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A vida e a morte de Daniel, o sem-abrigo francês que morreu nas ruas do Luxemburgo
Luxemburgo 13 min. 24.02.2015

A vida e a morte de Daniel, o sem-abrigo francês que morreu nas ruas do Luxemburgo

George Nixon, também a viver nas ruas, terá sido a última pessoa a ver Daniel antes de este perder a consciência.

A vida e a morte de Daniel, o sem-abrigo francês que morreu nas ruas do Luxemburgo

George Nixon, também a viver nas ruas, terá sido a última pessoa a ver Daniel antes de este perder a consciência.
Foto: Pierre Matgé
Luxemburgo 13 min. 24.02.2015

A vida e a morte de Daniel, o sem-abrigo francês que morreu nas ruas do Luxemburgo

Chamava-se Daniel, era francês e vivia nas ruas do Luxemburgo há quase uma década, depois de ter perdido o emprego e a casa que partilhava com a namorada. Morreu de frio na manhã de sábado, aos 58 anos. O último amigo que o viu com vida (na foto) e um assistente social retraçam a história de Daniel.

Uma vela e um ramo de flores marcam o local onde Daniel Marinelli dormia, ao lado de uma cabine telefónica, em Bonnevoie, no parque de estacionamento da Praça Léon XIII – a mesma onde todos os anos a Embaixada de Portugal deposita uma coroa de flores aos pés do busto de Camões, no 10 de Junho. Foi ali que no sábado de manhã um sem-abrigo encontrou Daniel inconsciente e deu o alerta. Chamados ao local, os bombeiros do SAMU tentaram reanimá-lo, mas o francês, de 58 anos, acabaria por morrer no hospital nessa mesma manhã, vítima de hipotermia.

George Nixon, canadiano a viver nas ruas, terá sido uma das últimas pessoas a ver Daniel consciente, na noite anterior. “Passei por lá por volta das seis da tarde e tentei convencê-lo a vir comigo passar a noite ao Findel [no abrigo de urgência da Acção Inverno], mas ele recusou. Deixei-lhe o meu saco-cama, e ele tinha cobertas com que se aquecer, mas o local onde ele dormia não era abrigado, e ele estava molhado e doente”, conta George ao CONTACTO.

No último mês, o canadiano chegou a levar Daniel algumas vezes ao abrigo temporário perto do aeroporto, mas na sexta-feira, o francês recusou.

“Quando lá passei no dia seguinte, por volta das 9h da manhã, vi a ambulância. Os bombeiros tentaram reanimá-lo, nessa altura ele ainda estava vivo. Mas quando fui vê-lo ao hospital, ao final da manhã, já tinha morrido. Morreu por volta das dez e meia”, diz George Nixon ao CONTACTO.

George não foi o único a tentar que Daniel, conhecido há anos dos serviços sociais luxemburgueses, fosse socorrido. Na véspera de morrer, o francês, a quem um ano antes fora amputada parte do pé, caiu e ficou ferido. Era sexta-feira de manhã e os “street workers” que prestam apoio aos sem-abrigo chamaram uma ambulância, mas Daniel recusou entrar. “Fizeram-lhe um penso no local, porque ele estava a sangrar do nariz, por causa da queda”, conta ao CONTACTO Bertrand Dauplais, técnico social do serviço Streetwork da Caritas Accueil et Solidarité.

Esta não foi a primeira vez que Daniel recusou ajuda, garante o educador da Caritas. O assistente social conhecia Daniel desde 2006, o ano em que o francês chegou às ruas. Nascido no departamento de Meurthe-et-Moselle, na região da Lorena, Daniel Marinelli trabalhou como talhante no Luxemburgo, mas nunca esteve registado no país. Depois de ficar desempregado, Daniel e a namorada perderam a casa em que viviam e acabaram sem tecto nem ajudas do Estado luxemburguês.

“Como nunca esteve domiciliado no Luxemburgo, não pôde beneficiar de nenhuma ajuda social, apesar de ter feito descontos no Grão-Ducado”, conta o assistente social. Nesse ano, o primeiro de Daniel nas ruas, o francês chegou a dormir algumas noites no Foyer Ulysse, o albergue para sem-abrigo gerido pelo Caritas, “mas só durante a Acção Inverno”, de 1 de Dezembro a 31 de Março, altura em que o Governo luxemburguês garante acolhimento temporário para os sem-abrigo.

“Depois disso, não havia nada a propor-lhe no Luxemburgo. Propusemos-lhe várias vezes obter apoio em França, onde ele teria direito a assistência social, mas ele recusou sempre”, conta o técnico social da Caritas. “O Luxemburgo era o único país onde ele mantinha ligações com as poucas relações que tinha, como com a namorada, que continuava a ver”, diz.

Doente nas ruas

Há um ano, a situação de Daniel agravou-se. O sem-abrigo, com problemas de alcoolismo, sofreu a amputação parcial do pé direito, atingido pela gangrena, “em parte devido ao frio”, recorda o técnico social. Foi ele quem levou Daniel ao hospital, a 31 de Dezembro de 2013, e o foi buscar quando este teve alta.

“Encontrámos-lhe alojamento e um apoio social em França, mas como era em França, ele recusou. Tivemos de o levar ao abrigo da Acção Inverno, no Findel, mas ele só lá esteve duas noites”, recorda Bertrand.

Debilitado, Daniel começou a ter dificuldades para andar. Chegar à "Teistuff", um local de assistência aos sem-abrigo da Caritas, aberto durante o dia na rua du Dernier Sol, a escassos metros do sítio onde Daniel dormia, era um esforço acima das suas forças. “Era demasiado longe para ele”, conta o técnico social, que o acompanhou várias vezes. “Ficava sem fôlego e perdia o equilíbrio, por causa do pé amputado, e tinha de parar dez, quinze vezes”. Por causa disso, os enfermeiros da Help, um serviço da Cruz Vermelha luxemburguesa, “chegaram a fazer-lhe o curativo no passeio, sem as mínimas condições de higiene”.

A alternativa continuava a ser a mesma: regressar a França, que Daniel recusava, ou dormir no albergue temporário aberto exclusivamente no Inverno, perto do aeroporto. "Estamos completamente bloqueados. Há muitos sem-abrigo que não têm direito a assistência social. Durante a Acção Inverno, podem ser acolhidos, mas quando o Inverno acaba, são obrigados a voltar para a rua”, explica o técnico social.

Após a amputação, Daniel voltaria a ser hospitalizado pelo menos mais duas vezes. Em meados do ano passado, foi agredido por um toxicodependente com uma garrafa. Ficou ferido no olho, mas os hospitais luxemburgueses não estavam equipados para o operar. Era preciso levá-lo a Nancy, mas Daniel recusou. "Fui eu mesmo buscá-lo para o levar ao hospital, mas ele disse que não, porque era em França. Voltava sempre ao mesmo: ‘Fico aqui, fico no Luxemburgo’”, recorda o técnico social.

Em Dezembro de 2014, é hospitalizado pela última vez, por causa do outro pé, em risco de ser amputado. “Trataram-no, e é verdade que o pé melhorou e decidiram não o amputar, mas ele também não tinha ‘Caisse de Maladie’ [Caixa de Doença], e desta vez isso foi dito claramente”, conta o “street worker”

Quando Daniel deixa o hospital, vai viver com um amigo num alojamento enquadrado para sem-abrigo, mas o azar volta a bater-lhe à porta. Em Janeiro deste ano, "o amigo ficou doente e teve de deixar o apartamento, e ele foi obrigado a sair", conta o técnico social. Sem segurança social, Daniel não tinha direito a alojamento acompanhado no Luxemburgo.

O "street worker" foi buscá-lo ao apartamento para o levar ao abrigo de urgência perto do aeroporto. Na noite seguinte, outro técnico social voltaria a conduzi-lo ao albergue do Findel. "Ficava, mas só se o levássemos lá. Um dos meus colegas mostrou-lhe o caminho de autocarro, para lhe ensinar como fazer, mas para ele era demasiado cansativo, ou talvez fosse demasiado complicado".  

Parte do problema, diz o técnico social, é o Luxemburgo não ter "um serviço de autocarro para recolher as pessoas, como em França". "Para ir até ao Findel, ele podia apanhar um autocarro em frente ao local onde dormia, mas depois era preciso mudar na Gare", explica o assistente social.

Demasiado complicado para Daniel? George Nixon, a viver no Luxemburgo desde 1980, acha que sim. Tem 58 anos, a idade de Daniel, e admite que ele próprio não dorme todas as noites no abrigo de emergência na zona do aeroporto.

"Se estiver doente ou se estiver muito frio, vou lá dormir, mas se o tempo estiver bom, prefiro não ir. Não é um sítio bonito, e não é para toda a gente. Às vezes saio de lá mais cansado do que quando entrei. Não é agradável acordar às 3 da manhã com alguém a tentar roubar-nos as botas", diz George, sublinhando que o processo de admissão também é complicado.

"É preciso registar-se durante o dia na rue du Dernier Sol [na Caritas], e apanhar o autocarro especial às 19h, ou então apanhar o 9 ou o 114, mais tarde. É idiótico uma pessoa ter de se registar todos os dias", diz, "há demasiada burocracia".

O fim da linha

A 13 de Fevereiro, uma semana antes da morte de Daniel, George Nixon participou numa missa em memória dos sem-abrigo falecidos em 2014, um ritual que se repete todos os anos na igreja de Bonnevoie, na praça Léon XIII. No ano passado morreram nove sem-abrigo no Luxemburgo, incluindo dois portugueses, mas nenhum deles faleceu nas ruas, garantem os técnicos sociais com quem o CONTACTO falou. Alguns morreram em lares ou nos hospitais, incluindo de ‘overdose’. De hipotermia, George Nixon só se lembra do caso de Pascal, um sem-abrigo que morreu há quase dez anos numa cabine telefónica, "talvez em 2006", ao lado do local onde Daniel dormia.

"O Daniel não foi o primeiro e receio que não seja o último. Só espero não ser eu o próximo", diz George.

Desta vez, os amigos de George chegaram a pensar que tivesse sido ele a vítima do frio luxemburguês: a página no Facebook do canadiano está cheia de mensagens de pessoas que tentaram contactá-lo quando leram a notícia nos jornais.

George Nixon é uma cara bem conhecida no Luxemburgo, não só dos sem-abrigo e assistentes sociais, mas também de alguns cinéfilos. Com um rosto carismático, o canadiano já fez de figurante em várias produções luxemburguesas. Actualmente está a filmar com o actor e realizador luso-descendente Nilton Martins. "Faço o papel de um sem-abrigo que morre na rua, já viu que karma?".

O CONTACTO foi encontrá-lo esta segunda-feira à espera do autocarro para ir até ao local das filmagens, abrigado da chuva dentro de uma cabine telefónica – a menos de um metro do sítio onde Daniel dormia.

"Ele costumava dormir aí nos últimos tempos, depois de um bando de polacos lhe ter roubado o colchão e de o terem expulsado do sítio onde ele dormia, que é coberto. É ali atrás, quer vir lá ver?".

Era aqui, por debaixo de um alpendre, que Daniel dormia há uns meses, antes de ser expulso por outros sem-abrigo, acusa George Nixon
Era aqui, por debaixo de um alpendre, que Daniel dormia há uns meses, antes de ser expulso por outros sem-abrigo, acusa George Nixon
Foto: Pierre Matgé

No local – uma série de lugares de estacionamento cobertos por um alpendre –, meia dúzia de homens que vivem na rua abrigam-se da chuva. Há um colchão encostado à parede, a mesma onde se pode ler "Daniel" em letras grandes, já um pouco apagadas. "Era aqui o lugar dele, mas expulsaram-no."

Os homens que ocupam agora o espaço que já foi de Daniel rodeiam-nos. “É melhor irmo-nos embora, isto vai aquecer”, avisa George.

Além de figuração em filmes, o canadiano, que chegou ao Luxemburgo em 1980, faz também voluntariado na “Stëmm vun der Strooss” ("A Voz da rua"), uma associação que fornece comida e roupa aos sem-abrigo, em Bonnevoie. Na "Stëmm", George, tipógrafo de profissão, recebe 50 euros por mês e o passe de autocarro, mas continua sem encontrar tecto, para lá do albergue de emergência no Inverno. O processo é kafkiano: sem morada, um sem-abrigo perde o direito ao apoio social, e sem este não consegue alojamento.

"Não há nada para alguém como eu e o Daniel. Os ‘street workers’ passam e dão-nos café e sandes, mas não há mais nada. Para comer, não há problema, mas para encontrar alojamento é preciso ter uma morada. No address, no help! (sem morada, não há ajuda). Para entrar no Foyer Ulysse, é preciso ter uma morada. Somos excluídos. Andamos de Ministério em Ministério, sem parar e sem qualquer progresso", queixa-se o canadiano.

A responsável da "Stëmm vun der Strooss" confirma a falta de opções dos sem-abrigo que não preenchem os requisitos para usufruir de assistência social no Luxemburgo.

"Não é só uma questão de aceitar uma pessoa nos abrigos de emergência, é ter o direito de trabalhar, de receber o rendimento mínimo, de encontrar alojamento. No caso do George, por exemplo, não é por receber 50 euros e o passe de autocarro que ele vai conseguir sair da rua: ser voluntário na ‘Stëmm’ permite-lhe apenas estar ocupado durante o dia", diz Alexandra Oxaceley, sublinhando que dois terços dos sem-abrigo que frequentam as cantinas sociais da associação não têm direito a assistência social, incluindo imigrantes à procura de emprego ou requerentes de asilo “em situações extremamente precárias”.

Para Alexandra Oxaceley, "o sistema é demasiado rígido" e muitos dos que acabam nas ruas "perdem a força para lutar".

"Há nove anos, quando chegou à rua, Daniel ainda podia ter tido uma oportunidade, mas encontrou barreiras que o desiludiram e lhe retiraram toda a esperança. A rua quebra as pessoas: quanto mais tempo passam nas ruas, mais difícil se torna ajudá-los", defende.

"Mas não é uma escolha. Quando chegamos a um estádio em que as pessoas recusam ajuda, é porque os problemas anteriores não foram resolvidos. É o ponto de não retorno, o fim da linha", sublinha.

No autocarro em que acompanho George a caminho das filmagens, a conversa gira em torno da responsabilidade pela morte de Daniel. "Who do you put the blame on?", a quem culpar?, pergunta o canadiano. A resposta, admite, não é simples.

"Pela morte, ele teve a responsabilidade. Mas pela forma como vivia, [a culpa] é da Caritas e dos Ministérios, é da falta de ajuda com a papelada. Ele não tinha papéis nem morada, e sem isso... É o que estão a fazer comigo. O Luxemburgo devia ter resolvido a situação dele. Mas no Luxemburgo diziam que a responsabilidade era da França", diz George. "Hello!", exclama alto o canadiano, como se faz com alguém que não está a ver bem o filme. "Ele vivia aqui! Ele não queria voltar para França!"

Esta noite, George Nixon ainda não sabe onde vai dormir. As filmagens devem acabar depois das onze da noite – demasiado tarde para poder entrar no abrigo de emergência na zona do aeroporto, a única alternativa para não ficar na rua.

Paula Telo Alves