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A sindicalista portuguesa que representa os imigrantes e ajuda a curar
Luxemburgo 6 min. 30.04.2021

A sindicalista portuguesa que representa os imigrantes e ajuda a curar

A sindicalista portuguesa que representa os imigrantes e ajuda a curar

Fotos: António Pires
Luxemburgo 6 min. 30.04.2021

A sindicalista portuguesa que representa os imigrantes e ajuda a curar

Madalena QUEIRÓS
Madalena QUEIRÓS
Sónia Neves é a nova presidente do departamento dos imigrantes da central sindical OGBL.

É uma força da natureza. Na voz de Sónia Neves sente-se a representação dos milhares de trabalhadores imigrantes que lidera na OGBL, a maior central sindical do Luxemburgo.

Veio para o Grão – Ducado com apenas três meses com os seus pais. Tem mais três irmãos. Sempre trabalhou no comércio e está há 16 anos na cadeia de lojas Bram. “Sou delegada sindical há quatro anos, foi eleita para a Câmara dos Trabalhadores em 2019”. É vice-presidente do Sindicato do Comércio do OGBL onde está a travar muitas batalhas como a questão do trabalho aos domingos. Faz parte também da ONG “Solidarité syndicale da OGBL e do departamento de mulheres Equality.

Depois de anos a pedirem-lhe para ser delegada sindical, houve um dia que decidiu aceitar. O seu objetivo sempre foi “ajudar as pessoas e acabar com as discriminações” entre os trabalhadores.

Uma das suas principais bandeiras é a luta por uma “habitação para todos, limitando o preço dos arrendamentos”, sublinha. “Este é um dos principais problemas porque muitas pessoas não tem contrato por tempo indeterminado o que torna difícil arranjar alojamento. Depois os preços da habitação estão cada vez mais caros, enquanto os salários não aumentam e a maioria tem que ir viver para França ou outros países, porque aqui não conseguem”, acrescente Sónia Neves. Um problema que afeta sobretudo os imigrantes “que recebem o salário mínimo e trabalham em setores como o comércio, restauração, limpeza e construção e que acabam por ir viver para fora do Luxemburgo.” O que cria outros problemas: “se ficarem desempregados só têm direito ao subsídio de desemprego dos país onde residem que é mais baixo que no Luxemburgo”. A solução, para Sónia Neves, passa por “aumentar os salários e diminuir o preço das rendas”. A pandemia acabou por afetar mais os imigrantes “porque estiveram sempre a trabalhar no comércio e limpeza. Uma força de trabalho esquecida mas que “assegura a limpeza nos hospitais e que também está em risco e que muitas vezes trabalhou sem condições de segurança e com salários muito baixos”. Na construção, um dos setores que esteve parado, os trabalhadores tinham o desemprego parcial e por isso recebiam menos.

A classe média está cada vez mais pobre

E como é possível viver estas desigualdades no país mais rico da Europa?”Antigamente tínhamos os ricos, a classe média e os pobres. Agora a classe média está a a ficar cada vez mais pobre e a desaparecer e os ricos estão a ficar mais ricos”. ´O acesso à saúde é outro dos problemas. Por isso defendem a implementação urgente do sistema de “tiers payant”, que prevê que o Estado luxemburguês passe a pagar diretamente ao prestador de saúde, deixando o paciente de ter que pagar adiantado.

Reconhece que os imigrantes são a grande fatia dos trabalhadores que recebe o salário mínimo e que, em termos de salário são discriminados.

Optou por ter a dupla nacionalidade e adianta que ”há cada vez mais portugueses que têm a nacionalidade luxemburguesa”. Depois há também “a discriminação das mulheres que são poucas a chegar a lugares de gestão das empresas e organizações”. “Muitas vezes tendo o mesmo diploma, o homem ganha mais que a mulher”, sublinha.

E ainda sente que há alguns problemas de aceitação quando é uma mulher a liderar.

Para acabar com o sofrimento

Mas há um outro lado da vida de Sónia Neves que complementa o seu trabalho. Quando começou o trabalho sindical apercebeu-se que havia muitos trabalhadores “com esgotamentos e depressões” e percebeu que precisava de outras armas para os ajudar. No seu entender esta terceira onda da pandemia está a gerar “uma crise psicológica, porque as pessoas estão cansadas e não percebem porque está a durar tanto tempo”. Depois no comércio trabalha-se todo o dia com a máscara o que torna difícil a comunicação.

Uma formação de dois anos em sofrologia, na Universidade de Lille deu-lhe mais ferramentas para ajudar os trabalhadores imigrantes.

Agora durante as horas de trabalho organiza sessões de sofrologia. Mas, afinal, o que se faz nestas sessões? “Um psicólogo trabalha ao nível do subconsciente, o sofrólogo trabalha a mente e o corpo”, esclarece Sónia Neves. São várias as técnicas que utiliza, desde a neurociência, ao budismo a exercícios de yoga e relaxamento e recorre a várias técnicas orientais e ocidentais. São terapias que ajudam na gestão do stress, quando há dificuldade em adormecer ou outros problemas.”

“Como delegados sindicais também temos que estar preocupados com o bem-estar das pessoas. Notei que muitas pessoas que vinham ter comigo queriam falar. Mas faltava-me mais formação. Agora posso ajudá-los a sentirem-se melhor no trabalho e em termos psicológicos, ativando a respiração”.

Depois há também entre as imigrantes, o problemas das mulheres que vivem em famílias monoparentais onde, por vezes, é difícil conciliar horários e apoio aos filhos, diz. Agora “fala-se na hipótese de abrir o comércio aos domingos, onde é que as mulheres vão colocar as crianças se as creches estão fechadas?”, questiona.


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