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A história de uma explosão
Luxemburgo 6 min. 15.09.2021
História

A história de uma explosão

Após a morte no ataque ao Rainbow Warrior, Fernando Pereira deixou dois filhos menores.
História

A história de uma explosão

Após a morte no ataque ao Rainbow Warrior, Fernando Pereira deixou dois filhos menores.
Foto: Greenpeace
Luxemburgo 6 min. 15.09.2021
História

A história de uma explosão

Luís Pedro Cabral
Luís Pedro Cabral
Mais tarde, chegaram à Nova Zelândia os dois mergulhadores com a missão de colocar os explosivos no Rainbow Warrior.

A viagem do Rainbow Warrior para a Nova Zelândia, ao contrário da operação “Satanique”, não era secreta. A DGSE lançou para o teatro de operações três equipas. A primeira, partiu da Nova Caledónia em direcção ao porto de Parengarenga, no norte da Nova Zelândia, a bordo de um iate, de nome Ouvea. Alain Mafart e Dominique Prieur navegavam sob o disfarce de um casal em lua-de-mel. Tinham ambos passaportes falsos, suiços, sob o nome de matrimónio Turengue. Nesse iate, transportavam explosivos e equipamento de mergulho. Noutro veleiro, viajaram outros três operacionais da DGSE e um médico especialista em “medicina de mergulho”. 

Mais tarde, chegaram à Nova Zelândia os dois mergulhadores com a missão de colocar os explosivos no Rainbow Warrior. Entraram no país como Alian Tonel e Jacques Camurnier. Eram, na realidade, Jean-Luc Kister e Jean Cammas, peças fundamentais da operação, comandada no terreno pelo tenente-coronel Louis Dillas, da DGSE, que tinha igualmente conseguido infiltrar uma agente entre os activistas da Greenpeace. A espia francesa (Christine Cabon) durante meses fez-se passar por amante da causa ambientalista, tendo viajado a bordo do Rainbow Warrior, em estilo “flower-power”, colhendo informações sobre a embarcação e sobre as acções da Greenpeace.

No dia 7 de Julho de 1985, o Rainbow Warrior não chegou discretamente à Nova Zelândia, nem essa era a intenção da Greenpeace, que queria convocar os olhares do mundo para os testes nucleares no Pacífico. Ao aproximar-se do porto de Waitemata, em Auckland, o navio do “arco-íris” foi recebido por dezenas de pequenas embarcações locais que se juntaram à causa, antes de tudo neozelandesa. Seriam a guarda-de-honra do Rainbow Warrior na viagem para o atol de Mururoa.

Querida, não te preocupes que o papá volta para casa.

Fernando Pereira

A Greenpeace não estaria sozinha nesta jornada, que exigia logística e planeamento. O Rainbow Warrior lançou âncora por uns dias. No dia 10, tudo parecia organizado. Em torno do navio da Greenpeace reinava um espírito de fraternidade ambientalista. Os activistas da Greenpeace já não eram propriamente debutantes em acções como esta, embora fosse de enorme envergadura. Era o aniversário de Steve Sawyer, que era o director mundial da Greenpeace e estava presente. A tripulação quis fazer-lhe uma festa-surpresa. O cozinheiro de bordo fez um bolo de aniversário. Com a tripulação e uma série de ambientalistas locais, juntaram-se a bordo do Rainbow Warrior perto de 50 pessoas. Fernando Pereira, fotógrafo oficial da Greenpeace e companheiro de muitas batalhas pelo Ambiente, estava presente.

A festa arrastou-se pela noite, embora comedida, pois tinham todos uma missão a cumprir na manhã seguinte. Enquanto as conversas fluiam e os copos se uniam em brindes, debaixo de água, dois mergulhadores dos serviços secretos franceses, cumpriam a sua. Usavam fatos de mergulho especiais, que não debitavam bolhas de ar para a superfície. Jean-Luc Kister colocou a primeira bomba debaixo da casas das máquinas, Jean Cammas colocou o segundo engenho explosivo junto à hélice e acertaram os “timmers” com três minutos de diferença. A primeira bomba, que tinha menor potência, detonaria às 23h50. A segunda, bastante mais potente, às 23h53. A primeira carga constituiria um alerta, para o caso de alguém se encontrar no Rainbow Warrior. A segunda, era para cumprir o objectivo: afundar o inimigo dos testes nucleares.

A festa terá acabado pelas 22h30, ficando no Rainbow Warrior os capitães das embarcações que no dia seguinte acompanhariam o navio até ao atol de Mururoa. Sairam cerca de uma hora depois. Só uma parte da tripulação lá ficou, incluindo o capitão Peter Willcox e Fernando Pereira. A primeira explosão, deitou o Rainbow Warrior numa cama de mar, com a sua pomba branca no casco e o arco-íris acima, a inclinar para o céu. Peter Willcox acordou com a explosão. Pensou que mais ninguém estaria no navio quando o abandonou, pouco antes de explodir a segunda bomba.

Lembro-me que chorei e chorei durante dias.

Marelle Pereira

Em vez de sair do Rainbow Warrior após a primeira bomba, Fernando Pereira desceu, para procurar uma mulher que ele julgava abaixo do convés e para retirar do navio a máquina e o material fotográfico. Terá perdido os sentidos no embate causado pela explosão da segunda bomba. No dia seguinte, seria encontrado por mergulhadores da marinha neozelandesa, com a face para baixo, os rolos fotográficos enrolados nas pernas e nos pés, mas com o seu corpo intacto. 

Nascido em Chaves em 1950, Fernando Pereira, que havia “fugido” da ditadura de Salazar emigrando para a Holanda, tornando-se cidadão holandês, trabalhando para o jornal De Waarheid (A Verdade), em Amesterdão, onde conheceu Joanne, a sua mulher, onde nasceram os seus filhos e onde ele se juntou às fileiras da Greenpeace, em 1982, tinha morrido afogado, afundando com o mais importante dos seus símbolos.

Marelle, que hoje é professora em Amesterdão, onde sempre viveu, era então aluna. Estava numa aula quando alguém bateu à porta para a chamar. Além de tudo, estranhou a extrema delicadeza com que a chamaram. “Lembro-me que chorei e chorei durante dias”, disse Marelle Pereira, no dia que se assinalaram 20 anos sobre o afundamento do Rainbow Warrior, no exacto local onde o seu pai tinha morrido. Marelle seguiu as pisadas do pai no activismo pela causa ambiental e noutra luta sem fim: levar os responsáveis pela sua morte à Justiça. 

Não há um dia que não pense nele.

Marelle Pereira, filha de Fernando Pereira.

Após o afundamento do Rainbow Warrior e a morte do pai, a polícia neozelendesa conseguiu capturar dois dos envolvidos: Alain Mafart e Dominique Prieur, ambos acusados de acto de terrorismo e de homicídio involuntário, ambos julgados e condenados a 10 de prisão, ambos libertados depois de cumprir uma pena de dois anos, fruto das pressões diplomáticas de França. Em solo francês, não cumpriram um minuto de prisão, o mesmo acontecendo com todos os envolvidos na operação “Satanique”.

Muitos desses envolvidos, com participação directa no atentado, já mostraram até o seu arrependimento, pedindo desculpas formais à Nova Zelândia, à Greenpeace e à família de Fernando Pereira. Dizem que eram jovens e militares. Que cumpriram ordens, que a intenção era somente afundar o navio, sem causar vítimas. Um misto de arrependimento com “je ne regrette rien”, 36 anos depois. 

A França também já pediu desculpas pelo “lamentável” acontecimento, indemnizou a família Pereira em 2,3 milhões de francos, a Nova Zelândia em 9 milhões de dólares e a Greenpeace em 8,1 milhões de dólares, que permitiu à organização adquirir um novo navio. Mas nada disso acalma a dor de uma filha que perdeu um pai. É uma dor que não acaba, talvez porque ela não é capaz de encontrar descanso, sabendo que os culpados da morte do seu pai andam por aí. “Não há um dia que não pense nele”. Não há um dia que não pense neles. Nos homens que julgaram poder afundar um arco-íris.

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No dia 10 de Julho de 1985, os serviços secretos franceses cometem um atentado para afundar o Rainbow Warrior, o mítico navio da Greenpeace, que cumpre agora 50 anos de vida. Neste, morreu Fernando Pereira, fotógrafo português. Marelle, a filha mais velha, não descansa enquanto não levar os responsáveis à Justiça. Uma luta sem fim.
Fernando Pereira, the Greenpeace photographer who died in the bombing of the Rainbow Warrior.