliz e tenho mais qualidade de vida

Filipe S.

“Há males que vêm por bem”, já diz o ditado português que se aplica na perfeição ao caso deste ex-emigrante no Luxemburgo.

“Agora sim estou bem. Muito feliz por estar de volta para a minha família, após mais de quatro anos longe, a viver sozinho e com as saudades da minha mulher e filhas a doer no coração”, confessa Filipe S. na sua pausa para almoço.

Tal como Luísa Alberto, a crise provocada pela covid obrigou-o a regressar a casa mais cedo do que o planeado. “Ainda bem que voltei. Não estou nada arrependido, estou muito feliz e tenho mais qualidade de vida”, conta este barcelense de 37 anos.

Há quatro anos atrás decidiu emigrar para conseguir dar uma vida melhor à mulher e filhas. “Foi uma prima minha que está no Luxemburgo que me convenceu a ir. E eu fui sozinho, mas a ideia era a minha mulher e as meninas irem depois ter comigo e vivermos todos lá”, começa por recordar este ex-emigrante que por timidez não quis ser fotografado. Só que a mulher acabou por continuar em Portugal, “por causa da escola” das filhas. “Foi um sacrifício muito grande estar lá sozinho”, confessa.

Filipe S. trabalhava como motorista numa empresa e enviava dinheiro todos os meses para casa. Até que a pandemia lhe revolucionou a vida, de forma negativa. “Estive 3,5 anos na mesma empresa, mas por causa da fui despedido. Então, tive de começar a trabalhar no que houvesse, mas sempre com contratos temporários. “Trabalhava oito dias aqui, 15 dias, ali, sempre sem saber como seria o dia de amanhã, se tinha trabalho ou não”, diz Filipe. Nos últimos meses já não conseguia enviar dinheiro à família, ganhava muito pouco e o “dinheiro só chegava para pagar o quarto e a alimentação”.

“O pior é que acabava o tempo de um contrato num sítio e a empresa mandava-me para casa com a promessa de voltar em breve. Só que além de não me chamar, não dava baixa do meu contrato. Eu tinha de encontrar outro trabalho para sobreviver. E acabava por pagar mais imposto porque tinha dois contratos e estava desempregado. Insustentável”, critica Filipe.

“Já não dava mais e não havia perspetivas de que a situação iria melhorar. Decidi vir-me embora. E não estou nada arrependido”, garante este português que a meio de março comprou o bilhete de camioneta para Barcelos e voltou para casa. “Com a pandemia deixei de ter dinheiro para vir a Portugal ver as minhas filhas. Estive quase três meses sem ver a família e não aguentei. Antes, vinha cá sempre uma vez por mês”, recorda.

 No início do mês passado, Filipe S. começou a fazer contas à vida. “Já não compensava estar lá. Estava desempregado e sem perspetivas futuras ali. Em Portugal ganha-se menos, mas estou com a minha família, vejo as meninas crescer e com o que ganho, apesar de ser menos, tenho uma vida melhor”, salienta. Quinze dias depois de chegar conseguiu emprego como motorista numa empresa na sua terra e com contrato. As filhas estão “encantadas” por ter o pai de volta. E Filipe garante que agora sim, está “feliz” por estar na sua “terra natal, de volta a casa e com trabalho”. Se tudo correr bem não quero voltar a emigrar”.


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