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A visão extraordinária de Licínio Oliveira

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A visão extraordinária de Licínio Oliveira

A visão extraordinária de Licínio Oliveira

A visão extraordinária de Licínio Oliveira


por Ricardo J. RODRIGUES/ 10.06.2020

Fotos: António Pires

Quando há dez anos ficou cego, um português de Schifflange viu-se confrontado com duas opções. Ou a vida que sempre conhecera terminava de vez, ou então começava tudo de novo.

Foto: António Pires

Esta história começa com um telefonema. Alexandre Bray, que dirige o departamento de publicidade e assinaturas do Contacto, recebeu na semana passada uma chamada de um leitor chamado Licínio Oliveira - queria receber o jornal numa nova morada. Permaneceram em linha uns bons minutos. Assim que desligou o telefone, o chefe de vendas contactou imediatamente a redação para contar uma história que não era nada menos que extraordinária.

É que, apesar de ser cego há uma década, Licínio Oliveira assegurava ler religiosamente o jornal português no Luxemburgo todas as quartas feiras. “Tenho aqui um aparelho que me permite digitalizar os textos e depois ouvi-los”, explicou de imediato. “A vossa paginação permite fazê-lo e isso é ótimo. Sabe, para mim é importante continuar a manter-me informado.” Num tempo em que a informação falsa se propaga pelas redes sociais como um vírus, aqui estava alguém que, contra todas as probabilidades, se mostrava empenhado em conhecer os factos esclarecidamente. Então era preciso contar a história dele.

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Sede de mundo
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Licínio e Benilde no dia do seu casamento.
Licínio e Benilde no dia do seu casamento.
Foto: António Pires

Licínio Oliveira nasceu há 55 anos numa pequena aldeia de Montemor-o-Velho chamada Bunhosa, mas as ruas da povoação sempre lhe pareceram estreitas para os seus sonhos. “Quando tinha 14 anos perdi o meu pai e os meus avós, a minha mãe viu-se sozinha com três crianças para criar e eu tive de me fazer à vida.” Trabalhava de dia como servente de pedreiro e estudava à noite. Mas o que ele queria era ver o mundo.

O sonho inicial era entrar na Força Aérea, mas não conseguiu vaga e deu-se como voluntário para o Exército. “Aos 18 anos fui para Lisboa. Era instrutor na escola prática de administração militar, no Lumiar, e palmilhei a cidade como a palma da minha mão.” Entre o que ganhava na tropa e o que tinha poupado conseguiu comprar um carrito. Fim de semana sim, fim de semana não fazia-se à estrada para ir aos bailaricos na sua região. E foi então que conheceu Benilde.

“Foi no Baile do Bom Sucesso”, conta agora ela sentada na mesa da sala da casa onde vivem em Schifflange, no sul do Luxemburgo. “O primo dele era professor de música e dava-me aulas na Casa do Povo da minha aldeia, perto da Figueira da Foz. Então fiquei impressionada com ele, era curioso e bem disposto. Tínhamos muita coisa em comum.” Nomeadamente a mesma tragédia: ela também tinha perdido o pai há pouco tempo.

Na tropa, para onde se deu voluntário.
Na tropa, para onde se deu voluntário.
Foto: António Pires

Benilde tem hoje 49 anos, mas a cumplicidade com o marido é tão adolescente como no dia em que se conheceram. “Tínhamos o mesmo grupo de amigos e houve um dia em que eu lhe ofereci uma pulseirazinha pelos anos. Isso selou as coisas, não foi preciso dizermos que namorávamos para saber que namorávamos.” Casaram-se em 1987, ele saiu do Exército e empregou-se numa fábrica. Mas dentro do peito rugia uma curiosidade pelo que havia do outro lado da fronteira. “Havia muita gente na nossa zona que tinha emigrado para o Luxemburgo e eu andei sempre com aquela ideia na cabeça. Não é que não estivesse bem em Portugal, tinha estabilidade e contas em dia. Mas eu não queria ter os pés agarrados ao chão”, diz ele.

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Emigrar é uma aventura
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A ouvir o jornal.
A ouvir o jornal.
Foto: António Pires

Cinco meses depois de Hugo – o primeiro filho do casal – nascer, meteu-se com um amigo num autocarro para o Grão-Ducado. “Cheguei em agosto de 1989, vinha com promessas de trabalho que afinal não se concretizaram. Passei meses duros, a trabalhar a negro”, recorda três décadas depois. O mais difícil de tudo era, no entanto, as saudades da mulher. Benilde chegou em janeiro de 1990. “Em Portugal tínhamos uma casa e agora tínhamos um quarto com um colchão no chão”, lembra a mulher. “Os primeiros anos foram difíceis.”

Ele trabalhava na construção civil, ela em cafés e limpezas, e as coisas começaram a compor-se. Arranjaram casa própria no lado belga da fronteira e em 1991 redobraram a alegria familiar com o nascimento de Diogo. Benilde desdobrava-se entre o o trabalho e a lida da casa, Licínio corria do estaleiro para o Liceu Técnico de Bonnevoie – desse por onde desse, queria terminar o 12° ano. “Depois de jantar ele dava-me os livros e pedia-me que lhe fizesse perguntas”, conta ela. “Acabávamos os dois a adormecer à mesa, exaustos.”

A leitura sempre fez parte dos seus dias. “Devorava tudo o que eram jornais, e muitos livros também”, explica. “Percebi sempre a importância que só se percebe a realidade quando conhecemos o que acontece noutros lugares, ou noutros tempos.” A vida não lhe dava vagar de ler tudo o que queria, mas ao pequeno almoço não havia maneira de largar as letras. Há um hábito que mantém desde esses dias: fazer as palavras cruzadas com a mulher. Um lê e o outro tenta encontrar a chave do enigma. É o jogo deles.

Em 1999 largou as obras e foi para motorista de táxi, não era homem de estar parado no mesmo sítio muito tempo. Pouco depois, tornou-se instrutor de condução – e isso era algo que gostava mesmo de fazer, ensinar os outros era algo que lhe estava no sangue. Um ano depois, chegaram as más notícias de saúde. Benilde foi diagnosticada com esclerose múltipla e Licínio com diabetes. “Quando no verão me fazia à estrada para Portugal comecei a reparar que chegava ao destino com a vista muito cansada”, conta o homem. “E foi nessa altura que percebi que alguma coisa não estava bem com os meus olhos.”

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Ensaio sobre a cegueira
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Foto: António Pires

Primeiro ficou tudo branco, depois ficou tudo negro. É assim que ele explica a sensação da perder a visão. A diabetes ataca-lhe o nervo óptico, primeiro o olho esquerdo, depois o direito. “Mais do que ter pena de mim próprio, eu comecei a pensar em como é que ia sustentar a minha família,” explica Licínio. Tentou adiar o inevitável, entre 2006 e 2010 fez mais de uma dúzia de cirurgias para travar a cegueira. “O prognóstico dos médicos é que eu ficaria totalmente invisual a partir dos 65 anos”, diz. “Mas afinal foi aos 46.” O último exame de condução que orientou foi o do filho mais novo, já com capacidades bastante reduzidas.

A família Oliveira.
A família Oliveira.
Foto: António Pires

Primeiro teve direito ao subsídio de desemprego, depois à pensão de invalidez. Em 2010, quando já não havia volta a dar-lhe, Licínio Oliveira mergulhou numa depressão profunda. “Das 24 horas que o dia tem eu passava 20 enfiado na cama.” Cansava-se por tudo e por nada, mesmo quando Benilde se sentava à borda da cama para lhe ler as notícias da semana, o homem exasperava. “Estava simplesmente esgotado.”

Um dia, numa consulta de oftalmologia, a mulher viu um cartaz da Fundação Lëtzebuerger Blannevereenegung, que apoia cidadãos com vários níveis de deficiência, nomeadamente visual. “Liguei para lá e uma senhora que também me disse ser cega pediu-me para falar com o Licínio”, lembra Benilde. “E então eles ficaram mais de 40 minutos ao telefone. Quando desligou, senti nele uma coisa que não sentia há muito tempo: esperança.”

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Das fraquezas forças
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A preparar o jantar
A preparar o jantar
Foto: António Pires

A Fundação tinha uma série de cursos que podiam ensiná-lo a adaptar-se a uma nova vida. Fez os ateliers para aprender a ler e escrever em Braille, teve aulas para aprender a mover-se com uma bengala, tinha lições de informáticas especialmente adaptadas à sua condição. “Então comecei a perceber que havia uma série de coisas que eu podia fazer. Inclusivamente, eu podia voltar a ler”, conta entusiasmado.

O teclado em Braille
O teclado em Braille
Foto: António Pires

Em frente ao computador tem um teclado em Braille. Mas o que para ele é verdadeiramente importante é o scanner que tem moradia ao lado do monitor. Todas as quartas feiras, assim que recebe o Contacto na caixa de correio, pega no jornal, passa-o pela máquina e começa a ouvir as notícias. “Oiço os títulos primeiro, depois abro as reportagens que me interessam. Continuo a dizer que não posso fazer juízos críticos sobre o mundo se não estiver informado sobre ele.”

Não é só o amor ao jornalismo que alimentou desde que perdeu a visão. “Tirei um curso de luxemburguês e consegui obter a nacionalidade. Imagine, conseguir fazer isto tudo depois de perder a vista”, e o homem começa a rir. Daqui a nada há de ser hora de preparar o jantar, e é ele que se põe a descascar cenouras e cebolas para o repasto. Licínio Oliveira pode demorar um bocadinho mais de tempo, mas consegue cumprir todas as tarefas a que se propõe. É autónomo. E, segundo as suas próprias palavras, é um homem feliz.

Ainda respeita o ritual de fazer as palavras cruzadas com a mulher. Ocupa bastante tempo a ler o mundo à sua maneira, e lamenta que haja tanta gente a comentar os títulos sem ler os artigos completos, “porque é assim, com opiniões pouco fundamentadas, que o populismo e o extremismo crescem”. E depois atira esta frase desconcertante: “Ficar cego trouxe-me muitas coisas boas, sabe? Uma união e um amor inabalável pela minha família e um orgulho por conseguir fazer coisas de que antes não era capaz. Aquilo que pensamos ser uma tragédia não precisa de ser sempre uma tragédia.” E sorri.

Ferramentas para uma vida feliz.
Ferramentas para uma vida feliz.
Foto: António Pires


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