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A mesa do alentejano que dá felicidade ao Luxemburgo
Luxemburgo 3 6 min. 28.04.2022
Portugueses Felizes

A mesa do alentejano que dá felicidade ao Luxemburgo

António Castanho, com a mulher Sónia e a filha Maria, de 19 anos, numa foto no seu restaurante em Esch.
Portugueses Felizes

A mesa do alentejano que dá felicidade ao Luxemburgo

António Castanho, com a mulher Sónia e a filha Maria, de 19 anos, numa foto no seu restaurante em Esch.
Foto: António Pires
Luxemburgo 3 6 min. 28.04.2022
Portugueses Felizes

A mesa do alentejano que dá felicidade ao Luxemburgo

Paula SANTOS FERREIRA
Paula SANTOS FERREIRA
O restaurante Tapas, de António Castanho, em Esch, é o cantinho alentejano mais falado do país. Com a sua história iniciamos a publicação de quatro reportagens diárias sobre Portugueses Felizes no Grão-Ducado.

É muito difícil resistir ao cheiro aconchegante de uma linguiça ou morcela assada, ou ao perfume de uma açorda alentejana. Quando acompanhados por um bom vinho ou cervejas portuguesas o deleite ainda é maior para quem está a dois mil quilómetros da terra natal, sejam alentejanos de gema ou outros portugueses residentes no Luxemburgo. 

São estes odores e paladares tão típicos do Alentejo que António Castanho se orgulha de dar a conhecer no Grão-Ducado, no seu restaurante Tapas Bar, em Esch-sur-Alzette. Este alentejano é um dos portugueses que se sente feliz no Luxemburgo, o sexto país mais feliz do mundo, segundo o “World Happiness Report”, e onde nove em cada 10 residentes consideram a sua situação pessoal e profissional boa, como revela, por seu turno, o Eurobarómetro. 

Esta é a primeira de quatro reportagens diárias sobre portugueses imigrados no Luxemburgo que se "sentem muito bem" neste país e tão cedo não pretendem regressar a Portugal.

O brinde de António Castanho ao convívio: "Os bons momentos é o que levamos da vida".
O brinde de António Castanho ao convívio: "Os bons momentos é o que levamos da vida".
Foto: António Pires

Voltamos ao pedaço de Alentejo que António Castanho, 46 anos, construiu em Esch e onde se sente como se nunca tivesse deixado a sua cidade de Beja, há 11 anos, com a mais-valia de poder receber amigos e dar a conhecer as maravilhas gastronómicas da sua terra.

Petiscos e bons momentos

Esta é uma “casa familiar”, onde à volta de uma mesa se “juntam convivas para passar bons momentos”, não importa a nacionalidade. “São estes tempos felizes de boa disposição que levamos desta vida”, enfatiza ao Contacto o português a sorrir, enquanto circula pelo restaurante a conversar e a preparar mais um dia de almoços, confecionados pela sua mulher Sónia, responsável pela cozinha e também ela alentejana. 

Já os petiscos são da responsabilidade de António. “A maioria dos portugueses no Luxemburgo é oriunda do norte ou centro de Portugal, mas também há alguns alentejanos que estão espalhados pelo país e agora o nosso restaurante é o seu ponto de encontro”, sublinha António Castanho, reconhecendo o quão feliz estas reuniões o deixam. Por isso, de quando em quando, pega na sua guitarra à noite e oferece aos clientes canções alentejanas.

Do futebol para a restauração

Quando decidiu emigrar para o Luxemburgo, em 2011, “à procura de uma vida melhor para a família” este alentejano que trabalhava na restauração pensou em dedicar-se a outra profissão. “O meu sonho era continuar também no futebol, a treinar os miúdos, porque o bichinho do futebol nunca me largou”, diz. E, conseguiu. 

Durante anos treinou os mais novos no La Jeunesse, em Esch, uma atividade que lhe dá muito prazer, mas a qual foi obrigado a deixar há quatro anos, quando lhe propuseram abrir e gerir o restaurante alentejano.

“A proposta foi irrecusável até porque já estava com saudades desta profissão. Sobretudo queríamos ter um espaço que à tarde oferecesse petiscos durante esse período”, o que é raro, lembra António Castanho. Uma aposta acertada, que trouxe logo clientes fiéis. 

À mesa do Tapas Bar há muitas ofertas de "pica-pica" para acompanhar uma bebida, como alheira de urtiga ou enguias fritas, entre muitos outras iguarias alentejanas, mas também de outras regiões, explica o gerente desta casa que tem sempre Portugal à mesa.

"Embaixador do Alentejo"

A fama do Tapas Bar já chegou ao Alentejo, e António Castanho foi condecorado pela imprensa da sua terra, Beja, como o “embaixador do Alentejo no Luxemburgo”.

Petiscos à parte, um dos pratos mais famosos é mesmo a açorda alentejana. “Até muitos dos nossos clientes portugueses desconheciam a açorda, que é diferente da açorda feita no norte, mas também temos as migas. Os luxemburgueses também apreciam muito este nosso prato”.

Claro que as saudades do Alentejo são muitas e, sempre que pode, António, a sua mulher Sónia e as duas filhas, Maria de 19 anos, e Madalena, de 14 anos, rumam a Portugal. No Luxemburgo, do que sente mais falta, não é do sol ou do mar. “É da minha família e das gentes do Alentejo”, frisa.

Como bom alentejano até as anedotas se contam neste cantinho português ou não fôra António um humorista que em Portugal se aventurou na stand-up comedy e provocou risadas no palco do conhecido programa de televisão “Levanta-te e ri”.

A família Castanho gosta de viver no Luxemburgo. “Sinto-me bem aqui, sou feliz na medida do possível e foi fácil adaptar-me a este país, os luxemburgueses e residentes de tantas nacionalidades acolheram-me bem”, conta o português.

Mesmo com o mau momento que a restauração passou devido à crise provocada pela Covid-19, António e a família decidiram continuar no Luxemburgo. “Estivemos quase um ano fechados e nessa altura passou-me muita coisa pela cabeça sobre o que iria fazer, pensei em voltar para Portugal, claro, estávamos todos perdidos. Mas consegui aguentar o barco graças aos nossos clientes fiéis e amigos, que continuaram a encomendar-nos os pratos no sistema take away”, reconhece o português. 

Agora já voltou a ter casa cheia ao fim de semana, quando as marcações têm de ser feitas com antecedência. Nos próximos anos, António e Sónia contam continuar no Luxemburgo. “Pelo menos, até as nossas filhas estarem encaminhadas. Quando vieram para cá elas tinham 8 e 5 anos e viemos para o Luxemburgo para lhes darmos uma vida melhor. Por isso, até saírem das saias da mãe, continuaremos aqui”, perspetiva rindo e acrescentando que, nessa altura, o mais certo será passar umas temporadas em Portugal e outras no Luxemburgo.


A emigração faz parte da história da sua família, tendo António nascido na Alemanha, onde os seus pais estavam imigrados. Aos oito anos foi viver para o Alentejo e, com o regresso dos pais à terra natal mais tarde, foi ele “a aventurar-se na emigração”, escolhendo o Luxemburgo onde tinha amigos. Não está arrependido. Elogia a “natureza do seu país de acolhimento e a localização privilegiada no centro da Europa, com acesso fácil a outros países”, além do sistema de saúde, dos apoios sociais e reformas que oferece, “muito melhores do que em Portugal”. Mas também há críticas, a maior é sobre o ensino escolar do Luxemburgo que ainda está atrasado” em comparação ao do país natal.

Festival de solidariedade

Entre a azáfama da gestão do restaurante, António Castanho ainda faz questão de se dedicar à solidariedade. Acaba de lançar o CD “ Tapas – Quatro Anos de Festas!”, que reúne músicas de artistas portugueses amigos, do Luxemburgo e de Portugal, entre eles que dará o mote para um festival de música de três dias no restaurante, a 3, 4 e 5 junho. As receitas do CD revertem a favor de uma criança com deficiência em Portugal.

Há agora outro desejo por concretizar, o de voltar ao futebol. Durante anos foi treinador dos mais novos no clube La Jeunesse d’Esch, um desafio apaixonante que o ajudou a integrar-se melhor no Luxemburgo nos primeiros anos, pois o “futebol é universal”. “Quando o restaurante estiver estabilizado gostava muito de retomar os treinos. Só que os nossos horários são, por agora, incompatíveis com os treinos, por isso, o bichinho do futebol está sossegado”. Mas quando puder volta a ser o mister de todos os meninos que sonham alto com a bola nos pés.  

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