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A guerra da Bósnia foi um pesadelo no Grão-Ducado

A guerra da Bósnia foi um pesadelo no Grão-Ducado

A guerra da Bósnia foi um pesadelo no Grão-Ducado

A guerra da Bósnia foi um pesadelo no Grão-Ducado


por Ricardo J. RODRIGUES/ 27.02.2020

Foto: Sibila Lind

Quando veio viver para o Luxemburgo, ainda havia Jugoslávia. Aqui Zijad podia finalmente cumprir o sonho de jogar futebol. Meses depois, a guerra rebentou no seu país e ele perdeu o rasto da mãe. Passou anos a pensar que devia voltar à Bósnia. Até que um dia foi lá.

A alegria maior de Zijad Mehanovic era a bola. Quando não estava a jogar com os amigos, estava a pensar nela. De tal forma que os professores ralhavam-lhe constantemente. “É que a janela da minha sala de aulas na escola de Zavidovici, na Bósnia, tinha vista para o campo do Krivaja, um clube da II Divisão jugoslava. E eu passava o tempo todo a olhar para os treinos dos jogadores, se alguém marcasse golo, mesmo que fosse a feijões, eu celebrava. A minha mãe protestava, mas eu só pensava em futebol.”

Tem 48 anos, hoje é treinador de guarda-redes do Grevenmacher, além de assistente de direção da Zimmer Partners, uma empresa de gestão de fortunas. O pai partira para o Luxemburgo quando era miúdo, fez-se pedreiro na capital e só voltava nas férias – era a mãe que tomava conta da descendência. Ele era mais condescendente, ela mais autoritária. Aos 10 anos Zijad conseguiu convencê-los a inscreverem-no nas escolinhas do clube da terra e aí o rapaz revelou-se um guarda-redes de mão cheia.

Eu estava feliz por jogar outra vez à bola, o Luxemburgo dava-me a liberdade que a minha mãe não me tinha dado.

“Quando tinha 14 anos foi recrutado para testes na seleção jugoslava de sub-14. Fui um dos escolhidos e fiquei radiante, mas o problema é que tinha passado vários dias à chuva e apanhei uma pneumonia muito grave”, conta Mehanovic. Depois disso a mãe proibiu-lhe definitivamente o futebol. “Até o diretor do clube foi lá a casa tentar demovê-la, mas nada. Foi um desgosto terrível.”

Aos 17 mudou-se para o Grão-Ducado. “Nessa altura era permitido o reagrupamento familiar, desde que acontecesse antes da maioridade. Então cheguei em 1989, um mês antes do muro de Berlim cair.” A mãe e os irmãos ficavam nos Balcãs, ele foi viver com o pai, que lhe arranjou trabalho como técnico de ar condicionado. “Quando cheguei fiquei muito impressionado. Eu não tinha a mínima consciência política, mas a verdade é que tinha nascido num país comunista. Lembro-me de ver pela primeira vez um toxicodependente e achar que esta terra era perigosa. Só queria voltar para casa.”

Foto: Sibila Lind

Foi o desporto que o reconciliou com o Grão-Ducado. Nos primeiros dias conheceu outros rapazes bósnios que o convidaram para uma partida de basquetebol – e revelou-se um atleta talentoso. “Um dia, um miúdo que costumava jogar à baliza no Hamm Benfica adoeceu e perguntou-me se podia substituí-lo. Acabei por ficar dois meses seguidos a titular.” E nunca mais largaria o posto. Esteve no Real Desportivo do Norte e no Racing. Em 2007 lesionou-se e voltou ao Hamm Benfica, como terceiro guarda-redes e treinador da posição. Fez cursos da especialidade e há cinco anos, com a camisola do Mullenbach, fez as suas últimas dez partidas, tomando o lugar do titular que se havia lesionado.

Desde há três que integra a equipa técnica do Grevenmacher. Em 1992, no entanto, passaria a pior provação da sua vida. “Eu estava feliz por jogar outra vez à bola, o Luxemburgo dava-me a liberdade que a minha mãe não me tinha dado. Mas de repente rebenta a guerra da Bósnia e eu passo dois anos sem saber dela.” Recorda-se de passar noites inteiras a correr o quarteirão entre a Gare e a Place de Paris com as lágrimas a escorrerem-lhe da cara. De vez em quando chegavam notícias dos primos mortos, mas da mãe nada.

Em 1994 conseguiu falar por rádio-amador com um vizinho, e depois tinha pela primeira vez a mãe ao microfone. Ele e o pai puderam então acertar uma tática para trazer o resto da família para o Grão-Ducado – e Zijad ainda hoje tem dúvidas se o dia mais feliz da sua vida foi aquele em que se casou, em que nasceram os filhos ou em que abraçou a mãe e os irmãos na Gare do Luxemburgo.

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