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A lenta agonia do Grund

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A lenta agonia do Grund

A lenta agonia do Grund
Reportagem

A lenta agonia do Grund


por Ricardo J. RODRIGUES/ 10.02.2022

Fotos de António Pires

É o bairro mais pitoresco, e um dos mais animados, da capital. Com a crise de covid e as inundações de julho, no entanto, o Grund está irreconhecível. Muitos estabelecimentos continuam encerrados, alguns não voltarão a abrir, outros lutam para manter viva a esperança. Descida à Ville Basse para ouvir as histórias que existem atrás das portas fechadas.

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A sombra do que o Grund foi
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Esta semana houve ameaça de cheias. Ainda ninguém esqueceu o pesadelo de julho.
Esta semana houve ameaça de cheias. Ainda ninguém esqueceu o pesadelo de julho.
Fotos de António Pires

Na noite de domingo para segunda veio outra vez o medo. Os serviços meteorológicos anunciaram a possibilidade de cheias no Alzette e, ainda que a água não tenha subido como em julho do ano passado, toda a gente tinha na memória as cheias que deram cabo de tudo. “Vim logo a correr para ver o que se passava”, diz Diogo Leal, que gere o Scott’s, uma das esplanadas mais emblemáticas da capital. “Felizmente não tivemos mais do que um pouco de água na cave.”

Seis meses depois das piores inundações da história do Luxemburgo, o Scott’s continua de portas fechadas. É um dos maiores e mais famosos bares do Grund, leva as portas abertas desde 1985, e esta é a única vez desde então em que teve de fechá-las. “Esperamos abrir no início de março, se tudo correr bem vamos comemorar o dia de Saint Patrick’s como deve de ser”, diz Diogo. Ali à volta há uma série de lugares que começam a preparar o regresso, também. O bairro não parece o bairro, mas muita gente acredita que ele possa ressuscitar a partir da primavera. Talvez ainda não como era antes. Mas há uma coisa que toda a gente aqui parece concordar: o Grund não pode continuar assim.

É, afinal de contas, o cartão-postal do Luxemburgo e uma das zonas mais vivas da cidade. Destino diurno para turistas, sede de espaços artísticos e criativos, lugar de romaria noturna. “Primeiro veio a pandemia, os confinamentos e as restrições sucessivas, e isso foi o primeiro choque”, conta o homem do leme do Scott’s. “Tentámos adaptar-nos, manter o espírito em alta, se as pessoas não se podiam sentar nós trouxemos food-trucks e grandes chefs de cozinha para termos algo a oferecer.” As coisas foram resultando. “Mas depois, com as cheias, é que já não deu mais. Tivemos mesmo de fechar.”

Quando se entra hoje no Scott’s percebe-se que o bar se tornou um enorme estaleiro. Andam vários eletricistas a instalar cabos e há tantos espalhados pelo chão que à primeira vista o solo parece um covil cobras num filme do Indiana Jones. Na espalanada cabiam 90 pessoas, cá dentro 130 – distribuídas por dois pisos. “O problema é que a água veio a 14 de julho e, passados uns dias, houve férias coletivas para o setor da construção. Quando finalmente pudemos arrancar com as obras, em setembro, muita coisa tinha pura e simplesmente apodrecido”, conta Diogo Leal.

O facto do edifício estar numa zona histórica, e classificada património da Humanidade pela UNESCO, acabou por criar uma série de atrasos nos trabalhos. “Foi preciso renovar e elevar as instalações elétricas, foi preciso substituir madeiras trabalhadas com relevos para os quais era difícil arranjar especialistas, e sempre que resolvíamos um problema parecia que encontrávamos outro”, diz Leal. “E nos meses que levamos a tentar reerguer o espaço fomos vendo o bairro a perder vida, as pessoas a deixarem de vir, e isso é um cenário triste. Porque este é um espaço democrático, onde vem gente de todas as idades e de todos os estratos sociais. O Luxemburgo precisa do Grund de volta. Urgentemente.”

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Obituário da cidade perdida
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A porta do Liquid mostra bem o abandono do bairro.
A porta do Liquid mostra bem o abandono do bairro.
Fotos de António Pires

Ainda antes de chegar a pandemia, já as portas do Liquid tinham fechado. Era outro dos lugares emblemáticos do Grund. Às terças e quintas o bar enchia com concertos de jazz e blues – e o fim de semana era garantia de casa recheada e uns valentes minutos de espera para pedir bebidas ao balcão. Em 2020, a RTL publicou um artigo explicando que o concessionário do espaço tinha desaparecido levando a chave do estabelecimento, arrastando o caso para um imbróglio legal que a pandemia ajudou a atrasar. Não há resolução à vista para os próximos tempos.

“Sem o Liquid, sem o Scott’s e sem o Café des Artistes, o Grund não é o Grund”, diz Nona Cojan, gerente do UpDown. “Nós tivemos a sorte de escapar às cheias e podermos continuar de portas abertas, tal como o Oscar’s. Mas há três instituições da vida noturna, e são verdadeiramente instituições, que estão fechadas e isso é para nós uma tristeza inconsolável. Para toda a gente, aliás.” Nem sequer acha que vá beneficiar porque agora há menos oferta e o seu bar continua aberto. “O que torna este bairro interessante é a dinâmica, as pessoas que bebem um copo aqui e depois vão para ali. E isso agora não existe.”

Mesmo ao lado do UpDown, na Montée du Grund, o Café des Artistes continua encerrado. Abriu apenas uns dias depois do final do primeiro confinamento, mas passou os últimos meses fechados e o proprietário, François Quintus, disse ao Contacto que está à beira de tomar uma decisão drástica: fechar de vez. Era um dos mais carismáticos pubs da cidade, com fotografias e posters vintage a cobrir os tetos e as paredes, mais uma multidão de gente apertada a cantar à luz de velas canções tocadas por artistas residentes ao piano.

Nona Cojan suspira quando se lhe anuncia a perspetiva de encerramento definitivo do Café des Artistes. “Há no Grund um sentido de comunidade que muitas vezes me emocionou”, explica a gerente do UpDown. “Depois do primeiro confinamento, e quando não podíamos sentar as pessoas nas mesas, montámos um churrasco na esplanada e as pessoas aderiam massivamente. Foi bonito ver que muitas delas vinham aqui, comiam na rua e ao frio, porque queriam mostrar a sua solidariedade e mostrar que estavam connosco nos maus momentos.” É então por isso que sente a tragédia do vizinho como sua.

Passando a ponte e virando à esquerda na rue Munster não se pode deixar de notar a vitrina vazia do Am Gronn, mesmo em frente ao abandonado Liquid. Irina Moons conta como lhe custou anunciar no final do ano passado o fim do cowork criativo que tinha fundado em 2018 com dois amigos, Maida Halilovic e Marc Thien. “O nome significa, em luxemburguês, No Grund, porque era aqui que fazia sentido desenvolver este conceito”, explica. “Era um espaço artístico e alternativo. Agora acabou.”

O Am Gronn era na verdade um refúgio para freelancers que trabalhavam em diferentes áreas criativas, do cinema à fotografia, da pintura ao design. Tinha também um pequeno bar onde se serviam inúmeras variedades de café, cervejas artesanais e sanduíches feitas com produtos locais. “Podemos dizer que era um espaço de trabalho para todos e para cada um. Tínhamos pessoas de diferentes áreas que começaram a juntar-se e a desenvolver projetos coletivos. Aconteceram coisas extraordinárias dentro destas paredes”, diz a fundadora do espaço.

Irina Moons teve de fechar o Am Gronn.
Irina Moons teve de fechar o Am Gronn.

Lembra-se das exposições que enchiam a rua, dos workshops de serigrafia com provas de cerveja, de como trouxeram a transição crepuscular a um bairro que tinha uma vida de dia e outra de noite. “Quando chegou a covid, construímos divisórias de madeira para que todos pudessemos trabalhar em segurança. Mas, no verão passado, levámos um golpe terrível com as cheias. E já não conseguimos recuperar”, lamenta. As madeiras das divisórias foram-se, o chão levantou todo com a enxurrada, milhares de euros de material de trabalho perderam-se na madrugada de 14 de julho. “O Fonds du Logement, proprietário do espaço, prometeu ajudar na reconstrução. Afinal, somos um coletivo de utilidade pública. Mas os meses foram passando, nós deixámos de poder pagar as contas, e acabámos por desistir”, conta. E os olhos de Irina entristecem.

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Enquanto houver estrada para andar
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A reconstrução avança.
A reconstrução avança.
Fotos de António Pires

As queixas que se ouvem no Am Gronn têm eco no resto da rua. Hajime Miyamae, proprietário do restaurante Nakamura, também se queixa dos atrasos nos apoios – e em toda a burocracia que eles envolveram. “O Estado exigiu que se fizessem estimativas e era difícil encontrar pessoal especializado. Como estou aqui há muitos anos, tinha um fundo de maneio que me permitiu investir do meu bolso. E, mesmo assim, foram muitos meses parados”, conta. A casa só voltou a abrir no fim de dezembro.

O Nakamura nasceu em 1988 e foi o primeiro japonês do país. “Quando cheguei, este era um bairro maioritariamente português. O meu filho foi aliás o primeiro estrangeiro não português a frequentar a escola primária” lembra Miyamae. O homem viu o Grund germinar. “Sempre foi um espaço cheio de vida, mas com os anos tornou-se verdadeiramente um centro de animação para famílias, jovens ou gente mais velha. E foi assim até 14 de julho.”

Descreve essa noite como a pior da história do bairro, pelo menos desde que aqui vive. “Era o feriado nacional em França e isto estava cheio de franceses. Tive de pedir às pessoas para tirarem os carros, mas, quando saíram, já tinham água pelos joelhos. Depois víamos os carros a boiarem pela rua. Foi um assombro”, diz. Cinco meses depois conseguiu abrir portas. “Temos uma clientela frequente que voltou, e foi isso que nos deu força para continuar. É triste ver o Grund assim, mas havemos de recuperar.”

Mesmo ao lado, a brasserie Bosso decidiu fechar as portas: não por causa das cheias, antes pelas regras que o governo impôs à restauração em tempos de pandemia. “Estou esgotada. Tive aqui situações em que os pais podiam entrar mas os filhos não. Comprei separadores e equipei as salas para poder acolher toda a gente, fiz take-away para vender à porta”, diz Zeljana Gulic, a proprietária. “Mas com as últimas restrições estoirei. Não sou polícia, sou dona de um restaurante. Passei toda a vida a tentar que as pessoas viessem à minha casa e não posso tolerar mais que o governo me obrigue a barrá-las à porta.”

Depois do anúncio da última semana, em que o governo prometeu reduzir as medidas de restrições no setor Horeca, ponderou e decidiu reabrir. “Voltamos à carga a 11 de março, mesmo sabendo que o Grund vai demorar muitos meses a voltar à normalidade – se é que algum dia volta.” Também ela se queixa que a vibração do bairro é diferente, que a desmotivação tomou conta daquelas ruas. “Mas só há uma maneira de resolver isto”, diz Zeljana. “É arregaçar as mangas e trabalhar, trabalhar, trabalhar.”

Patrícia Santos, vai pela mesma cantiga, ainda que às vezes lhe faltem as forças. É dona da padaria Viaduc, uma casa que abriu em 2006 mas onde há mais de 100 anos se vende pão a quem passa. “Eu fiquei com isto em 2019, mesmo antes da pandemia. Foi um azar danado. Consegui ver tudo o que o Grund podia ser e agora só vejo o que ele já não é”, lamenta.

A especialidade da casa são as quiches, e Patrícia compôs 16 receitas diferentes para apresentar variedade aos clientes. “Agora só apresento cinco, não vale a pena ter mais. Antes vendia 50 por dia, agora se conseguir vender oito é uma sorte.” O expositor de bolos e salgados só tem por isso metade do espaço ocupado, no restante teve de por pacotes de sumo e leite, ovos, embalagens de charcutaria. “Pelo menos não deito fora. Não vendo hoje, vendo amanhã”, suspira.

O Grund há cem anos.
O Grund há cem anos.
Foto: Arquivo Viaduc

Costumava abrir aos sábados e domingos, agora já não lhe rende. “Os turistas que ainda vêm queixam-se que está tudo muito sujo e têm razão. E é esta sensação de abandono. Os principais bares estão fechados, as pessoas que trabalhavam aqui à volta estão em teletrabalho, mesmo as escolas estão cheias de restrições.” Perdeu material e stock nas cheias, como toda a gente à volta, mas é a covid que mais lhe atrapalha a vida. “Cada vez que há uma nova medida, ressentimo-nos.”

Patrícia reduziu a produção de comida porque os clientes não vêm, fecha alguns dias porque o turismo tarda, vê os lugares que sempre fizeram o bairro desaparecerem e fica infinitamente triste. Mas quando vem à porta da padaria, olha para o rio e diz. “Se há uma alma do Luxemburgo, tenho a certeza de que está aqui. Nós não vamos desistir do Grund. Não desistam de nós também.”

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