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A vida até onde a bicicleta o levar

A vida até onde a bicicleta o levar

A vida até onde a bicicleta o levar

A vida até onde a bicicleta o levar


por Sibila LIND/ 26.02.2020

Foto: Sibila Lind

É neozelandês, vegan, defensor do ambiente e apaixonado por Lisboa. Já viveu num autocarro escolar, num barco e esteve mais de um ano a viajar em cima da bicicleta. No Luxemburgo, pela primeira vez, Thomas Elliot, de 34 anos, pôs um travão e assentou. Mas, falta pouco para pegar na bicicleta e ir descobrir o resto do mundo.

A vida de Thomas desde cedo se fez sobre rodas. Tinha seis meses quando os pais decidiram transformar um autocarro escolar numa casa. Mudavam o veículo de lugar e exploravam uma nova terra, às vezes no meio do nada. No espaço à volta, plantavam vegetais e colhiam. Não tinham casa de banho. Tinham uma banheira fora do autocarro. Acendiam uma fogueira por baixo dela e, passado umas duas horas, a água ficava quente. Era assim que tomavam banho: no meio da natureza a olhar para as estrelas. Só mais tarde é que Thomas percebeu o privilégio que teve em ter uma vida fora do normal.

Até aos 10 anos, foi no autocarro que viveu, sempre em andamento. De cidade para cidade, aldeia em aldeia. Os pais – a mãe formada em botânica e o pai em geologia – ensinavam o filho no autocarro, quando não havia uma escola por perto. Em 2000, decidiram instalar-se numa casa em Whangārei. Thomas já tinha passado por 13 escolas. O “bichinho” pela mudança ficou, assim como pela natureza. Quando entrou para a universidade em Oakland, decidiu estudar matemática e biociência molecular. Mas Whangārei era uma cidade demasiado virada para o consumo, e Thomas – um anos depois de lá estar – decidiu continuar a licenciatura em Palmerston North, uma cidade muito pequena mas com uma vida estudantil agitada.

Nunca tive um apartamento, o meu quarto, a minha cozinha. E o Luxemburgo permitiu-me ter isso.

Em 2007, tinha um diploma na mão, mas não sabia o que queria fazer da vida. Então partiu, com uma mochila às costas, à descoberta da Europa continental. Durante três meses, percorreu-a com um amigo. Em 2011, decide voltar a fazer o mesmo. Numa casa ocupada, em Liubliana, na Eslovénia, descobre uma bicicleta partida dos anos 70, do tempo do regime comunista da ex-Jugoslávia. Apaixonou-se e decidiu aprender a arranjá-la. Foi com ela que começou a pedalar por vários países. A sua história começou a fazer parte da história desta bicicleta. E a ideia de poder movimentar-se nela até onde quisesse entusiasmou-o. Não precisava de pensar em horários, gasolina ou estacionamento. Não estava dependente de nada.

É então que, em 2015, terminado o mestrado em Engenharia do Ambiente decide ir de bicicleta até Londres, onde se iria encontrar com o irmão mais velho. Partiu da Nova Zelândia de barco à vela com uns amigos. Durante quatro meses, navegou no oceano Pacífico Norte. Desembarcou em Singapura e depois foi só pedalar. Pelo caminho, descobriu novas cidades e culturas, e criou novas amizades. Depois de 13 meses de viagem, chegou a Londres, em agosto de 2016, já o Brexit tinha sido referendado. Esse episódio dificultou-lhe a procura de trabalho na área. Durante cinco meses, não teve sorte, mas numa semana, recebeu logo três propostas: um posto numa organização não-governamental ambientalista em Londres, uma bolsa de doutoramento em Hamburgo, na Alemanha, e uma bolsa de doutoramento no Luxemburgo.

Foto: Sibila Lind

No final, Thomas escolheu ir para a Alemanha. Mas quando lá chegou foi contactado pelo Instituto Luxemburguês de Ciências e Tecnologia (LIST), que insistiu que reconsidera-se a proposta e o convidaram a visitar o país durante uns dias. Thomas foi tão bem recebido e achou a capital simpática, que decidiu mudar. Em Hamburgo, pegou na bicicleta e pedalou até Colónia, onde apanhou o comboio para o Luxemburgo. Em Belval, começou o doutoramento em Serviços dos Ecossistemas. Chegou a passar um ano em Lisboa, “um dos melhores anos da sua vida”, devido a uma parceria da universidade com o Instituto Superior Técnico.

Estar há três anos no Luxemburgo tem sido um desafio para Thomas: “Nunca tive um apartamento, o meu quarto, a minha cozinha. E o Luxemburgo permitiu-me ter isso. Ter a minha coleção de discos aqui comigo. Descobrir restaurantes vegan que têm crescido muito e conhecer o meu bairro”, conta. “Estar no Luxemburgo para mim significa que posso pousar por um tempo as minhas raízes, apesar de não planear ficar aqui para sempre”.

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