Escolha as suas informações

A saga de encontrar uma casa a um preço aceitável
Editorial Luxemburgo 3 min. 14.04.2021 Do nosso arquivo online

A saga de encontrar uma casa a um preço aceitável

A saga de encontrar uma casa a um preço aceitável

Foto: Chris Karaba
Editorial Luxemburgo 3 min. 14.04.2021 Do nosso arquivo online

A saga de encontrar uma casa a um preço aceitável

Madalena QUEIRÓS
Madalena QUEIRÓS
Desde que cheguei ao Luxemburgo, há quase dois anos, já morei em quatro apartamentos. Encontrar uma casa em condições, com um preço comportável, tem sido uma verdadeira odisseia.

É o descrédito da justiça portuguesa. Na primeira entrevista depois do despacho que fez cair 25 dos 31 crimes de que era acusado na Operação Marquês, José Sócrates diz que "o que a direita queria é que não houvesse tribunais e eu fosse linchado". Uma entrevista a não perder. Na edição desta semana do Contacto traçamos o retrato do luxemburguês que serviu Churchill no Ritz de Paris. Michel Boufassa tinha 17 anos quando conheceu o líder britânico e nunca mais o esqueceu. Para acabar olhamos para a subida exponencial dos preços das casas no Luxemburgo, um dos países com as casas mais caras da Europa.

Desde que cheguei ao Luxemburgo, há quase dois anos, já morei em quatro apartamentos. Encontrar uma casa em condições, com um preço comportável, tem sido uma verdadeira odisseia. A minha segunda experiência foi a mais traumatizante: uma casa em Hesperange a um preço aceitável. Tudo parecia em condições. Três semanas depois tinha mudado de casa. Às dez da noite, como num filme de terror, o inocente café do rés do chão transformou-se numa verdadeira discoteca. E as camas do meu quarto e da minha filha vibraram até à uma da manhã. A música estava tão alta que até podíamos acompanhar as letras das canções. 

Desci várias vezes as escadas para entrar numa sala com luzes azuis de discoteca improvisada para pedir que baixassem o volume. Não tive qualquer sucesso. Liguei desesperada para o agente imobiliário que me tinha arranjado este lindo sítio. Sugestão: Chame a polícia! O ar ameaçador dos donos do café fez-me temer o pior. A polícia não era uma opção. Nem o advogado a que recorri me deu qualquer saída. Tinha assinado um contrato de arrendamento por um ano, onde estava escrito preto no branco que devia aceitar as consequências de morar num edifício que tinha um "distributeur de boissons" no rés do chão.

A situação era incomportável. Estava "agarrada" por um ano a uma casa que se transformava em discoteca a partir das 22h00, sem aviso prévio. Mudei rapidamente para um apartamento que arranjei no Airbnb. Duas semanas depois a imobiliária aceitou que fosse para um outro apartamento que tinha disponível: umas águas furtadas bem perto da Gare. E lá aguentei mais de dez meses a subir umas escadas que eram uma verdadeira lixeira e que não viam limpeza há muitos anos.

Agora que parecia ter descoberto o sítio certo, recebi uma carta registada a avisar que vão vender o apartamento onde moro em Gasperich. Tenho prioridade na compra. O único senão: o apartamento foi posto à venda pela módica quantia de 775 mil euros. E lá vou eu ter que arranjar outro poiso. Só de pensar no assunto até fico com suores frios. Este é apenas o meu exemplo. Histórias como estas multiplicam-se.


Habitação. Preço das casas dispara 99,8% em dez anos
Muito acima da média europeia, o Grão-Ducado está do pódio dos países que observaram o maior aumento do preço das casas entre 2010 e 2020 com uma taxa de 99,8%. Nem a pandemia impediu um novo recorde. Em relação ao quarto trimestre de 2019, o valor dos imóveis registou uma subida de 16,7%. Na capital, o metro quadrado ultrapassou pela primeira vez os 10 mil euros.

Na edição desta semana publicamos os números que mostram que o Grão-Ducado é um dos países europeus onde as casas se tornaram mais caras. Em apenas dez anos os preços duplicaram no Grão-Ducado de acordo com os números divulgados pela organismo das estatísticas do Luxemburgo (Statec). Para muitos a solução é ir viver para os países vizinhos, o que implica enfrentar engarrafamentos todos os dias, para cá e para lá.

Esta semana a revista The Economist publica um artigo "Don’t stop me now" que começa assim: "Há uma obsessão que une os países ricos: a habitação". Não poderia estar mais de acordo.

Siga-nos no Facebook, Twitter e receba as nossas newsletters diárias.


Notícias relacionadas

O preço louco da habitação está a obrigar os luxemburgueses a ir viver para os países vizinhos, e os seus habitantes a deixar de poder morar também na sua terra, como Arlon. O efeito bola de neve da habitação no Grão-Ducado tem diversas direções: filhos adultos a viver mais tempo com os pais, desigualdades a aumentar e o país a deixar de ser atrativo para os emigrantes.