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Abril, a revista feita por amor à arte, dedica edição ao Brasil

Abril, a revista feita por amor à arte, dedica edição ao Brasil

Foto: Sibila Lind
Luxemburgo 3 min. 22.01.2019

Abril, a revista feita por amor à arte, dedica edição ao Brasil

Sibila LIND
Sibila LIND
Durante muito tempo, foi a única revista literária no Luxemburgo, com a peculiaridade de ser toda ela em espanhol. Agora, a completar os 28 anos, o mais recente número dedicado ao Brasil e aos seus autores vai ser apresentado esta quinta-feira no Luxemburgo.

Estávamos no início dos anos 90. Numa casa, perto da estação de comboios da cidade do Luxemburgo, um grupo de espanhóis gravava um programa de rádio para apresentar o seu novo projeto: uma revista literária, toda ela em espanhol. Chamaram-na de Abril, mas foi no mês de janeiro que foi publicada, em 1991, altura em que ninguém usava correio eletrónico – a assinatura da revista era feita através de uma chamada telefónica – e em que os textos e as traduções eram partilhados entre os colaboradores em disquetes. Atualmente, dos cinco fundadores, apenas dois continuam ainda no projeto – José Holguera e Mariate de la Torre - que juntamente com mais três pessoas mantêm a revista viva.

Mas porquê fazer uma revista apenas em espanhol no Luxemburgo? “E porque não?”, diz Paca Rimbau Hernández, que acompanha o projeto desde o início. Na sua sala coberta de livros, Paca – com o seu cabelo vermelho vivo pelo pescoço e os brincos em forma de globos, mas sem carregar o peso do mundo - procura os pequenos exemplares. “Uma revista é uma maneira de devolver a vida aos textos”, conta enquanto percorre a estante. Paca tinha 27 anos quando chegou ao Luxemburgo, em novembro de 1985, para trabalhar temporariamente no Serviço das Publicações das Comunidades a fazer correção de textos. Um mês levou a dois, que acabaram por se tornar em 33 anos.

Paca Rimbau Hernández na sua casa
Paca Rimbau Hernández na sua casa
Foto: Sibila Lind

Em 1995, ano em que o Luxemburgo foi pela primeira vez capital europeia da cultura, Paca começou a fazer parte da equipa da revista espanhola. Para essa edição, decidiram traduzir apenas textos de autores luxemburgueses, com a ajuda de Jean Portante, escritor luxemburguês que elegeram como coordenador desse número. “A ideia inicial da revista era dar a conhecer autores que não tinham espaço em grandes editoras, mas depois transformou-se”, conta. “O espanhol é uma língua que tem uma produção literária impressionante. E há um público espanhol que gostaria de conhecer obras e poemas escritos em outras línguas mas na versão espanhola. Há autores luxemburgueses que pela primeira vez na sua vida foram traduzidos pela Abril. Ou seja, a sua primeira tradução foi em espanhol e para esta revista”.

A Abril vive sobretudo do dinheiro dos organizadores e das suas subscrições. Durante vários anos, recebeu um subsídio do Ministério da Cultura Luxemburguês, que ajuda a pagar um dos dois números da revista que são publicados anualmente (em abril e outubro), mas é um financiamento que nem sempre é constante. Grande parte do investimento é feito pelos atuais cinco membros, todos eles espanhóis, que dedicam parte do seu tempo à tradução (quando os textos não se encontram já em espanhol) e pagam os custos da impressão e distribuição. Já os textos são cedidos pelos autores, assim como as ilustrações. “É uma revista que é feita com zero euros, não custa zero euros, mas é tudo feito por amor à arte”, diz Paca.

Paca nasceu em Granada e está quase há 34 anos no Luxemburgo
Paca nasceu em Granada e está quase há 34 anos no Luxemburgo
Foto: Sibila Lind

O último número da revista, publicado em outubro do ano passado, acabou por ser dedicado ao Brasil, coordenado por António Gonçalves, com apenas textos de autores brasileiros. A publicação da revista coincidiu com as eleições no Brasil, que provocaram bastante agitação e revolta no país após a candidatura – e agora tomada de posse – de Jair Bolsonaro. “A ideia do número brasileiro não tem qualquer relação política, económica, social e humana com o Brasil. São tudo contactos de números anteriores, mas, no fim, há textos que fazem referência à antiga ditadura, como ‘O tempo perdido’ da Tatiana Salem Levy ”, diz Paca. “Nós já publicámos bastantes autores brasileiros, mas ficávamos sempre com vontade de mais”.

A Abril chegou a ser vendida na Bélgica e no Luxemburgo mas agora encontra-se apenas na “Casa del Libro”, em Salamanca, na Espanha. Quem quiser, pode assinar a revista e recebê-la pelo correio. O mais recente número dedicado ao Brasil vai ser apresentado no dia 24 de janeiro, às 19h, no atelier do artista Robert Brandy, na cidade do Luxemburgo.