Escolha as suas informações

A primeira feira do cânhamo no Luxemburgo é feita por dois portugueses que sonham regressar à terra do seu avô
Luxemburgo 5 min. 13.06.2019

A primeira feira do cânhamo no Luxemburgo é feita por dois portugueses que sonham regressar à terra do seu avô

A primeira feira do cânhamo no Luxemburgo é feita por dois portugueses que sonham regressar à terra do seu avô

Foto: NRA
Luxemburgo 5 min. 13.06.2019

A primeira feira do cânhamo no Luxemburgo é feita por dois portugueses que sonham regressar à terra do seu avô

Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Nuno RAMOS DE ALMEIDA
O Contacto falou com dois dos organizadores da primeira “Hemp Expo” que se vai realizar no Grão-Ducado. Uma iniciativa com debates, música, exposições e feira que vai mostrar as várias utilizações desta planta.

Nos próximos dias 6 e 7 de julho vai realizar-se a primeira “Hemp Expo” no Luxemburgo. Esta feira, que ocorre em vários países do mundo, é uma iniciativa para divulgar as várias utilizações do cânhamo. O evento decorrerá em Dudelange no Nei Schmelz, Hall Fondouq, num espaço com mais de 2 600 metros quadrados, e vai ter espetáculos, concertos, conferências e uma mostra dos muitos produtos que a versão do cânhamo sem THC – substância psicotrópica que é usada na droga que se fuma – pode ser utilizada, nomeadamente, óleos, produtos alimentares, papel, cordas, vestuário. Haverá ainda uma Hem Cup que premiará os melhores produtos presentes feitos com cânhamo. Reza a lenda que o cânhamo foi proibido nos EUA, no século XIX, pela pressão dos cultivadores do algodão que, a pretexto de poder ser utilizada como droga, tiraram fora da concorrência um material que pelas suas características é muito mais fiável, resistente e com mais utilização que o algodão.

Os organizadores desta feira são três: o lusodescendente Kevin Rebelo Lopes, o filho de pai português e mãe italiana Luca Lopes e o italiano Domenico Laporta.

O Contacto falou com os dois organizadores de origem lusófona. Kevin tem 23 anos, está a tirar o mestrado em Direito na Universidade do Luxemburgo; Luca Lopes tem 25 anos, já trabalhou em restaurantes, num Social Clube em Espanha – onde os associados podem consumir cannabis numa determinada quantidade, atualmente está ligado a uma associação de Futsal e faz trabalho com os mais jovens.

Os dois apresentam-se com as t-shirts da “Hemp Expo”, por acaso em algodão. “Ainda há pouca gente na Europa que cultiva cânhamo. Aqui no Luxemburgo só há um terreno com 20 hectares que está autorizado a fazer. Por isso é mais caro ainda usar t-shirts de cânhamo. E são também mais complicadas de imprimir”, justifica Kevin.

A ideia de uma feira começou de uma conversa entre estes dois primos e de um desejo comum: voltarem à sua aldeia de Trás-os-Montes para cultivarem as terras do avô, com cânhamo. Esta vontade de colocar a produzir os 2500 metros de terras que têm na aldeia da Campeã, entusiasma os jovens, os país e o avô. “Neste momento nas nossas terras, o meu avô só consegue cultivar uma pequena porção do terreno com legumes e tomates. Esta era uma forma de utilizar as terras. Estou a tirar Direito, mas não me vejo a estar oito horas à frente de um computador”, diz Kevin. “O meu pai está muito entusiasmado com o projeto de fazermos uma empresa e usarmos a terra para cultivar cânhamo para utilizações como o têxtil, o cânhamo medicinal, e muitas outras. Seria uma forma de conseguir até que ele pudesse regressar a Portugal. Voltou há pouco tempo para o Luxemburgo, está a trabalhar num café, mas preferia voltar à sua terra”, explica Luca.

Portugal tem as condições ótimas de terra, sol e água para a cultura do cânhamo. Não é por acaso que grandes companhias norte-americanas se estão a instalar por esse canto da Europa. Todos os anos, desde a infância, os dois primos vão às terras do avô, que lhes ensinou a cuidar da terra, e mostrou como se trata dos animais e até como depois eles são mortos para serem aproveitados nos muitos produtos gastronómicos da região.

Há alguma coisa que o cânhamo possa enriquecer a comida local? Luca, que já trabalhou em cozinhas de restaurantes não tem dúvidas: “O cânhamo permite fazer azeite, manteiga, leite e muitos outros produtos que se podem usar na cozinha”.

A vida também ajudou a que tivessem a ideia de organizar a primeira “Hemp Expo” no Luxemburgo. O pai de Kevin é tetraplégico e bateu-se, durante muito tempo, para que no Luxemburgo fosse permitido a utilização do cânhamo medicinal para combater as dores de muitos doentes. Uma medida que foi tomada há alguns anos pelo Grão-Ducado.

A feira não tem nada que ver com a utilização da cannabis como droga. Os produtos de cânhamo exibidos na feira só podem ter até 0,3 % de THC, muito abaixo do que as drogas que se fumam que podem atingir 20 a 25% dessa substância psicotrópica.

No entanto, os primos estão atentos à promessa do governo do Grão-Ducado de permitir que nos próximos quatro anos seja legalizado o consumo de cannabis recreativo. Embora a feira e esta medida governamental não estejam ligadas. É muito pouco provável que as mais de 30 shops que participam na feira venham a vender cannabis recreativo. A nossa feira está a servir para criar um espaço de participação e de troca de experiências destas entidades, mas não está implicada na legalização em termos recreativos”, avisa Kevin. Sobre as medidas do governo, os primos têm algumas duvidas em relação aos seus objetivos. “Há 5 a 6% de pessoas que consomem diariamente cannabis no Luxemburgo. Esta droga vendida ilegalmente na rua tem 20 a 25% de THC. O governo propõe arranjar condições para que se consuma legalmente cannabis com apenas 5 a 10% de THC. O que quer dizer que dificilmente os atuais consumidores ficarão satisfeitos com essa oferta”, enfatiza Luca. “Nem fumando um fardo essas pessoas vão apanhar a moca que querem”, acrescenta Kevin.

Ainda por cima, a venda vai estar limitada a uma pequena quantidade e a apenas a residentes no Luxemburgo. A situação só vai mudar quando outros países vizinhos pensarem nesta experiência e tomarem medidas similares. “Fala-se que a Bélgica e a Alemanha podem vir a evoluir para medidas nesse sentido. Mas, em minha opinião, tem que se ser mais realista. Alguém que quer beber álcool, pode consumir uma cerveja ou um vodka que têm diferentes concentrações de álcool. Com a Cannabis também devia ser semelhante. Limitar a 5% de THC não vai acabar com o tráfico ilegal de drogas leves”, nota Kevin.

Esperam que a feira seja um sucesso, têm já muita gente interessada que vai participar no evento. Há entidades do Luxemburgo, Alemanha e Suíça que vão estar presentes na primeira “Hemp Expo” no Luxemburgo. “Para o ano tem de ser num sítio muito maior”, prevê Kevin.

Siga-nos no Facebook, Twitter e receba a nossa newsletter das 17h30.