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A onda populista

A onda populista

Foto: Pierre Matgé
Editorial Luxemburgo 2 min. 18.07.2018

A onda populista

Paulo Jorge PEREIRA
Paulo Jorge PEREIRA
Por enquanto são os nomes das ruas. Mas alguém pode garantir que a defesa do luxemburguês não irá assumir passos com dimensão mais alargada e maiores consequências nas vidas de todos?

Tudo partiu de uma consulta à população organizada pelo Governo, tendo como pano de fundo a promoção do idioma. Uma das cerca de 100 propostas apresentadas em diversas reuniões pelo país fora e também com recurso a um site é converter os nomes das localidades nas placas rodoviárias para luxemburguês. Conforme conta a jornalista Paula Telo Alves nesta edição, já existem exemplos desse género e até os luxemburgueses consideram, em vários casos, que a medida acaba por ter efeitos contrários aos que desejava concretizar.

O Executivo liderado por Xavier Bettel vai analisar as sugestões e, conforme aprovado há cerca de duas semanas, será um futuro comissário para a língua luxemburguesa a avaliar quais farão mais sentido. Afinal, terá um “plano plurianual” de promoção do idioma que precisará de ser preenchido.

Nada está decidido e pode até ser que esta medida de mudança dos nomes de ruas não venha a ser concretizada. Porém, com as eleições de 14 de outubro cada vez mais próximas, a tentação por escolher estratégias e adotar medidas populistas é evidente. E, em relação ao DP, partido de Bettel, essa realidade ficou já bem expressa no lema escolhido para a campanha (“Zukunft op Lëtzebuergesch” ou o Futuro em luxemburguês). Num país em que a população estrangeira está perto de superar a luxemburguesa, alterar os nomes das ruas, por muito que seja apresentado como uma bondosa possibilidade de defesa do idioma, acaba por transformar-se em mais uma dificuldade que terá de ser ultrapassada no quotidiano. A língua luxemburguesa ficaria assim tão prejudicada se houvesse dupla grafia, como aconteceu, por exemplo, na Irlanda com o inglês e o gaélico?

Várias vezes os políticos têm usado o multilinguismo como um argumento que torna o Luxemburgo num país equilibrado e atraente para todos. Mas a defesa do idioma, por muito que se diga tratar-se de uma medida de inclusão, vai assumir a forma de afastamento para demasiada gente, uma vez que acaba por servir elites como a classe política e não o cidadão comum. Ora, as políticas governamentais, aqui ou em qualquer outra parte do mundo, devem ser escolhidas em função do bem comum e não do que é melhor para uma parcela das populações.

Por enquanto são os nomes das ruas. Mas alguém pode garantir que a defesa do luxemburguês não irá assumir passos com dimensão mais alargada e maiores consequências nas vidas de todos? E se, dentro de algum tempo, tudo fosse apenas em luxemburguês? Isso seria mesmo benéfico para todos ou só para alguns? Beneficiar apenas alguns é próprio de uma sociedade democrática?

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