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A mãe que deixou o filho para trás para poder ficar com ele

A mãe que deixou o filho para trás para poder ficar com ele

A mãe que deixou o filho para trás para poder ficar com ele

A mãe que deixou o filho para trás para poder ficar com ele


por Ricardo J. RODRIGUES/ 01.03.2020

Foto: Sibila Lind

Depois da Revolução Cultural, os estudantes chineses tiveram de abandonar as cidades para trabalhar no campo. Li Min até admitia abdicar do sonho de ser médica, o que não suportava era não poder ver o filho crescer. Um dia, fugiu para o Luxemburgo. Sozinha. Chegaria o tempo de mandar chamar o rapaz.

Desde pequena que queria salvar vidas. Nunca teve grande apetência pela medicina tradicional, mas a curiosidade por perceber como funcionava o corpo humano era autenticidade de infância. “Tinha muito boas notas na escola e o meu projeto era seguir para a Universidade. Mas a Nova China de Mao Tze Tung deu-me a volta aos planos”, conta agora Li Min Zou, 67 anos, na sua casa em Leudelange. “O governo acreditava que os estudantes deveriam mudar-se para o campo, aprender com as populações locais e contribuir para o esforço de alimentar o país. Então não tive outro remédio senão partir.”

Tinha 16 anos. Dão-lhe guia de marcha para um posto no extremo norte do país, junto à fronteira com a Sibéria e a Mongólia. “Eu tinha passado toda a minha vida em Shangai e nunca tinha posto sequer um pé no campo. Aquele lugar para onde me queriam mandar era o mais distante que havia, por isso a minha família foi pedir às autoridades que me pusessem um pouco mais perto de casa. Eram funcionários da comuna e por isso consegui ficar em An Hui. Não era perto, mas sempre dava para ir a casa visitar a família no Ano Novo.”

Tinha tantas saudades [do meu filho], tantas. Mas eu sabia que estava a construir as condições para o poder trazer.

Em março de 1970, ela e mais três colegas são deixadas num campo no meio de nenhures. “Tínhamos apenas uma barraca com o teto em palha e o chão de terra batida. Casa de banho não havia, para termos água tínhamos de andar seis quilómetros até ao poço e a comida era racionada. Cada um tinha apenas direito a uma tigela de arroz por dia.” No inverno havia pouco o que fazer, mas no verão trabalhavam das cinco da manhã às dez da noite. Plantavam chá e arroz. 

“Setembro era o mês mais feliz das nossas vidas, porque havia batatas doces. Tudo o resto era fome”, conta Li Min. Uma vez as raparigas deram com uma cabra morta e a fome foi tanta que decidiram cozinhá-la. “Comecei a inchar, fiquei com mais de 40 graus de febre e o enfermeiro mais próximo vivia a 8 quilómetros. Tive de caminhar até lá naquelas condições, devo ter demorado umas boas três horas a fazer o percurso”, e a voz embarga-se com a memória daquele dia. Ao fim de quatro anos, não aguentava mais. Sabia que uma companhia de aço numa cidade vizinha andava a recrutar estudantes e pediu para ir às captações.

Li Min segura uma das cassetes que na altura enviou ao filho, que estava na China. Era a única forma de ele ouvir a sua voz
Li Min segura uma das cassetes que na altura enviou ao filho, que estava na China. Era a única forma de ele ouvir a sua voz
Foto: Sibila Lind

Na entrevista falou do seu sonho de ser médica e disseram-lhe que precisavam de uma enfermeira. Em 1974 mudou-se para Ma An Shan, primeiro teve um ano de formação em socorrismo, depois começou a trabalhar no consultório. “Pela primeira vez em anos, fiquei feliz com a minha vida. E depois as coisas correram tão bem que os capatazes da fábrica acabaram por recomendar que eu fosse estudar medicina para a universidade. Então eu fui, durante três anos voltei aos estudos e foi um tempo maravilhoso.” Em 1980 começou a trabalhar no hospital de Ma An Shar, casou-se com um engenheiro da fábrica de aço e o sonho parecia avançar.

Os primeiros tempos foram duros, o Chong tinha nove anos e teve de se adaptar a um país novo e a uma mãe que não conhecia.

Em 1985 nasceria Chong. Com turnos atrás de turnos o casal fazia das tripas coração para cuidar do rapaz, mas em 1987 tudo mudaria. “A pressão era muita e divorciámo-nos. Eu fiquei sozinha com o Chong, mas era impossível tomar conta dele sem apoio.” Pediu que a transferissem para Shangai, ao menos ali teria o apoio da família. Mas recusaram. “Responderam-me simplesmente que o meu papel na construção da China estava em Ma An Shan.” No final desse ano foi entregar o rapaz à mãe e pediu-lhe que cuidasse dele. Mas voltar para o hospital e uma vida longe da descedência – sem perspetiva de regresso – era dor que lhe corroía as entranhas. 

“Uma amiga da família tinha partido anos antes para o Luxemburgo e abrira um restaurante. Ela disse-me que aqui se ganhava bom dinheiro e que precisavam de alguém para servir às mesas.” Era o seu escape. Se conseguisse construir uma vida fora da China, haveria de tornar viável ter o filho ao seu lado. No dia 28 de agosto de 1988, chegou a Findel. E o que viu não era nada menos do que um admirável mundo novo. “Havia secadores para as mãos e sabonete líquido nas casas de banho. Quer dizer, havia casas de banho em todos os restaurantes e em todas as casas. Tudo era bonito, até o edifício das finanças.”

Foto: Sibila Lind

Nos três primeiros anos não teve uma única folga. “Na China eram raros os telefones, por isso eu gravava cassetes com cartas faladas para a minha mãe e para o Chong.” Ainda as tem guardadas na cave, e quando as vai buscar as mãos tremem. “Era a única coisa que me ligava ao meu filho. Tinha tantas saudades dele, tantas. Mas eu sabia que estava a construir as condições para o poder trazer.” Ao fim de três anos a trabalhar no restaurante, Li Min conseguiu finalmente acertar todos os documentos e comprou imediatamente uma viagem para Shangai para visitar a descedência.

“Quando cheguei ele não me reconheceu, o Chong tinha agora seis anos e eu saíra quando ele tinha três. Foi muito duro, ele comportava-se um pouco como se eu o tivesse abandonado. Não podia perceber que eu fazia tudo isto por ele.” Voltou ao Luxemburgo, mais três anos a amealhar as condições de que precisava, e mais três anos em que as únicas conversas que trocava com Chong eram por cassete.

Em 1994, finalmente, conseguiu alugar um apartamento. Transferiu o dinheiro para a mãe, avó e neto embarcaram dias depois para o Grão-Ducado, onde construiríam o resto das suas vidas. “Os primeiros tempos foram duros, o Chong tinha nove anos e teve de se adaptar a um país novo e a uma mãe que não conhecia.” Mas as coisas foram correndo bem. Hoje, a mulher vive numa grande casa. Uma parte é ocupada por ela, outra parte por Chong, a mulher e os filhos. Desde que o rapaz chegou ao Luxemburgo, Li Min Zou e o filho nunca mais se separaram. 

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