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A médica que trocou Portugal pelo Luxemburgo e já não quer voltar
Luxemburgo 5 min. 14.10.2020

A médica que trocou Portugal pelo Luxemburgo e já não quer voltar

A médica que trocou Portugal pelo Luxemburgo e já não quer voltar

Luxemburgo 5 min. 14.10.2020

A médica que trocou Portugal pelo Luxemburgo e já não quer voltar

Álvaro CRUZ
Álvaro CRUZ
Ana Teixeira é natural do Porto e está no Grão-Ducado há três anos. Era cirurgiã no Hospital Pedro Hispano, em Matosinhos, e mudou-se para o Centro Hospitalar do Luxemburgo. Gosta do seu novo país.

 “A minha qualidade de vida melhorou substancialmente desde que vim para o Luxemburgo. Aqui é mais fácil viver, principalmente no que diz respeito à nossa carreira. Ser médico em Portugal é muito duro. Temos de nos esforçar imenso para que as coisas funcionem, mas há sempre muitos entraves e dificuldades e isso vai desgastando. Aqui, é mais fácil exercer-se medicina em todos os aspetos”, diz em jeito de balanço Ana Teixeira, a única cirurgiã visceral-geral portuguesa no país.

Chegou ao Grão-Ducado há pouco mais de três anos. Veio com o marido que foi trabalhar para as instituições europeias e passou a integrar o quadro médico do Centro Hospitalar do Luxemburgo, na capital.

“Vim sem qualquer convite ou concurso aberto. Apresentei-me e tive sorte porque ninguém me conhecia. O diretor clínico reconheceu que eu já possuía alguma experiência na especialidade e percebeu que valia a pena dar-me uma oportunidade para mostrar o que valho. Felizmente fui bem aceite pelos colegas e as coisas têm corrido bem.”

Contrastando com Portugal, diz que o trabalho aqui é mais “previsível” e as coisas mais facilitadas no acesso a novas técnicas e condições de trabalho.

“Em Portugal nunca sabia quando saia do hospital, mas aqui sei que por volta das 17h30 posso ir para casa. Lá, as coisas são mais complicadas. Os médicos sabem do que os doentes necessitam e não os podem deixar, apesar das burocracias que só atrapalham o funcionamento das coisas. E é pena porque em Portugal existem excelentes médicos. Infelizmente, o sistema lá está montado para dificultar as coisas, enquanto aqui é tudo feito para facilitar”, vinca.

Compara as diferenças dos dois sistemas de saúde e dá exemplos concretos: “Em Portugal, para se ter acesso a um tratamento, os pacientes têm de passar primeiro pelo médico de família, depois vão a outro entre longos tempos de espera e, se tiverem de fazer exames complementares, as coisas prolongam-se ainda mais, enquanto aqui as pessoas simplesmente ligam e marcam a consulta.”

“Os portugueses aqui não sabem que eu existo”

Ana tem alguns pacientes portugueses, mas confessa que esperava ter mais devido à numerosa comunidade lusa aqui radicada.

“Os portugueses aqui não sabem que eu existo. Os que vêm às minhas consultas ficam muito contentes por poder falar a língua materna, sobretudo os mais idosos, porque quando se está doente e não se sabe bem o que se tem é mais fácil falar dos sintomas na nossa própria língua. Quando temos de falar outra, por vezes, não nos conseguimos exprimir convenientemente e escapam pormenores importantes para se fazer um diagnóstico convenientemente”, explica.

Sabia que a comunidade portuguesa é a mais representativa no Grão-Ducado e confessa que como muitos também veio encontrar familiares seus no país: “Em Portugal não há ninguém que não tenha um primo no Luxemburgo” atirou com um sorriso “e eu não sou exceção. Encontrei uma tia e duas primas, porque a minha avó me avisou que tinha cá família.”

Vai a Portugal pela Páscoa, Natal e nas férias, mas ainda assim confessa que tem saudades do país e em particular da sua cidade natal: “O mar faz-me muita falta e sobretudo a intensidade do sol que é um bálsamo para a alma. O mar, os pescadores os belos restaurantes e tantas outras coisas que nos caracterizam...”

Uma vida melhor no Luxemburgo

Mas agora é no Luxemburgo que tem a sua vida e assegura que não pensa voltar para Portugal.

“Dei um passo em frente. Não só na minha carreira, mas também nas condições de vida. Os salários são muito melhores e aqui podemos ver mais facilmente os frutos do nosso empenho. Bastaram-me apenas duas semanas de trabalho para perceber que não vou voltar a Portugal. É tão diferente e tão melhor sentir a satisfação de ver as coisas funcionarem como desejamos... Inicialmente, pensava que ia ficar por lá e que nunca iria abandonar o barco, mas quando se experimenta algo melhor, acabamos, forçosamente, por mudar de opinião”, reforça.

Ana Teixeira faz parte do [considerável] contingente de médicos estrangeiros que trabalham no Luxemburgo, algo que não a surpreende. “Estou a viver uma bela experiência. Existem muitos médicos de outras nacionalidades porque aqui as condições de trabalho são boas. Demorei um ano para dizer ao meu marido que, efetivamente, valeu a pena ter vindo para o Luxemburgo.”

“A carreira de médico é muito longa e não é fácil. São seis anos de estudos, mais seis de especialização e ainda o estágio. Não tenho filhos por opção própria. Tenho um marido de quem gosto muito e uma carreira que me preenche, se tivesse filhos alguma coisa poderia ter de ficar para trás... se estivesse aqui há mais tempo era capaz de reconsiderar, mas não é agora que vou mudar de vida.”

Fala todas as semanas com colegas em Portugal que lhe pedem informações e garante que a esmagadora maioria dos médicos que de lá sai já não volta.

“Muitos colegas perguntam-me regularmente informações porque a situação em Portugal está complicada. Aqui, ainda há concursos, vamos ver...” diz Ana Teixeira, encolhendo os ombros, terminando ao explicar a sua escolha pela medicina, a única de uma família virada para a área das ciências.

“A 15 dias de decidir o meu futuro, descobri que estar ligada ao voluntariado era uma necessidade porque ajudar as outras pessoas me faz feliz. Entretanto, percebi que era possível fazer voluntariado e receber um salário e mais tarde decidi especializar-me em cirurgia, que para mim é uma paixão.”

Uma vocação em prol dos outros que Ana Teixeira pretende colocar ao serviço da comunidade portuguesa residente no Luxemburgo. 

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