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A Gare é o bairro que queremos amar

A Gare é o bairro que queremos amar
Reportagem

A Gare é o bairro que queremos amar


por Ricardo J. RODRIGUES/ 28.01.2022

Fotos: António Pires

Dificilmente haverá no Grão-Ducado bairro mais mal-amado do que a Gare. É espaço de prostituição, tráfico e delinquência, mas também é o lugar onde o Luxemburgo fervilha e se abre ao mundo. Quando toda a gente fala do maior quartier da capital a preto e branco, aqui fica a história de todas as suas cores. Mergulho num território em gentrificação.

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Somos todos da Gare
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Paca Rimbau Hernández na rue Joseph Junck.
Paca Rimbau Hernández na rue Joseph Junck.
Foto: António Pires

 

Paca Rimbau Hernández chegou à Gare do Luxemburgo no dia 2 de novembro de 1985. Veio no comboio de Paris, o que significa que chegou às 14h45. “Eu tinha arranjado trabalho por um mês no departamento de publicações da Comissão Europeia”, explica a tradutora espanhola, também animadora na rádio ARA. “E a verdade é que não sabia grande coisa sobre o Grão-Ducado, apenas tinha a ideia de que era um lugar abastado e ultrachique.” Sem reserva de hotel, dirigiu-se ao posto de turismo e pediu que lhe arranjassem um quarto barato. Indicaram-lhe a pensão Zurique, na rue Joseph Junck.

Quando se pôs a caminho, já a noite se tinha instalado. Virou a esquina em direção ao hotel e não pôde deixar de reparar nas luzes néon dos cabarets. “Quando entrei no Zurique, não havia receção. Havia era uma janela para o interior da discoteca Barbarella e davam-te a chave a partir dali. Espreitei e percebi que era um bar de alterne - e aquela era uma pensão de quartos à hora. Respirei fundo e subi as escadas. O que não nos mata torna-nos mais fortes”, diz. Acabou por ficar duas noites, depois arranjou poiso mais digno – um par de ruas adiante.

Paca recorda a sua chegada com gargalhadas e recusa a ideia de que foi uma má experiência. “Percebi que a minha ideia sobre o Luxemburgo era condicionada. E, quando saí do hotel, compreendi que tinha vindo parar a um bairro democrático, aberto a todos, onde cabem vários estratos sociais e volumes de riqueza”, explica agora, atravessando a Joseph Junck. 

Apaixonou-se de tal forma por estas ruas, aliás, que foi ficando. Nos 36 anos que leva a viver no Grão-Ducado, foi sempre aqui que morou. “Sou uma Garer, tenho um orgulho tremendo em ser uma Garer. Não me imagino a viver em nenhum outro lugar”, afirma. 

Tráfico de droga, delinquência e prostituição são as temáticas que mais enchem os jornais quando as notícias são sobre a Gare do Luxemburgo. E, se ninguém nega os problemas do bairro, também há outra história para contar sobre ele. “É aqui que o Luxemburgo se torna verdadeiramente uma cidade”, diz Robert Philippart, presidente da Sociedade Luxemburguesa de História Urbana e coordenador na capital da zona classificada Património da Humanidade pela UNESCO. “Todos os sinais nos indicam que este é um lugar único.”

Mesmo que represente apenas dois por cento do território da capital, o bairro da Gare congrega nove por cento da população da cidade. É de longe a zona mais densamente habitada do Luxemburgo – 11.713 habitantes num quilómetro quadrado, quando a média do município é de 2.484.

O presidente da Sociedade Luxemburguesa de História Urbana, Robert Philippart.
O presidente da Sociedade Luxemburguesa de História Urbana, Robert Philippart.
Foto: António Pires

Segundo o Relatório de Estatística da Cidade do Luxemburgo, é também o mais internacional dos 24 quartiers: no final de 2021, 83,98 por cento dos residentes eram estrangeiros e contavam-se aqui 97 nacionalidades – franceses, portugueses e luxemburgueses no topo, mas também polacos e sírios, brasileiros e islandeses, mongóis e djibutianos. Se há um lugar no Grão-Ducado para o mundo se encontrar, então é seguramente aqui.

Segundo Philippart, isso é tudo menos um acaso. “A Gare é um conceito importante”, diz. “Sais do teu país e vens para um lugar novo e a estação de comboios é simultaneamente o teu ponto de chegada e a tua última derradeira ligação às origens. É o lugar de ligação entre o passado que ficou para trás e o futuro de uma vida para construir.” 

Enquanto o historiador fala, um grupo de homens reúne-se em círculo a conversar. São cabo-verdianos, chegaram aqui há anos, mas é na mesma estação em que desembarcaram para uma nova vida que continuam a encontrar-se. Mesmo que não vivam no bairro, são Garers. Bem vistas as coisas, metade do país é Garer.

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Gentrificação em curso
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Hans Fellner, historiador de arte, organiza passeios sensoriais pelo bairro da Gare.
Hans Fellner, historiador de arte, organiza passeios sensoriais pelo bairro da Gare.
Foto: António Pires

Cinquenta metros bastam para perceber a mudança que está hoje a varrer o bairro da Gare. Basta olhar para dois cafés cheios de gente - um na rua Adolphe Fischer, outro na Place de Strasbourg. O primeiro leva as portas abertas desde os anos oitenta e é a sede do FC Porto no Luxemburgo. Quem ali passe à tarde encontra-a cheio de gente, sobretudo reformados portugueses que vêm beber umas minis e desafiar os companheiros para uma jogatana de cartas. O segundo tem cinco anos de história, não serve álcool mas serve bolos vegan. Todos os dias, até às cinco da tarde, enche-se de nómadas digitais do mundo inteiro. Chama-se Bloom.

Em comum, os dois espaços partilham a nacionalidade dos proprietários – portuguesa. Mas há um mundo de diferenças a separá-los. Ao balcão da Casa do Porto, estão Tiago Pinto e Ramiro Hilário. O primeiro tem 45 anos, chegou ao Luxemburgo há 20. O segundo tem 67, veio há quase meio século. Num café cheio de sotaque lusitano, os dois homens põem-se a comentar o desaparecimento da comunidade que veio do sul.

“As casas estão tão caras que toda a gente se mudou. A maioria destas pessoas que aqui estão teve de ir viver para França ou para a Bélgica. Este bairro era tradicionalmente português e italiano, mas agora está a tornar-se um lugar para os europeus endinheirados”, diz Pinto.

Hilário lembra os anos setenta. “Quando vim para aqui, toda a gente desaguava na Gare. Eu era capataz de uma carpintaria e, quando vinha o comboio de Paris, costumava ir para a estação apanhar os rapazes que chegavam com uma mão à frente e outra atrás”, conta. Saía a multidão das carruagens mas ele reconhecia os aflitos nos que ficavam no cais a olhar em redor, sem saber muito bem para onde ir. 

“Perguntava-lhes se queriam trabalho e devo ter arranjado posto para mais de cem moços. Levava-os a comer qualquer coisa nos cafés portugueses que havia no bairro, arranjava-lhes um quarto e no dia seguinte já pegavam ao serviço.” O mesmo acontecia com os italianos. As grandes vagas de imigração encontraram neste quartier um sentido de comunidade.

Tiago Pinto lamenta tudo o que está perdido. Põe-se a contar pelos dedos os lugares de encontro que serviram de pontos de acolhimento – e que fecharam nos últimos anos. Foram-se as Águias da Boavista e a Casa de Portugal, a Lusitana e a Associação Luso-Luxemburguesa, o restaurante A Tasquinha e o Café Desastre. “Acredito que, com o aumento de rendas, tudo acabará por fechar. E, pelo menos na capital, vai deixar de haver uma zona de referência para os portugueses. É uma pena.”

Novos lugares tomam o espaço dos antigos e isso é particularmente visível na Place de Strasbourg. Na rua com o mesmo nome há supermercados asiáticos e árabes, restaurantes vietnamitas e chineses e italianos e nepaleses e marroquinos e japoneses. Mas as lojas na praça mostram bem a modernidade que invade o bairro. 

Há uma padaria fina e uma florista com grandes arranjos de bonsai. Há uma loja de design e um café vegan. Podíamos estar na parte mais hipster de Brooklyn, em Nova Iorque. O proprietário do café Bloom, Vítor Pereira, é o primeiro a admitir que o seu espaço só faz sentido por causa de “uma nova vaga de habitantes que veio ocupar a Gare nos últimos anos”. Profissionais liberais, famílias jovens, estrangeiros em posições de topo.

Há cinco anos, Hans Fellner, historiador de arte, começou a organizar uma série de passeios sensoriais pelo quartier, convidando as pessoas a sentirem toda a diversidade que cabia naquelas ruas. “Diga-se o que se disser das questões de segurança, este lugar é atrativo para quem procura um sítio com vida. O centro esvaziou-se de gente, hoje não há mais de mil habitantes na Ville Haute. Mas aqui há a sensação de que se vive verdadeiramente numa cidade. O bairro da Gare é a afirmação cosmopolita do Luxemburgo. E é por isso que está em processo de gentrificação.” 

A edição de 6 de outubro de 1859 do Luxemburger Wort. Ainda sem publicar fotografias, o jornal destaca a inauguração da Gare.
A edição de 6 de outubro de 1859 do Luxemburger Wort. Ainda sem publicar fotografias, o jornal destaca a inauguração da Gare.

Fellner serve agora de guia num passeio pelas ruas. Vai parando para observar as montras e às vezes escapa-lhe uma gargalhada. “Nesta parte da cidade, a estética comercial é completamente diferente. As vitrines têm os produtos amontoados, sem grandes preocupações em fazer uma boa montra, sem nenhuma lógica de apresentação.” 

Ao mesmo tempo, acredita que esse comércio diverso e despreocupado funciona. “Se reparamos bem, a maioria das pessoas desce a avenida da Liberdade pelo lado direito da estrada. E porquê? Porque é aí que estão as lojas confusas e desordenadas. Do outro lado há essencialmente fachadas de bancos, grandes cadeias, montras que ocupam quase um quarteirão. E essas não têm o mesmo magnetismo”, diz Fellner.

Esse efeito de íman que existe no bairro encontra, segundo as suas palavras, o expoente máximo na estação. É como se toda a cidade se dirigisse para aqui. Há movimento constante, barulho ininterrupto, vida 24 horas por dia. “Sabemos que pelo menos cinco por cento da população não é funcional, não cumpre as normas sociais. E, em todas as cidades, é sempre para as estações de comboio que essa população se dirige. Porque são territórios em constante mudança. O Luxemburgo não é diferente.”

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Bairro de má fama
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Na edição de 27 de dezembro de 1860 do Luxemburger Wort, ou seja, apenas dois anos depois da inauguração da estação, já um artigo criticava a insegurança da Gare. “Seria injusto pensar que os problemas começaram na última década”, diz Robert Philippart, o historiador. Mas a verdade é que eles são hoje mais visíveis. 

 O último relatório sobre delinquência elaborado pela Polícia Grão-Ducal refere-se a 2020 e mostra apenas uma ligeira subida do número de crimes quando comparado com os anos anteriores. Mas quando o assunto é tráfico de estupefacientes, o crescimento é notório. Nesse ano, foram registados 4619 delitos, mais 400 que em 2019. A Gare contribuiu bastante para a estatística.

Fábio é traficante, cumpriu sete anos na prisão por andar a vender heroína. Tentou limpar o corpo mas voltou à vida, dorme na rua, admite que “vende cavalo” e rouba de esticão para poder consumir. “A minha vida anda toda à volta da Gare, nunca me afasto muito daqui”, conta. Explica as regras do crime no bairro. “De dia anda tudo a cravar trocos e é verdade que uma pessoa que passe aqui à noite possa ser assaltada ou ficar sem o telemóvel. Mas não vai ser esfaqueada nem levar um tiro. Se houver uma coisa mais violenta, é porque há uma disputa entre gangues de traficantes.”

Esta noite veio à porta da estação buscar uma sopa quente. É ali que uma equipa de voluntários da Esperanza House, uma ONG que apoia pessoas com dependências, distribui os alimentos. Sérgio Manique, um dos fundadores da organização, tem uma opinião vincada sobre o assunto. “Há duas décadas que a droga entrou de rompante neste país. E isso é trágico, claro, mas o facto do epicentro do fenómeno ser a Gare é uma escolha política. Ao longo de 15 anos tenho a ideia de que há um interesse em manter o tráfico e a prostituição nesta zona.”

Manique desfia a sua teoria explicando o dia a dia dos toxicodependentes sem-abrigo do país. Passam a noite no Abrigado, um centro de reabilitação para dependências com salas de chuto em Bonnevoie. “Às nove da manhã vão tomar o pequeno almoço e beber qualquer coisa quente ao Café Courage, no Dernier Sol. Ao meio dia podem ir almoçar e tomar um banho ao [restaurante social] Stem van der Stross, na mesma zona. À tarde, se estiverem doentes ou precisarem de medicamentos, vão aos Médicos do Mundo. Onde é que fica? No Dernier Sol. Ou seja, todas as instituições de apoio foram levadas para a zona à volta da Gare. É claro que este é o centro do consumo e do tráfico de droga.”

Para os habitantes do bairro, claro, o assunto é um problema. Quem atravesse a rue do Commerce dificilmente deixará de notar as seringas espalhadas pelo chão – é nestes vãos de escada que se faz grande parte do consumo de heroína no Luxemburgo. Aqui não há prostituição, essa está concentrada mais adiante: na rue Mercier, no Fort Wedell, ao fundo da rue de Strasbourg. 

Marta Ventura Correia, fundadora do The Insight Project, um projeto de combate ao tráfico de mulheres, explica a distribuição geográfica: “As zonas mais iluminadas, ou com bons pontos de fuga, são as mais valorizadas por estas mulheres. Por isso há uma hierarquia, as que estão há mais tempo têm primazia sobre as esquinas mais seguras.”

Dana e Gabrielle aceitam falar. São romenas, uma tem 36, a outra 18. Partilham a mesma esquina porque a primeira decidiu tomar conta da segunda. “Na primeira semana, a Gabrielle engravidou logo de um cliente”, explica a mais velha. “Então agora eu dou um olho por ela para ajudá-la a não ir em cantigas.” 

Atrás delas, um grupo de nigerianos ocupa a mesma esquina para vender droga. “Nós até gostamos que eles estejam aqui. Sentimo-nos muito mais protegidas.” A Gare é perigosa? “É, e está cada vez mais”, diz Dana, que aluga o corpo no Grão-Ducado há uma década. “`Mas o que me dá medo é quando isto está tudo vazio. A Gare é perigosa quando não tem ninguém.”

Paca Rimbau Hernández aponta tudo o que foi desaparecendo do bairro.
Paca Rimbau Hernández aponta tudo o que foi desaparecendo do bairro.
Foto: António Pires

É precisamente esse o ponto de Paca Rimbau Hernández, a tradutora espanhola com que começou esta história. “Há 36 anos, o bairro tinha vida a toda a hora. Agora só se veem lojas vazias, bares vazios, casas vazias. E eu acredito que é isso que explica a insegurança. Claro que há um problema, mas mais guardas e cães não vão resolver nada a longo prazo. Havia aqui tanta gente, tanta vida noturna, tanta animação, e tudo isso está a desaparecer por causa da pressão imobiliária.”

O lamento de Paca é tão profundo que decidiu fazer algo sobre o assunto. Há 20 anos, escreveu para o jornal Woxx (na altura chamava-se ainda Gréngespoun) seis perfis de figuras que estavam a abandonar o bairro. “Em 2019 senti que o processo de esquecimento do bairro estava a intensificar-se e fiz uma nova série”, conta.  Desta vez, por sinal dos tempos, eram muito mais pessoas a desaparecer da Gare: 16. Chamou-lhe Que reste-t-il de nos amours? (O que resta dos nossos amores?) 

“Este sempre foi um bairro amado, mas agora está a ser alvo de uma profunda estigmatização", diz a espanhola. "Precisamos que a Gare aprenda a amar-se a si própria novamente. Se não fecha-se, torna-se intolerante, e isso não pode acontecer. A Gare é de todos, é o bairro da liberdade de existir.”

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O coração da cidade
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A Place de Paris durante a ocupação nazi. Bandeiras com suásticas enfeitam as ruas e as janelas.
A Place de Paris durante a ocupação nazi. Bandeiras com suásticas enfeitam as ruas e as janelas.
Foto: Arquivo LW

A primeira Gare do Luxemburgo foi erguida em 1858, mas no início tinha pouco mais do que a plataforma de embarque. No ano seguinte, a 6 de outubro, o Luxemburger Wort dá conta da inauguração do primeiro edifício da estação. “Era estrutura de madeira. Nessa altura, o governo militar do Luxemburgo estava em mãos alemãs e o comandante da fortaleza queria que o edifício estivesse ao alcance dos canhões”, diz o historiador Robert Philippart. “A ideia era manter o terreno livre para bombardear em caso de ataque.” Só a partir de 1867 começa a urbanização do bairro. Em pedra.

O edifício que hoje conhecemos foi inaugurado em 1912. À esquerda da entrada principal, quando se está virado de frente para a estação, ficava o pavilhão grão-ducal, onde a família real embarcava e recebia visitas de estado. Agora acolhe a pastelaria Paul. Já em 1900, depois da abertura da Ponte Adolphe, começa a abrir-se a Avenue de la Liberté. Metade da artéria estava sob domínio da comuna do Luxemburgo, a outra metade em Hollerich - que a capital haveria de engolir em 1920.

“Os arquitetos luxemburgueses que desenharam essa rua tinham feito metade dos estudos em França e a outra metade na Alemanha e isso revelou-se providencial”, diz Hans Fellner, historiador de arte. “Os edifícios tinham fachadas germânicas que depois eram decoradas com elementos franceses. Foi uma medida estratégica para proteger a neutralidade de um país habituado a ser invadido, e que só recentemente tinha conquistado a sua independência.”

A primeira estação era de madeira. Funcionou entre 1859 e 1912.
A primeira estação era de madeira. Funcionou entre 1859 e 1912.
Foto: Arquivo LW

O troço entre a Place de Paris e a Place de Metz está hoje inscrita no conjunto classificado como Património da Humanidade pela UNESCO. Na Avenue de la Liberté o Luxemburgo mostrava as suas virtudes, nas ruas laterais escondia os vícios. Com o advento do comboio, a capital do Grão-Ducado torna-se cada vez mais cosmopolita. A linha férrea faz a interseção entre vários destinos. Aqui faziam transbordo os viajantes de Antuérpia que seguiam para Milão, por exemplo. 

O Luxemburgo tornou-se rapidamente o eixo entre Bruxelas, Metz, Paris, Saarbrucken, Trier, Aachen ou Liège. E foi aqui que se encontrou aqui a plataforma para o desembarque de carvão. “As pensões tinham os nomes destas terras e os viajantes dormiam normalmente no hotel que remetia para o seu local de origem”, conta Philippart. “Serviam comida 24 horas por dia e ofereciam espetáculos aos clientes.”

Quando a arte se fez sétima, a Gare acolhia os cinemas. Houve sete, e o último fechou portas em 1988. Os bistrots davam palco a sociedades musicais de sucesso - e, depois do confinamento da gripe espanhola, nos anos 1920, abriram-se as portas a uma dezena de salões de baile onde cabia meio milhar de pessoas. O bairro fervilhava. 

“No centro da cidade servia-se cultura às elites, na Gare havia entretenimento para as classes populares”, diz Philippart, historiador. “Falava-se francês, alemão e a língua local. Não será injusto dizer que foi neste bairro que se afirmou o trilinguismo luxemburguês, hoje consagrado na lei.”

Nas duas guerras mundiais, o quartier tornar-se-ia símbolo de ocupação e libertação. A Gare foi bombardeada 22 vezes durante a Primeira Guerra Mundial e, segundo o historiador E.T. Melchers no livro Letzebuerger Einsebunnen, “quando há 30 toneladas de explosivos detonados sobre uma única estação de comboios, isso explica bem a importância que ela tem.” 

Na Segunda Guerra Mundial, a Avenue de la Liberté foi ocupada pelas tropas nazis e rebatizada de Adolph Hitler, com dezenas de bandeiras suásticas a enfeitarem as fachadas em 1940. Mas foi também por aqui que marcharam as tropas americanas que libertaram o país quatro anos depois. Ou que desfilou a Grã-Duquesa Charlotte, depois do exílio forçado em Portugal e Inglaterra.

A Gare explica a vida e a história de um país inteiro. A afirmação de uma identidade, a guerra, a construção da riqueza, a chegada de gente de todo o mundo. Nos quarteirões que o Luxemburgo tanto teme, bate de certa forma o coração da cidade. Paca Rimbau Hernández tem uma boa metáfora para definir o seu amor à Gare. “Em frente ao número 24 da rue Glesner, num pedacito de terreno que ninguém dá conta, há esta árvore que conseguiu arranjar maneira de crescer. E sabes que mais? Se olhares bem para ela, é a magnólia mais bonita da cidade.”

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