Escolha as suas informações

A história de Suzanne Marx, a modelo relutante: "A Gëlle Fra era a minha tia"
A mulher que serviu de modelo à Gëlle Fra nunca quis que se soubesse que posou para o escultor Claus Cito

A história de Suzanne Marx, a modelo relutante: "A Gëlle Fra era a minha tia"

Foto: Guy Wolff
A mulher que serviu de modelo à Gëlle Fra nunca quis que se soubesse que posou para o escultor Claus Cito
Luxemburgo 5 min. 22.07.2015

A história de Suzanne Marx, a modelo relutante: "A Gëlle Fra era a minha tia"

Era um dos grandes mistérios do Luxemburgo: saber quem posou para a estátua da Gëlle Fra ("Mulher Dourada"), que se converteu num símbolo de resistência do Grão-Ducado. Agora, o historiador luxemburguês Jean Wildschütz revela que foi a sua tia, falecida há 30 anos, quem serviu de modelo ao escultor Claus Cito.

Era um dos grandes mistérios do Luxemburgo: saber quem posou para a estátua da Gëlle Fra ("Mulher Dourada"), que se converteu num símbolo de resistência do Grão-Ducado. Agora, o historiador luxemburguês Jean Wildschütz revela que foi a sua tia, falecida há 30 anos, quem serviu de modelo ao escultor Claus Cito.

Nascida em 1897, Suzanne Marx-Wildschütz viveu em Bascharage, a localidade onde o escultor luxemburguês tinha o seu atelier. A mulher que viria a servir de modelo para o famoso obelisco casou em 1918 com Joseph Marx, que tinha uma padaria na localidade, em frente ao atelier do escultor. Os dois homens eram amigos desde pequenos. 

Dois anos após o casamento, em 1920, o escultor perguntou ao amigo se Suzanne aceitaria posar para a estátua, um monumento aos soldados mortos na Primeira Guerra Mundial. O casal aceitou. A figura, cujo rosto é idêntico ao de Suzanne, representa Nike, a deusa grega da vitória, a erguer uma coroa de louros, em homenagem aos soldados que participaram no conflito. 

A estátua da Gëlle Fra e a modelo, Suzanne Marx
A estátua da Gëlle Fra e a modelo, Suzanne Marx

Mas ao contrário das mulheres famosas que deram a cara para representar Marianne, o busto que simboliza a República Francesa, como Brigitte Bardot ou Laetitia Casta, Suzanne nunca quis que se soubesse que serviu de modelo para a Gëlle Fra, exigindo mesmo segredo aos familiares.

Mais de trinta anos após a sua morte, em 1984, o sobrinho e historiador Jean Wildschütz revelou finalmente ao jornal Luxemburger Wort a identidade desta "Marianne luxemburguesa". Num artigo publicado hoje no jornal luxemburguês, o historiador revela que a tia lhe contou o segredo em 1978, quando ficou gravemente doente, pedindo-lhe que não o divulgasse enquanto fosse viva. Jean diz que a tia foi uma mulher "muito trabalhadora", que até ao fim continuou a preparar os bolos vendidos na padaria fundada pelo marido.

Suzanne Marx-Wildschütz
Suzanne Marx-Wildschütz

Segundo o Wort, o historiador quis revelar a história em 2010, altura em que a autarquia de Bascharage organizou uma exposição sobre o escultor Claus Cito para marcar o regresso da Gëlle Fra da Exposição Universal de Xangai, onde foi exibida durante dez meses. Nessa altura, o sobrinho de Suzanne quis revelar o segredo aos responsáveis da autarquia, mas uma das filhas de Suzanne opôs-se. A carta que o historiador escreveu então ao burgomestre de Bascharage, Michel Wolter, não chegaria a ser enviada. 

Agora, o sobrinho resolveu contar a história, mas não esclarece por que razão a tia manteve o segredo. É provável que Suzanne tivesse tido receio de ser associada à estátua, que provocou uma enorme polémica quando foi inaugurada, em 1923.

Representando uma deusa vestida com uma túnica transparente, a escultura foi muito criticada pelos católicos no país, e a própria Grã-Duquesa Charlotte esteve ausente da cerimónia da inauguração, tal como o arcebispo da altura.

Nos jornais da época, os círculos conservadores criticaram "a abominação ética […] desta figura de nudez inqualificável […] que, mesmo moldada em bronze, continua a ser uma atrocidade artística". Conta a lenda que até os alunos do liceu Athénée, na altura situado perto da catedral, receberam instruções para não passarem perto da estátua.

A identidade da modelo não é porém pacífica. O historiador luxemburguês Jean Reitz, autor de uma biografia sobre o escultor Claus Cito, disse hoje ao Wort que não acredita que Suzanne Marx tenha sido a modelo da Gëlle Fra. Segundo o historiador, o escultor terá feito uma estátua em Bruxelas com um rosto semelhante ao da Gëlle Fra em 1914, e defende a tese de que Claus Cito teria utilizado um modelo belga para ambas.

A história atribulada da "Mulher dourada"

A história da estátua a que Suzanne emprestou os traços foi atribulada, e está profundamente ligada à história do país e às suas contradições. O monumento, construído para recordar os mortos da Grande Guerra de 1914-18, acabaria por ser vítima do ocupante alemão na Segunda Guerra Mundial.

Em Outubro de 1940, a estátua, que celebrava a vitória contra os alemães na primeira guerra mundial, foi derrubada e desmantelada pelo ocupante nazi. Alguns dos seus elementos seriam recuperados mais tarde e exibidos em 1955, durante uma exposição sobre a resistência, mas desentendimentos entre os resistentes na II Guerra Mundial e os veteranos da guerra de 1914-18 impediram o restauro da estátua. Os restos da Gëlle Fra voltariam então a desaparecer durante três décadas, até serem finalmente reencontrados em 1981, escondidos no estádio nacional de futebol.

A estátua só viria a ser instalada novamente na capital luxemburguesa em 1985, convertendo-se desde então num símbolo de resistência ao ocupante nazi. Suzanne, a modelo que inspirou o escultor Claus Cito, tinha morrido no ano anterior, sem ver a escultura regressar ao pedestal.

O restauro e reinstalação da estátua nos anos 1980 dá-se numa altura em que o Luxemburgo começou a viver um período nacionalista, centrado nos mitos fundadores da identidade do país. Um ano depois, em 1986, o idioma luxemburguês viria a ser reconhecido como língua oficial do país. Hoje, a Gëlle Fra é pacificamente considerada o símbolo nacional do Grão-Ducado, representando a resistência do povo luxemburguês, mas poucos sabem que a imagem dividiu o país durante mais de 60 anos.

Em 2001, uma réplica da "Mulher Dourada" feita pela artista croata Sanja Iveković provocou nova polémica no país. A estátua, baptizada "Lady Rosa of Luxembourg", representava a Gëlle Fra grávida, chamando a atenção para a condição feminina na sociedade.

O obelisco viajou para a China em 2010, para a Exposição Universal de Xangai, onde foi exibido durante dez meses à entrada do pavilhão do Grão-Ducado.

Foto: Arquivos Wort



Notícias relacionadas

Gëlle Fra, a "mulher dourada" faz 95 anos
A estátua da “Gëlle Fra” (mulher dourada), no coração da cidade de Luxemburgo, celebra este domingo, dia 27 de maio de 2018, 95 anos. O Monumento da Memória foi inaugurado em 27 de maio de 1923, na Place de la Constitution.