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A noite em que somos todos luxemburgueses
Opinião Luxemburgo 3 min. 02.07.2022
A fava

A noite em que somos todos luxemburgueses

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A noite em que somos todos luxemburgueses

Foto: Claude Piscitelli
Opinião Luxemburgo 3 min. 02.07.2022
A fava

A noite em que somos todos luxemburgueses

Ricardo J. RODRIGUES
Ricardo J. RODRIGUES
Ao longo de três anos esperei pacientemente pela noite de 22 para 23 de junho. E, na semana passada, finalmente pude vivê-la em cheio.

Há três anos que andava à espera disto. Desde que cheguei ao Grão-Ducado fui avisado múltiplas vezes: “Tens de estar cá para a Festa Nacional.” E o facto é que sempre foi um alerta internacional – feito por luxemburgueses, sim, mas também portugueses e franceses, belgas e cabo-verdianos. Ao longo de três anos esperei pacientemente pela noite de 22 para 23 de junho. E, na semana passada, finalmente pude vivê-la em cheio.

Cheguei em julho de 2019, um mês depois da última celebração a sério. Nos dois anos seguintes, já se sabe, a pandemia estragou os planos à festa. Mas agora ia mesmo ser a sério. A expectativa era tanta que eu e os meus amigos começámos a combinar as coisas ainda maio corria ligeiro. Ao final da tarde faríamos um churrasco no nosso quintal, depois subiríamos ao centro para ver o fogo de artifício e dançar no embalo dos concertos. Até ao raiar do sol? Até ao raiar do sol.

Dias antes, tinha eu voado para Lisboa para o Santo António. É a noite mítica da capital portuguesa, em que uma cidade inteira desembarca nos arraiais para dançar música pimba, comer sardinhas demasiado caras e beber cerveja demasiado quente. Mas quem é que quer saber disso quando se monta uma festa que mostra que uma urbe pode ser a soma de muitas aldeias, e que todas elas são belas e orgulhosas? Alfama é linda, pois claro, mas também a Mouraria, a Bica e a Madragoa o são. E, por uma noite, somos todos bairristas e lisboetas ao mesmo tempo.

Cheguei em julho de 2019, um mês depois da última celebração a sério. Nos dois anos seguintes, já se sabe, a pandemia estragou os planos à festa.

Como sou alfacinha, estive uma única vez no São João do Porto. E, na verdade, achei-o igualmente extraordinário. É a mesma declaração de amor a uma cidade – mas em vez de marchas a descer uma avenida, há balões a subir aos céus. E o facto é que gosto de me deixar enebriar nestas noites em que as multidões percorrem as ruas e se apertam em festa com o único objetivo de celebrar as ruas que percorrem todos os dias, os sítios onde vivem e constroem o futuro. No fundo é isso que acontece nos Santos Populares em Portugal. E no fundo é também isso que acontece na Festa Nacional do Luxemburgo.

Os nossos planos de subir ao centro para ver o fogo de artifício falharam redondamente. Atrasou-se a grelhada das salsichas e então já só tivemos tempo de galgar a colina que existe atrás da nossa casa. Mas ver tanta luz a partir de um miradouro florestal em Cents foi uma sensação arrebatadora. Éramos uma vintena de pessoas de todas as nacionalidades e guardámos um absoluto silêncio enquanto um Grão-Ducado inteiro se celebrava a si mesmo. No final batemos palmas, como estou certo que a multidão que estava perto da Ponte Adolphe aplaudiu o espetáculo.

No resto da noite cumprimos o plano. De festa em festa, até ao raiar do dia. Quando me fui deitar, fiquei ali uns minutos a avaliar se tinha valido a pena esperar três anos pela festa. E cheguei à conclusão que sim, que tinha cumprido as minhas expectativas e for a ainda mais. Bem posso ter um Santo António em Lisboa e um São João no Porto, mas a Festa Nacional serviu-me para perceber que somos os sítios que habitamos e que é justo celebrar tudo o que eles acrescentam à nossa vida. Na noite de quarta para quinta, fomos todos luxemburgueses.

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