Escolha as suas informações

A greve das mulheres no Luxemburgo foi apenas um começo
Luxemburgo 4 min. 11.03.2020 Do nosso arquivo online

A greve das mulheres no Luxemburgo foi apenas um começo

A greve das mulheres no Luxemburgo foi apenas um começo

Luxemburgo 4 min. 11.03.2020 Do nosso arquivo online

A greve das mulheres no Luxemburgo foi apenas um começo

Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Nuno RAMOS DE ALMEIDA
As organizadoras da greve simbólica das mulheres de 7 de março vão continuar a atuar juntas. Decidiram que a próxima luta será por um contrato justo para as trabalhadoras das limpezas

 Cerca de 50 empresas tiveram paralisações simbólicas durante a greve das mulheres. No sábado passado, mais de duas mil pessoas desfilaram pelo centro da cidade do Luxemburgo. Dada a grande participação de ativistas lusófonos numa ação importante dos movimentos sociais luxemburgueses, os discursos e as várias intervenções no início do desfile de junto ao parlamento também tiveram uma versão em português. Tanto a forma como se ia processar a manifestação, como a leitura das principais reivindicações frente ao Parlamento foram feitas em luxemburguês, francês, português e inglês.

O desfile foi dividido por vários blocos, encabeçado pelas trabalhadoras do setor das limpezas em luta, seguidos pelos coletivos de mulheres racializadas, o bloco LGBTI, os sindicatos, os homens solidários, entre outros. Na concentração foi também visível a presença de vários dirigentes políticos, como o ministro da Economia socialista, Franz Fayot, o deputado e antigo porta-voz do déi Lénk, David Wagner e o secretário-geral do comunistas luxemburgueses, Ali Ruckert.

O desfile decorreu de uma forma animada, com cartazes das mais diversas formas e feitios, pontuados com bastante sentido de humor. “Não acredito que ainda tenha que continuar a lutar por esta merda”, podia ler-se num cartaz de uma uma manifestante que ironizava com o facto de em pleno século XXI as mulheres ainda terem que exigir que as tratem com igualdade. “Não sou exótica, não sou uma fruta tropical”, protestava, com um cartaz, uma jovem negra, aludindo aos papeis estereótipados que são atribuídos a muitas mulheres imigrantes no Luxemburgo. Já uma jovem latina tinha um cartaz que denunciava a direção de um dos estabelecimentos escolares da capital, por terem alegadamente protegido um protagonista num caso de violação.

Junto da estátua da “Gëlle Fra” (mulher dourada), as empregadas de limpeza fazem uma ação cantando e coreografando “She Works Hard For The Money” de Donna Summer: “Ela trabalha duro pelo dinheiro, é melhor você tratá-la bem”. Aproveitando o fim da ação, um grupo de mulheres curdas exibe uma bandeira com a cara do líder curdo preso na Turquia, Abdullah Öcalan.

No final da manifestação, Line Wies, do déi Lenk e da Plataforma da Jornada Internacional das Mulheres, disse ao Contacto que este ano o dia internacional da mulher “foi assinalado de uma forma diferente. Trata-se de uma greve, embora simbólica, porque o direito à greve é bastante limitado no Luxemburgo”, considera Line Wies. Para esta ativista os maiores problemas existentes para as mulheres que vivem no Luxemburgo são, em muitos casos, compartilhados com homens, como é o caso da precariedade laboral e os elevadíssimos preços da habitação. E o salário mínimo que está muito próximo do limiar da pobreza. Mas mesmo nestes casos o risco para as mulheres é maior. “Temos as famílias monoparentais em que o risco de pobreza é muito maior que em relação ao resto da população”. A isso junta-se o facto das mulheres terem uma dupla jornada de trabalho e “calcula-se que sejam precisos 210 anos para que as mulheres tenham, no mundo, o mesmo nível salarial que os homens”.

Por sua vez, a sindicalista Jessica Lopes, da OGBL, que leu as reinvindicações em português junto do Parlamento, considera que “pela primeira vez tiveram representados grupos de mulheres que normalmente não são visíveis, mesmo no ativismo. Participaram dois grupos de mulheres afrodescendentes”, essa é uma das grandes diferenças em relação a anteriores mobilizações das mulheres no Luxemburgo. Para além disso, cada bloco elaborou as suas reivindicações específicas, para além das comuns. “Na reunião de amanhã (domingo, dia 8 de março) vai ver-se o que se segue do ponto de vista das ações para serem concretizadas estas reivindicações”, explica Jessica.

No dia seguinte, na Abadia de Neumunster onde se realizou a reunião de balanço, Sandrine Gashonga, uma das ativistas de origem africana, sublinha a importância e as diferenças desta movimentação das mulheres: “esta luta serve para tornar visível muitos dos trabalhos que são socialmente invísiveis, falo dos trabalhos que as mulheres fazem sem nenhuma remuneração, como os trabalhos de limpeza que são socialmente pouco valorizados e que necessitam de um reconhecimento social. É preciso reconhecer esse trabalho não remunerado das mulheres, e também exigir que aquelas que são pagas nos serviços de limpeza, tenham o seu trabalho justamente remunerado”.

Nesse sentido, a reunião de balanço concordou continuar a atividade conjunta dos grupos de ativistas, criar grupos de trabalho para concretizar um conjunto de reivindicações anunciadas e dar prioridade proximamente à negociação da convenção coletiva dos trabalhadores das limpezas. 


Notícias relacionadas