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A filha de Simone de Oliveira dá cartas no poder local no Luxemburgo

  • "Sempre me interessei com o que se passa à minha volta"
  • A viagem atribulada que a trouxe ao Luxemburgo há 36 anos
  • Discriminação é "muito subtil"
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A filha de Simone de Oliveira dá cartas no poder local no Luxemburgo

A filha de Simone de Oliveira dá cartas no poder local no Luxemburgo
Comunas

A filha de Simone de Oliveira dá cartas no poder local no Luxemburgo


por Madalena QUEIRÓS/ 08.06.2022

Foto: Gilles Kayser

Eduarda Macedo é a única portuguesa no Conselho Comunal da Cidade do Luxemburgo. Nunca lhe passou pela cabeça exercer um mandato, mas o inesperado aconteceu em 2021.

Foi “o acaso” que ditou que Eduarda Macedo fosse eleita para este lugar importante do poder local da capital do país, em representação do partido d'Os Verdes (Déi Gréng). Tudo começou quando foi líder de um dos mais importantes sindicatos de funcionários das instituições europeias. Durante alguns anos presidiu o Comité de Pessoal da Comissão Europeia, o que corresponderá à comissão de trabalhadores. 

Foi enquanto sindicalista que organizou um debate sobre a Mulher e o Poder, por ocasião do 8 de março, dia internacional da mulher, para o qual convidou mulheres representantes dos partidos na política local. Nunca pensou que seria esta a ocasião que mais tarde lhe abriria as portas do poder local do Luxemburgo. Por ocasião do debate, estávamos em 2010, ainda havia poucas mulheres em lugares de decisão na Comissão Europeia.

A vereadora d'Os Verdes, Viviane Loschetter foi a única que aceitou participar e depois de algumas conversas Eduarda Macedo foi surpreendida, em 2011, com um convite para integrar as listas do partido Déi Gréng ao Conselho Comunal. Na altura pensou “porque não”. “Nunca tinha sido membro de um partido político, nem aqui, nem em Portugal”, confessa.

“Sabendo que a comunidade portuguesa no Luxemburgo é muito grande e é muito reticente quanto à participação política” havia que fazer alguma coisa “para abrir esse caminho”. “Até porque todos os partidos políticos procuram ter não luxemburgueses nas suas listas eleitorais”, sublinha. Mas para que isso possa acontecer “tem que haver pessoas disponíveis para o fazer”.

Caso não tivesse havido este convite será que teria vindo parar à política autárquica. “Não sei?”, responde entre sorrisos.

Foto: Gilles Kayser

Na altura sentiu que “era uma janela que se abria para qualquer coisa que não conhecia, uma janela que se abria para uma sociedade em que vivia há muitos anos”, sublinha. Pensou que “oportunidade tão interessante que me está a cair à minha frente.” Sempre achou que havia que agarrar as oportunidades porque elas surgem sempre por algum motivo. Participou nas eleições “sem qualquer ambição” e apenas com “a vontade de contribuir para um partido com o qual me identifico e para que essas ideias possam avançar.”

Em 2017 voltou a concorrer. Melhorou o resultado e conseguiu chegar ao décimo lugar nas listas, mas nunca lhe passou pela cabeça exercer o mandato, porque havia apenas cinco lugares para o partido.

O inesperado aconteceu no ano passado em outubro quando veio ocupar um lugar que ficou, entretanto, vago, devido à saída de Carlo Back, também conselheiro pelos Verdes. E não “há nada como ir ver como é para depois contar como é que foi”.


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Depois de ter jurado fidelidade ao Grão-Duque, para sempre na sua memória ficará a primeira participação no Conselho Comunal da Comuna do Luxemburgo. Como não podia deixar de ser, defendeu a participação cívica de estrangeiros na vida política do Luxemburgo. Aumentar essa participação é uma das suas bandeiras. Até porque não faz sentido que 70% dos habitantes da cidade do Luxemburgo, que são estrangeiros, não façam ouvir a sua voz na gestão da cidade. Os portugueses são a segunda comunidade mais importante na capital, tendo sido ultrapassados pela comunidade francesa. A capital do Grão-Ducado conta com 12.700 portugueses e cidadãos de 167 nacionalidades diferentes. As decisões ficam assim nas mãos de 30% dos habitantes luxemburgueses, se os estrangeiros não se recensearem.

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"Sempre me interessei com o que se passa à minha volta"
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Foto: Gilles Kayser

Expressiva, com uma voz grave e determinada diz que “sempre me interessei por aquilo que se passa à minha volta. Tal como não fiquei dentro das paredes do meu gabinete de tradutora e procurei conhecer melhor a organização para além do meu serviço e fui fazer outras coisas”, conta Eduarda Macedo. A sua estreia na atividade sindical também foi motivada pelo acaso. Quis o destino que no dia em que fez uma intervenção muito crítica sobre um novo método de avaliação dos trabalhadores da Comissão Europeia chamasse a atenção de um líder sindical durante uma assembleia-geral. Na sequência desta intervenção foi convidada para integrar as listas do sindicato.

Uma paixão que a levou a mudar de país

Eduarda Macedo diz que está no Luxemburgo “há uma vida”. São 36 anos que começaram quando foi aceite como candidata a tradutora no serviço de tradução da Comissão Europeia no Luxemburgo, um mês antes de Portugal entrar para a então Comunidade Económica Europeia. Havia urgência de contratar pessoas que falassem português. Na altura tinha um namorado na Alemanha e foi a forma que encontrou de ficar mais perto dele. Mudou de país para se aproximar do que veio a ser o pai do seu filho. Para além disso “tinha esse sonho da Europa” que a fazia ter vontade de sair de Portugal e de “cheirar esta Europa de que tanto se falava”. Porque o projeto europeu sempre fez muito sentido para si. Ainda sem internet “havia muito pouca informação” sobre as instituições europeias e o processo de integração.

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A viagem atribulada que a trouxe ao Luxemburgo há 36 anos
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Foto: Gilles Kayser

Não esquece o domingo, 1 de dezembro de 1985, em que aterrou pela primeira vez no Luxemburgo. Depois de uma viagem atribulada. O avião não pode aterrar em Zurique por causa do mau tempo, onde iriam fazer escala e teve que seguir para Genebra. Sem ligações diretas para o Luxemburgo da cidade suíça tiverem que seguir para Londres para apanhar um voo com destino ao Luxemburgo.

Quando chegaram à noite “fazia um frio dos diabos”. “Apanhámos um táxi e o motorista do táxi era português”, foi o primeiro embate com o país em que o português é uma língua tão comum. Recorda-se que ficou num hotel. O Hotel San Remo, na Place Guillaume, mesmo em frente à Câmara do Luxemburgo, onde hoje exerce o cargo de Conselheira Comunal.

“Tinha pouquíssimo dinheiro, só chegava para pagar duas noites de hotel. “Felizmente os administradores que nos acolheram foram simpáticos e compreensivos porque nos reembolsaram imediatamente os bilhetes de avião, o que habitualmente não era feito com tanta rapidez”. Depois de uma curta explicação “ou nos reembolsavam o bilhete de avião ou então acolhem-nos em vossas casas”. A solução foi encontrada.

Hoje não tem dúvidas que o Luxemburgo “também é a minha casa”. O resultado de “um processo que é lento, porque uma casa não se constrói de um dia para outro, nem a ligação com a cidade e o país”.

A questão da baixa participação política dos estrangeiros tem também “que ver com o facto das pessoas não terem tempo para se ligar aos sítios, à cidade e ao país”. “Porque o ritmo de vida é muito acelerado e porque o trabalho é de tal forma absorvente que a energia que fica pode ser insuficiente”, explica.

Foto: Gilles Kayser

Depois “é preciso querer conhecer o país”. Mas “hoje o país não tem nada a ver com o que era quando aqui cheguei é verdadeiramente um outro mundo”, sublinha.

Há um conjunto de razões que justificam a hesitação da comunidade portuguesa em participar politicamente”, explica. O facto da comunidade portuguesa ser tão grande e de facilmente se poder mover apenas no espaço em que se fala português poderá ser um dos motivos. Mas há também “razões históricas, porque são hábitos e esquemas mentais que já trazem de Portugal.”. Memórias de um tempo de quem viveu em ditadura e onde não se votava. “A ideia de que a política é uma coisa perigosa, suja e só para alguns”, sublinha. Aquele discurso “a minha política é o trabalho”.


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E também “com o baixo nível de educação formal”, embora “haja muitos exemplos de pessoas com baixa escolaridade que participam ativamente na vida sindical e associativa”. Depois há quem receie a obrigatoriedade do voto. Mas na opinião de Eduarda Macedo “o voto deveria ser obrigatório em todo o lado, porque acho que é um direito, mas também um dever”. “O cidadão deve exprimir-se e dar a opinião sobre a forma como quer que a cidade e o país sejam geridos”, conclui. Para isso é necessário “desmistificar a política e dizer que não é um bicho de sete cabeças”.

“Porque há uma série de coisas quotidianas, como os transportes públicos, a recolha do lixo, o arranjo das ruas, os parques e os jardins, o gás e a eletricidade, a escola e a segurança que têm que ver com o dia-a-dia das pessoas e que é importante que as pessoas tenham uma palavra a dizer”. É preciso perceber que “as pessoas têm capacidade de influenciar as coisas, nomeadamente através do voto. Não o fazer é privarem-se de um poder que têm”.


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Depois há “esse sentimento de impotência que tem que ver com a história de um país que tem a ditadura mas também monarquias absolutas, de que eu não posso fazer nada, porque o meu voto e a minha voz não servem para nada”. Crenças que é preciso combater fortemente. “Fazer as pessoas acreditar que podem “contribuir para mudar, essa é também uma das tarefas dos políticos”.

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Discriminação é "muito subtil"
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Foto: Gilles Kayser

Comentando o estudo que revela que um em cada três portugueses se sente vítima de discriminação no acesso ao trabalho, habitação e emprego, diz que essa “discriminação é muito subtil”. Quanto à escola diz ter “dificuldade em avaliar se essa discriminação é contra os portugueses, ou se é mais geral em relação aos estrangeiros”. “É triste que jovens com talento e capacidade sejam orientados para o ensino técnico por serem estrangeiros quando poderiam seguir outros caminhos. Mas “há trinta anos era muito pior, porque a sociedade luxemburguesa se abriu e tornou mais cosmopolita”.

Depois por ser o segundo país do mundo com maior percentagem de estrangeiros, viver no Luxemburgo “é extremamente interessante”. Uma experiência “única e extraordinário que não vou desperdiçar a oportunidade de fazer parte para que esta experiência continue a avançar e progredir e contribuir para que cada vez menos pessoas se sintam excluídas.” Também é preciso dizer que o Luxemburgo é um país com muito dinheiro, o que ajuda também a manter a paz social”. 

Quanto ao futuro Eduarda Macedo diz que “uma coisa é certa é que vou ser candidata em 2023” nas próximas eleições comunais.

E em breve vai estrear-se a celebrar um casamento civil na Sala da Comuna no dia 17 de junho. O noivo é brasileiro e queria ter a celebração em português porque vai ser transmitida à distância para a sua família no Brasil. Essa é também uma das funções do Conselheiro Municipal.

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