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"Aconselho os imigrantes em situação frágil, sem emprego e a viver de ajudas a ponderar regressar para Portugal"
Luxemburgo 4 min. 21.10.2020

"Aconselho os imigrantes em situação frágil, sem emprego e a viver de ajudas a ponderar regressar para Portugal"

"Aconselho os imigrantes em situação frágil, sem emprego e a viver de ajudas a ponderar regressar para Portugal"

Foto: Chris Karaba
Luxemburgo 4 min. 21.10.2020

"Aconselho os imigrantes em situação frágil, sem emprego e a viver de ajudas a ponderar regressar para Portugal"

Paula SANTOS FERREIRA
Paula SANTOS FERREIRA
António Gamito, Embaixador de Portugal no Luxemburgo apela a estes portugueses que contactem a Embaixada para que possam ser apoiados, no repatriamento para o país natal onde “têm a família e melhores prestações sociais” do que no Grão-Ducado.

 Há portugueses no Luxemburgo a “passar por grandes dificuldades”, a “viver no limiar da pobreza ou mesmo na pobreza” em consequência da pandemia que os deixou sem emprego e sem condições económicas para sobreviver no país, assume António Gamito, o Embaixador de Portugal no Luxemburgo. “Sei destes casos que me preocupam imenso, por via dos contactos com as organizações não governamentais como a Caritas, a Cruz Vermelha, ou as associações portuguesas ou para imigrantes como o C.A.S.A ou o CLAE. Nenhum imigrante português que esteja nesta situação procurou até agora a nossa Embaixada, e por isso não tenho números”, realçou ao Contacto António Gamito.

“Peço aos portugueses, nestas situações, e sei que agora estão a aumentar, devido à evolução da covid-19 no país e ao fecho de mais empresas, que nos contactem para que possam ser ajudados, em Portugal”, apela este responsável.

O regresso ao país de origem é para o Embaixador o melhor conselho que tem a dar neste momento a quem atravessa uma “situação muito grave” e onde as perspetivas de encontrar um emprego aqui no Luxemburgo são quase inexistentes.

O embaixador realça que estes casos são “expressivos na comunidade portuguesa”, mas não ao nível da realidade do Luxemburgo ou Portugal. Há muitos portugueses qualificados no Luxemburgo que não foram afetados pela crise, como por exemplo os que trabalham no setor financeiro, refere o embaixador sublinhando que não é toda a comunidade que está a passar dificuldades. “Temos imensos exemplos de portugueses com carreiras de sucesso no Luxemburgo, bem integrados profissionalmente, há muitos trabalhadores qualificados”. Mesmo entre aqueles afetados pela crise, os portugueses que têm a sua situação regularizada, recebem o desemprego parcial, ou estão com subsídio de desemprego, “estão a receber os devidos apoios do estado, como para qualquer outro trabalhador no Luxemburgo, sem discriminações”, vinca António Gamito.

Trabalhadores sem situação regularizada

Estes casos graves são sobretudo de “trabalhadores não qualificados que não estão cá há muito tempo, que não dominam bem o francês e não estão integrados na comunidade”, explica. “Portugueses que vieram para cá com trabalhos precários maioritariamente em empresas portuguesas, muitos através de anúncios de jornal em Portugal, e em que os empregadores não lhes regularizaram a situação junto das entidades oficiais. Por causa da covid-19 ficaram sem emprego, ou porque a empresa fechou, os dispensou ou não renovou o contrato”, frisa António Gamito. São sobretudo portugueses que tinham emprego em empresas da construção civil, da restauração e Horesca ou limpezas, as mais afetadas pela crise provocada pela pandemia.

Sem direito a subsídio de desemprego, e/ou por não dominarem nenhum dos três idiomas do país, francês, alemão ou luxemburguês, requisito exigido pela ADEM, “será de momento difícil conseguir um emprego”. Além de que, António Gamito prevê que a situação económica do Luxemburgo, tido “erradamente como o ‘El dorado’ da Europa” para muitos imigrantes, não melhore a curto prazo.

“Com o agravamento atual da epidemia no país e o consequente encerramento de mais empresas, torna-se infelizmente muito difícil para estes imigrantes poderem voltar a trabalhar e viver dignamente aqui”, perspetiva o representante do estado português no Grão-Ducado. “Sei que neste momento, há imigrantes portugueses a sobreviver com ajuda de vizinhos e outros particulares com espírito solidário”.


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Há mais imigrantes a regressar

António Gamito coloca a questão: “Quanto tempo mais estes portugueses vão poder continuar a poder viver destas ajudas das ONG, associações e particulares? Aconselho estes imigrantes que estão em situação frágil, sem emprego e a viver de ajudas a ponderar regressar para Portugal. Devem pensar seriamente, se é melhor viver aqui na pobreza ou se não é preferível voltar para Portugal, o seu país de origem onde têm a sua família e melhores prestações sociais do que aqui? Em meu entender é melhor eles regressarem por agora, tentarem refazer a vida na sua terra, até a situação melhorar, e voltarem a ter hipóteses de encontrar trabalho aqui”.Aliás, o embaixador acrescenta que já há portugueses a “tomar a decisão de regressar ao país natal, sei que há um aumento destes casos” desde abril.


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O apelo do Embaixador

António Gamito lança o apelo aos imigrantes portugueses em dificuldade. “Contactem a embaixada. Os serviços do Estado português existem no estrangeiro para ajudar os portugueses”. Para quem pondere voltar para Portugal, quer sejam imigrantes sozinhos ou famílias a embaixada tem mecanismos de apoio e está em “diálogo frequente com o Governo Português para dar a conhecer estes casos e para encontrar soluções”. “Os nossos serviços podem fazer o repatriamento, nos casos devidamente comprovados. O Ministério dos Negócios Estrangeiros certamente dará autorização para tal, além de que em Portugal poderem beneficiar de outras medidas de apoio. Se os portugueses nos contactarem podemos dar números concretos de quantos casos são ao Ministério dos Negócios Estrangeiros. Tenho informado Lisboa sobre esta realidade e o governo português pode entender que as medidas devem ser reforçadas.” 

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