Escolha as suas informações

A garagem de Berardo

A garagem de Berardo

Foto: Lusa
Editorial Luxemburgo 4 min. 18.05.2019

A garagem de Berardo

Hugo GUEDES PINTO
Hugo GUEDES PINTO
Não admira que os eleitores se deixem levar pelos cantos de sereia do neofascismo populista.

“Se deves mil euros ao banco, tens um problema. Se deves mil milhões de euros ao banco… o banco tem um problema”. A frase original, em dólares, é de J. Paul Getty, mas poderia ser de Joe Berardo, um excelente símbolo simultaneamente do país corrompido em que Portugal se tornou e da submissão das nossas sociedades capitalistas aos desmandos obscenos da banca.

Se eu, o/a leitor/a ou qualquer outro contribuinte e trabalhador não tiver mil euros para pagar a prestação da hipoteca, é penhorado. Na última década, a crise financeira criada – nunca é demais esquecê-lo – pela ganância da banca privada traduzida em desvarios de produtos financeiros fictícios para encobrir créditos cada vez mais malparados significou uma factura colossal – é inútil repeti-lo – para os dinheiros públicos, salvando bancos da falência com impostos que nos custam a pagar e fazem falta em outros lados. Nessa crise, entretanto, houve muita gente que perdeu tudo, a começar pelas suas casas. E sim, às vezes por mil euros. O ex-presidente do Conselho Fiscal da Caixa Geral de Depósitos, Paz Ferreira, um dos homens que permitiu que o país gastasse 5 mil milhões de euros para recapitalizar o banco público, confirmou-o da forma mais cândida, quase doce, no mês passado: “às vezes não chegava a haver acção de cobrança por parte da CGD… era em casos específicos. A Caixa deixava de tentar cobrar o empréstimo aos grandes devedores. Se me pergunta se um pequeno devedor tinha este tratamento, não tinha”.

Joe Berardo não é um pequeno devedor – são quase mil milhões de euros em falta nas contas de CGD, BES e BCP, as três maiores associações de malfeitores do sindicato do crime que é a banca portuguesa. Mas na sexta-feira passada, com um belíssimo sorriso trocista reminiscente do personagem do Joker nos filmes do Batman, Berardo foi ao Parlamento português, supostamente a casa dos representantes do povo, explicar que ele, entretido a disfrutar de um estilo de vida sumptuoso, ocupado a mostrar a Quinta da Bacalhoa – que obviamente não está no nome dele – aos programas cor-de-rosa da TVI, “não tem, pessoalmente, qualquer dívida”. E também não tem património – à excepção de uma pequena garagem no Funchal.

Joe Berardo é um produto típico do cano de esgoto que era a política do passado. O emigrante na África do Sul, como autodeclarado “self made man” e dono de um discurso demagógico pretensamente anti-elites, emprestava popularidade aos políticos: nomeado “comendador” por Eanes em 1985, elevado a “Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique” por Sampaio em 2004, beneficiário de tratamentos de favor pelos governos de Cavaco, Barroso, Santana Lopes e Sócrates (com António Costa a vice), eleito “personalidade do ano” em 2007 pelo então comentador político Marcelo; o monstro não se criou a ele próprio. Foram sucessivas administrações bancárias que, quiçá por imensa simpatia pessoal ou outras razões mais inconfessáveis, lhe foram emprestando cada vez mais milhões, tendo como garantia uns papéis sem valor; foram governantes públicos quem, hipotecando todo o orçamento do Ministério da Cultura, lhe financiaram a colecção de quadros e lhe emprestaram um “centro cultural” em Lisboa (só e sempre em Lisboa, claro) para os mostrar. Os mesmos quadros não podem agora ser penhorados porque pertencem à Associação Berardo, e não a Joe Berardo (lembre-se, Joe só tem uma garagenzita.)

O grave é tudo isto não ser passado, mas sim um presente bem amargo: o Estado continua a tentar cobrar ou penhorar alguma coisinha, o primeiro-ministro diz-se “chocado”, o presidente exige “respeito” – tudo não passa de esbracejar em vão, de palavras vazias para enganar os distraídos. O grave é que Berardo é apenas um símbolo: símbolo de um sistema absolutamente podre em que os infractores se sentem impunes – porque o são – e se dão ao luxo de gozar com a cara de quem arca com o peso da corrupção endémica. O comendador nem sequer é o maior devedor privado – essa honra parece pertencer ao seu amigo e consócio benfiquista Luís Filipe Vieira, outro homem tão bem relacionado que está sempre acima da lei, tanto ele como a instituição desportiva que dirige.

O fosso entre uma classe de intocáveis e o resto dos mortais vai aumentando – sem resposta abrangente, qualquer que seja a cor política dos governos ditos democráticos. Não admira que os eleitores, desesperados, se deixem levar pelos cantos de sereia do neofascismo populista. Os exemplos estão por todo o lado e Portugal, por este caminho, será o próximo.

Siga-nos no Facebook, Twitter e receba a nossa newsletter das 17h30.