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A história da empregada de limpeza que costura o seu sonho

A história da empregada de limpeza que costura o seu sonho

A história da empregada de limpeza que costura o seu sonho

A história da empregada de limpeza que costura o seu sonho


por Sibila LIND/ 25.02.2020

Foto: Sibila Lind

Anne-Pélagie Bakilan nasceu em Dakar, no Senegal. Desde pequena que grande parte da sua vida foi passada a fazer limpezas, primeiro na sua casa, mais tarde na casa dos outros. O gosto pela costura ganhou em adolescente, mas foi no Luxemburgo que pôs mãos à obra. Em 2019, fez várias peças de roupa e acessórios e abriu a sua própria empresa. Agora, com 35 anos, continua a “costurar” o sonho, num país que fez a sua casa.

“És a mais bela do mundo”, dizia-lhe o pai. Era um homem rigoroso, como a maioria dos militares, mas derretia de amor pela única filha da família. E, para Anne, o pai era tudo. Mas, esse amor não a protegeu de ter uma infância difícil. Tinha três anos quando os pais se separaram. A mãe ficou com o filho mais novo, e o pai com Anne e o filho mais velho. Depois da separação, Anne só voltou a ver a mãe – que se mudou para a Guiné-Bissau – sete anos depois. Acabou por crescer com a madrasta, e aprender a lidar com o sentimento de abandono.

Por ser mulher, era responsável pelas tarefas domésticas. Não tinha tempo para brincar. Quando o pai se separou da madrasta, foram viver para Casamansa, no sul do Senegal – Anne, o pai, o irmão e o meio-irmão instalaram-se na casa de família onde viviam os tios com os dois filhos. E a sua vida complicou-se. Com 15 anos, acordava cedo para fazer as limpezas da casa e ir buscar água ao poço. Depois, sem comer, percorria vários quilómetros para ir para a escola. Anne não se lembra da distância ao certo, mas era tão longe como de Pétange a Esch-sur-Alzette, cerca de 13 km. Quando tinha dinheiro, apanhava o autocarro, mas era raro. O percurso de regresso era o pior. Saía no pico do calor, com quarenta graus, ainda sem comida no estômago. Chegou a desmaiar duas vezes, já em casa.

Foto: Sibila Lind

 Acabou por desistir de estudar e foi para uma escola para mulheres onde aprendeu a fazer roupa e acessórios à mão. Foi aí que descobriu o seu talento e começou a “costurar” o seu percurso. “Uma mulher tem sempre de fazer qualquer coisa. Não pode cruzar os braços”, dizia-lhe uma amiga da mãe, quando ia passar férias à Guiné-Bissau. Com 20 anos, Anne terminou o curso e a escola ofereceu-lhe uma máquina de costura. O pai, todo orgulhoso, fez questão de a mostrar a todas as pessoas que recebia em casa.

As mulheres negras apenas servem para fazer limpezas e para ficar na sombra, nunca à frente.

Durante dois anos, Anne ensinou costura a mulheres para que pudessem ter o seu próprio meio de sustento. Mas, o casamento obrigou-a a dar descanso à máquina. Foi para Portugal ter com o marido que trabalhava nas obras. Passado poucos meses, tiveram a primeira filha. Nos primeiros tempos, era uma vizinha com 60 anos que lhe fazia companhia, a Anne e à bebé. Chegou até a oferecer-lhe uma máquina de costura, mas à qual Anne não teve tempo de dar muito uso. Fazia apenas pequenos remendos para si e para a vizinha. Quando a filha fez dois anos, Anne voltou ao ponto de partida: começou a fazer limpezas para o ex-marido da sua vizinha, na mesma altura em que o seu marido decide procurar trabalho no Luxemburgo.

Um ano depois, em julho de 2010, Anne apanha um autocarro com a filha e demora um dia e meio até chegar aqui. Queria recomeçar a costura, mas o marido desencorajou-a. A prioridade era tomar conta da filha e ganhar dinheiro. Anne enviou vários currículos, mas só conseguiu emprego em trabalhos precários não qualificados. Foram precisos dois anos para conseguir um contrato sem termo, a fazer limpezas num hotel. Desde então, pediu várias vezes para mudar de posto de trabalho, para a receção ou para o restaurante, mas nunca conseguiu. Fala bem francês e começou a aprender luxemburguês, mas acredita que a cor da sua pele levanta muitas barreiras neste país. As mulheres negras apenas servem para fazer limpezas, diz, e para ficar na sombra, nunca à frente. 

Foto: Sibila Lind

Em 2013, Anne separou-se. Começou mais tarde uma vida nova com um belgo-luxemburguês, com quem teve dois filhos. E, voltou a costurar. No final de 2018, para a festa de passagem de ano, fez uma saia que chamou a atenção de todos. “Foste tu que fizeste?” “Sabes fazer isto?” “Podias tentar vender, há muitas pessoas que fazem isso”.

E assim 2019 começou em força. Anne criou a sua empresa – “Bakilan”-, comprou tecidos e fez várias peças de roupa para apresentar no Festival das Migrações, no stand de uma amiga italiana. Pela primeira vez, viu as suas próprias criações serem vendidas. E foi dessa forma que recuperou o sonho que estava em pausa há mais de dez anos. O pai morreu antes de ver a filha começar o seu projeto. Mas, as palavras da mãe serviram de conforto: “É isso que tens de fazer. Tu costuras muito bem. E o teu pai ia ficar orgulhoso”. Entre tecidos e linhas, entre o entusiasmo e o cansaço, está um novo começo, e o amor entre um pai e uma filha, que se orgulhou de a ver crescer, mesmo que de longe.

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