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A fuga para a liberdade da família grã-ducal

A fuga para a liberdade da família grã-ducal

A fuga para a liberdade da família grã-ducal

A fuga para a liberdade da família grã-ducal


23.05.2019

© Collections photographiques de la Maison grand-ducale de Luxembourg

Como a Grã-Duquesa do Luxemburgo escapou à invasão nazi e conseguiu, ao fim de mil e uma peripécias, refugiar-se em Portugal, juntamente com uma comitiva de 72 pessoas. Uma das acompanhantes, então criança, recorda esses dias. O Contacto publica um texto da investigadora Margarida de Magalhães Ramalho, antes publicado no Expresso.

Desde setembro de 1939 – ataque nazi à Polónia – que o Luxemburgo temia uma repetição da invasão alemã de 1914. Embora se tivesse declarado neutro e não armado, o país preparou-se para essa eventualidade. Alguns telegramas enviados para Lisboa pelo cônsul português em Haia (Arquivo Histórico e Diplomático do Ministério dos Negócios Estrangeiros) dão-nos conta do clima que então se vivia na Europa. Diz um destes, datado de 17 de Janeiro de 1940: “Alarme produzido sábado passado meios governamentais provocado principalmente pela informação vinda de Bruxelas dando conhecimento invasão alemã decidida para a madrugada segunda-feira. Apesar de situação inalterada este Governo crê execução plano alemão adiado para curto prazo. Maioria população indiferente se não incrédula. Tavares.”

Um outro, enviado pelo mesmo diplomata a 11 de abril – dois dias depois da invasão da Escandinávia – referia: “Voltou a inquietação aos Países Baixos. Governo suspende novamente licenças militares, reforça zona fronteira alemã e costeira. Cidade fortemente patrulhada. Este governo teve informação que a Alemanha decidira invadir Noruega, Dinamarca e semanas depois ataque frente Linha Maginot ala esquerda do exército francês através da Holanda Bélgica. Como primeira parte informação foi levada efeito este governo receia seja executada segunda parte. Tavares”

Prevendo a violação das suas fronteiras, o governo luxemburguês tinha transferido parte das suas reservas de ouro para a Bélgica e acumulado dinheiro vivo nas Legações de Paris e Bruxelas. Acautelava, assim, uma eventual partida do governo e da Grã–Duquesa para o exílio, bem como o êxodo para os países vizinhos de milhares de luxemburgueses. A dar-se o caso de uma interrupção das comunicações devido ao estado de guerra, havia, na legação de Paris, um envelope lacrado com um pedido formal de auxílio ao governo francês em caso de ataque alemão.

No final de abril, um documento interceptado mostrava que Hitler planeava fazer passar uma divisão blindada através da região central luxemburguesa de Diekirch-Ettelbruck. Era um primeiro alerta. A 9 de maio, o banqueiro Carlo Tuck era aconselhado a fugir pelo seu jardineiro, Willy Maraun. Este, de origem alemã, pertencia à Quinta Coluna (grupos clandestinos de civis que trabalham, em tempo de guerra, a favor do inimigo) e sabia que a invasão seria no dia seguinte.

O governo, avisado por Tuck, não quis alarmar sem necessidade a população e preferiu esperar, receando um falso alarme ou uma manobra de desinformação. O executivo manter-se-ia assim na capital até se aclarar tudo, enquanto, por precaução, a Grã-Duquesa Charlotte e o marido, o príncipe Felix, se dirigiriam para a fronteira francesa. Com eles viajaria também a Grã-Duquesa Maria Ana de Bragança, filha do rei de Portugal D. Miguel e mãe de Charlotte.

Grã duquesa levando para bordo do Excalibur os seus cães para serem transportados para os Estados Unidos, no dia 25 de setembro de 1940
©Victor Bodson – Col. Aschman – Bodson

A invasão

Às 4h30 da madrugada de 10 de maio os primeiros soldados inimigos entravam em território luxemburguês. Poucas horas antes, o governo nazi tinha feito chegar à Legação Luxemburguesa em Berlim o aviso formal da entrada das suas tropas naquele país, nos Países Baixos e na Bélgica. Mais informava que “nem no presente nem no futuro, estavam em causa a independência política e a integridade territorial do Grão-Ducado, desde que o governo grão-ducal e o povo luxemburguês não oferecessem resistência”, como se pode ler num memorando enviado, mais tarde, para Lisboa, pela Comissão Administrativa luxemburguesa.

De imediato, Charlotte, a mãe e o marido passaram para França. A este país chegavam também, por outros caminhos, o ajudante de campo do príncipe Felix, Guillaume Konsbruck, com o príncipe herdeiro Jean e as princesas Marie Gabrielle e Alix. Os outros filhos do casal grão-ducal, Elisabeth, Charles e Marie Adélaïde, seguiriam também para lá provenientes de Bruxelas, onde se encontravam nos respetivos colégios. Perante o rápido avanço alemão, os ministros e suas famílias tiveram de partir precipitadamente. Quase todos com pouco mais do que a roupa que tinham no corpo.

Deixando o ministro da Justiça, Victor Bodson, nas casernas de Saint Esprit, na capital, a acompanhar a situação, o primeiro ministro Pierre Dupong e o ministro dos Negócios Estrangeiros Joseph Bech seguiam os acontecimentos já no sul do país. Quando às 6h da manhã veem chegar a toda velocidade o ministro Bodson e a familia percebem que a situação era, de facto, muito grave. Já em fuga de carro, Bech vai deixando atrás de si um rasto de confétti. Eram os restos de documentossecretos que transportava e que, rasgados à pressa em pedacinhos, atirava pela janela da viatura.

Já em fuga de carro, Bech vai deixando atrás de si um rasto de confétti. Eram os restos de documentossecretos que transportava e que, rasgados à pressa em pedacinhos, atirava pela janela da viatura. 

Surpreendidos pela rapidez das tropas aerotransportadas alemãs, que rapidamente chegam à fronteira sul do país, os membros do governo vão ter de usar de todos os expedientes para iludirem o inimigo e chegarem a França. A Victor Bodson, por exemplo, valeu-lhe o conhecimento quetinha das estradas secundárias e caminhos vicinais e a sua experiência em corridas de motociclismo. Quem não teve a mesma sorte foi o Ministro da Instrução, Nicolas Margue, que viajava de táxi por não ter viatura própria. Impedido de passar, regressa à capital, sendo depois capturado. Posteriormente, ele e a família serão deportados para a Alemanha, donde só serão libertados pela vitória aliada em 1945.

Já em França, Dupong e Bech constatam surpreendidos que o comandante de um sector da Linha Maginot (linha de fortificações francesa construída nos anos 20 e 30 e considerada inexpugnável) não fazia a mínima ideia de que a invasão luxemburguesa estava em marcha. Perante isso, Bech comentou: “Pierre, c’est foutu” (está tudo lixado).

A caminho de Paris, os membros do governo partilham a sorte dos milhares de refugiados nas estradas e são bombardeados e metralhados pelos aviões nazis. Por diversas vezes tiveram de abandonar os automóveis e abrigar-se no campo. Quanto aos príncipes que viajavam com Konsbruck, conseguiriam escapar ilesos por estarem dentro de um café, quando o carro em que seguiam foi alvejado.

Perante o caos a que assiste, Pierre Dupong diz à família: “a guerra está perdida”. Em Paris, onde chegam a 11 de maio, instalam o governo na legação luxemburguesa, no nº 6 da Avenida Hoche. A ameaça dos bombardeamentos e a falta de espaço levam as famílias dos ministros a procurarem abrigo mais a sul.

Primeiro em Fontainebleau – onde não encontram sítio para ficar – e depois em Poitiers. Aí, por intervenção do pároco, conseguem instalar-se no antigo orfanato de Salvert. Foi sol de pouca dura, pois o edifício não tardou a serrequisitado para hospital. E

Entretanto, as declarações da Grã-Duquesa à rádio francesa levaram a Alemanha a declarar o Luxemburgo “país inimigo”. Estava encontrada a desculpa para a futura anexação.

Um encontro feliz

Alguns pormenores da saga de um dos membros do governo luxemburguês, o ministro da Justiça Victor Bodson, bem como quase todas as fotografias que ilustram este artigo, vieram-me parar à mão de uma forma inusitada. Ao consultar pela primeira vez a Fototeca do Luxemburgo, em junho de 2018, perguntei ao técnico da sala se haveria – entre outras coisas de que precisava- imagens da Grã-Duquesa ou do seu governo no exílio. Não havia. Contudo, um leitor que estava de saída ouviu a pergunta e, simpaticamente, interrompeu-nos para referir que a sua mãe, ainda viva, era filha do ministro Victor Bodson, fizera a viagem e tinha bastantes fotografias... Não fosse acreditar que não há coincidências e que tudo tem alguma razão de ser, teria ficado sem palavras. Agradeci e pedi para ver as fotos e se possível falar com a senhora. Trocámos telefones e fiquei a saber que este homem, Christian Aschman, era editor de fotografia num grande jornal luxemburguês, o Luxemburger Wort. Não costumava frequentar a Fototeca e geralmente vivia em Bruxelas...

Ainda nessa tarde, perdida no meio de um trânsito desgraçado, recebi uma chamada de Philippe Aschman (a quem muito agradeço toda a colaboração dada de então para cá), irmão de Christian e guardião das imagens. No dia seguinte, e antes do voo de regresso a Lisboa, Philippe mostrou-me dois magníficos álbuns de fotografias e a promessa de que, quando regressasse em setembro, marcaria um encontro com a sua mãe. E assim foi.

Apesar de na época só ter seis anos, Sonia Aschman-Bodson tem uma recordação viva de alguns acontecimentos e guarda objectos relacionados com a atribulada viagem. Entre estes, porventura o mais importante e que mesmo em adulta usou sempre no estrangeiro como “porte bonheur” (amuleto): uma espécie de peitilho de pano branco feito pela mãe para os filhos usarem sobre a roupa, dia e noite, durante a fuga. Segundo esta encantadora senhora de 85 anos, tanto ela como os irmãos usaram-nos mesmo nos Estados Unidos, durante o tempo que permaneceram em Ellis Island (ilha junto a Nova Iorque onde eram triados os emigrantes provenientes da Europa), e até chegarem ao seu destino final, a cidade canadiana de Montreal.

Sonia Aschman-Bodson guarda objectos relacionados com a atribulada viagem. O mais importante e que mesmo em adulta usou sempre no estrangeiro como “porte bonheur” (amuleto): uma espécie de peitilho de pano branco feito pela mãe para os filhos usarem sobre a roupa, dia e noite, durante a fuga.   

Nesse pedaço de pano que se enfiava pela cabeça e se atava atrás das costas, estão escritos o nome, data de nascimento e duas moradas: uma de uma tia que vivia em Bruxelas e a outra de uma amiga de juventude da mãe, na Ucrânia, que vivia em França. Em caso de acidente ou de se perderem, as crianças podiam assim ser identificadas e entregues a familiares ou amigos.

Oitenta anos depois destes acontecimentos, Sonia Aschman-Bodson tem consciência de que há muita coisa que esqueceu. No entanto, lembra-se que, em França, nem sempre viajaram com os outros ministros ou com a Grã-Duquesa e que não atravessaram o país de forma linear. Andavam muitas vezes às voltas, dormindo em casas ou castelos que alguém ia disponibilizando. Por outras fontes, que seguiremos neste artigo (G. Heisbourg, “Le Gouvernement Luxembourgois en exil”, 1940) sabemos que a Grã-Duquesa terá ficado instalada sucessivamente nos castelos de Celle Saint Cloud, no de Bostz (Moulins), antes de ficar, já perto de Bordéus e Bergerac, no de Lamonzie-Montastruc. Para acomodar comitiva e governo (72 pessoas) nesta última região, o “maire” cedeu, a pedido do principe Felix, o castelo de La Poujade, pertencente à sua sogra, Lady Greenwell, e que estava há anos fechado.

Sonia evoca um lugar escuro, cheio de pó, teias de aranha e ratos mortos onde as crianças acreditavam existir milhares de fantasmas... Mais reais e assustadoras eram as idas à casa de banho. Eram à antiga e resumiam-se a uma caixa de madeira com um grande buraco ao meio onde tinham medo de cair. Quem as poderia criticar?

Os vistos de Aristides

Ao fim ao cabo, por que razão fugiam a Grã-Duquesa e o governo? Entre outras, pela mesma que, em 1807, um século e meio antes, o seu bisavô (também bisavô do marido), levara o futuro rei de Portugal D. João VI a iludir as tropas napoleónicas e embarcar para o Brasil.

Em ambos os casos, o objetivo era preservar a soberania do país e não ficar refém do inimigo. No caso de Charlotte do Luxemburgo, a situação era ainda mais complexa. Durante a I Guerra Mundial, a Alemanha também invadira o seu país. A irmã mais velha, Marie-Adélaïde, então grã-duquesa, optara por ficar. Acusada no final da guerra de colaboracionismo, não só foi obrigada a abdicar, como pôs em risco a própria instituição monárquica. Marie-Adélaïde morreria, em 1924, num convento para onde fizera questão de entrar depois de abandonar o trono. Charlotte não queria correr esse mesmo risco.

Como explicou mais tarde o ministro Joseph Bech numa carta enviada para Londres, a 24 de Fevereiro de 1941: “Nós, os luxemburgueses (…), estamos numa situação diferente da dos holandeses ou dos belgas. Para eles a sua relação com a Alemanha pode ser péssima, mas os seus Estados existirão mesmo num outro quadro, enquanto nós estamos ameaçados de ser completamente absorvidos. É por isso que a Grã-Duquesa jamais poderá cair nas mãos dos alemães.”

Os seus ministros (menos Nicolas Margue), empossados um mês antes da invasão, acompanhá-la-ão. Chefiado por Pierre Dupong, este executivo era composto, como vimos, por Victor Bodson, Justiça (Partido Socialista Operário – LSAP, na sigla em luxemburguês), Joseph Bech, Negócios Estrangeiros (CSV), e Pierre Krier, Previdência Social e Trabalho (LSAP).

A partida para os Estados Unidos, que levou à separação forçada da mãe.
A partida para os Estados Unidos, que levou à separação forçada da mãe.
Foto: Arquivo Luxemburger Wort

Se, no final da guerra, os luxemburgueses, apesar de tudo, terão compreendido as razões de Estado que levaram a soberana a tomar esta difícil decisão, durante a ocupação a maior parte sentiu-se traída e abandonada à sua sorte.

Acreditando, como toda a gente, que a França iria conseguir fazer frente ao inimigo comum e que a Linha Maginot aguentaria, Charlotte e o seu governo esperavam poder manter-se em território francês e controlar, mesmo que do estrangeiro, o que se passava no seu país. Como se sabe, não foi o que aconteceu. A 14 de junho de 1940 os alemães entravam em Paris e a França rendia-se pouco depois, e grande parte do território ficava sob tutela nazi.

É então que as autoridades francesas fazem saber que já não podem garantir a segurança nem da Grã-Duquesa nem dos membros do seu governo. Sem poderem ficar nem embarcar para Inglaterra (para isso era preciso tempo), foi decidido que a soberana e o marido passariam, ainda nesse dia, os Pirenéus, sendo seguidos na manhã seguinte pelos ministros.

Nesta partida sob pressão, vão-lhes valer, como aliás a milhares de outras pessoas, os vistos emitidos pelo cônsul português de Bordéus, Aristides de Sousa Mendes. Sobre a ação deste diplomata, escreveria mais tarde Charlotte do Luxemburgo: “Será para sempre lembrado pelos refugiados luxemburgueses e a minha própria família, que, pela sua iniciativa, escaparam a uma perseguição certa e puderam por isso chegar a países livres. A sua ação humanitária ficará, para sempre, como um exemplo de abnegação à causa da liberdade e da compreensão entre todas as nações e todas as raças”.

Se é verdade que a família grã-ducal teria provavelmente conseguido vistos em qualquer outro consulado (embora não no tempo recorde em que os recebeu, por ter de ser pedida autorização a Lisboa), o mesmo não aconteceria aos seus acompanhantes, nomeadamente ao ministro Victor Bodson. Este pertencia, desde 1930, ao Partido Socialista Operário, e tinha representado consularmente, até à vitória de Franco, o governo republicano espanhol. Tendo em conta as regras ditadas por Lisboa, não era provável que viesse a receber visto. 

Nesta partida sob pressão, vão-lhes valer, como aliás a milhares de outras pessoas, os vistos emitidos pelo cônsul português de Bordéus, Aristides de Sousa Mendes.  

Temendo ser detido na fronteira de Hendaia, Bodson altera no passaporte o apelido para Bodfan. Ainda como deputado tinha ajudado a fugir uma centena de judeus. Isso valer-lhe-á, em 1971, ser reconhecido, pelo Estado de Israel, como “Um Justo entre as Nações”, mas à época fê-lo entrar direitinho na lista de pessoas a interrogar pela Gestapo, como se pode ler na publicação nazi “Fahndungsbuch”, de outubro de 1942.

Formado em Direito, Victor Bodson fora conselheiro comunal da cidade do Luxemburgo, deputado, vice-presidente da Câmara dos Deputados e finalmente, em 1940, ministro da Justiça. Era um desportista nato que praticava natação, pólo aquático, boxe e motociclismo, tendo dirigido algumas associações ligadas a estes desportos.

Quando partiu em 1940, acompanhava-o a sua segunda mulher, Gilberte de Muyser, os quatro filhos do casal, Mimy, de 10 anos, Sonia, de seis, e os gémeos de 18 meses Léon e Robert, para além de Andrée, de 15 anos, filha da sua falecida primeira mulher.

Como os restantes membros do Governo, Victor Bodson seguiu para Paris. Na cidade-luz, agora às escuras devido ao ’black out’, foram surpreendidos pelos primeiros bombardeamentos do Eixo e Sónia lembra-se bem de terem procurado abrigo numas caves. Dias depois, Bodson, secretariado por Charles Bech, filho do ministro dos Negócios Estrangeiros, e Krier, foram ao encontro dos milhares de refugiados luxemburgueses que se encontravam concentrados em Dijon, Mâcon, Lodève e Montpellier. O objectivo era organizar os serviços de apoio aos milhares de pessoas que ali se encontravam e ajudar a reunir famílias. Para tal, contavam também com o auxílio da Cruz Vermelha luxemburguesa, subsidiada em parte pela sua congénere norte-americana.

A ambulância de l'ARBED-Dudelange em que viajou o ministro Pierre Krier. Ao centro, o policia Jean Peiffer motorista do ministro
A ambulância de l'ARBED-Dudelange em que viajou o ministro Pierre Krier. Ao centro, o policia Jean Peiffer motorista do ministro
Foto: Col Aschman-Bodson

Enquanto Krier se instalava em Dijon, Bodson fazia-o em Montpellier, onde as suas filhas Sonia e Mimy ainda frequentaram por alguns dias o colégio de religiosas de Les Dames de Saint-Maur. Foi em França que os Bodson descobririam que a ’nurse’ (ama), que levavam para ajudar com os gémeos, estava, aparentemente a espiá-los para os alemães... Foi sumariamente despedida. A queda de Paris obriga-os a partir de novo, desta vez em direção à fronteira espanhola. Se, apesar de algumas vicissitudes, a viagem dos Bodson correu relativamente bem, o mesmo não aconteceu com o ministro Pierre Krier. Obrigado a partir à pressa de Dijon e sem conseguir contactar a mulher e a sogra, que tinham ficado em Avallon (a cerca de 100 km), acaba por ter de partir sozinho. A 17 de junho chega, com o seu motorista, o polícia Jean Peiffer, a Mâcon, onde o seu carro oficial, um Buick, se avaria de vez. Tentam apanhar um comboio, mas a estação fora destruída pelas bombas italianas. A viagem para sul só foi possível graças à requisição forçada de uma ambulância da fábrica Arbed-Dudelange (a maior empresa luxemburguesa de ferro e aço, criada em 1911). Essa requisição iria ser muito criticada pela administração da ARBED. E o assunto só morreu com o regresso posterior de Peiffer com a bendita ambulância...

No caminho para sul, ainda recolheram o secretário da legação francesa no Luxemburgo, que encontraram em Brioude. A 20 de junho o grupo chega a Bordéus. Dali segue para a fronteira, onde fica a saber que a Grã-Duquesa já se encontrava em Espanha. A ambulância e os seus ocupantes tomam o mesmo rumo.

Quanto aos Dupong, a situação também não foi fácil. Tendo deixado no castelo de La Poujade os filhos à guarda de um casal amigo, os Dupong são alertados em Saint Jean de Luz, onde se vão encontrar com a soberana, da imperiosidade de partirem. É então enviado a La Poujade o capitão Archen para ir buscar os jovens. Como entretanto tinha sido proibida a circulação de civis, Archen não tem outro remédio se não falsificar um “laissez passer” (salvo conduto). O problema é que tanto Archen como o seu motorista não dormiam há 48 horas, o que obrigou os ocupantes do carro a falarem ininterruptamente para eles não adormecerem.

A passagem da fronteira em Hendaia não seria fácil. Milhares de pessoas aguardavam desesperadas que as autoridades espanholas as deixassem entrar. Nem o estatudo de chefe de Estado de um país estrangeiro e de ministros lhes serviu para nada, antes pelo contrário. Levarão quase um dia para franquear a fronteira. E os alemães cada vez mais perto.

Nesta angústia esteve também o antigo ministro romeno Titulesco, sem visto para Portugal, que acabou por ser obrigado a voltar para trás, tendo sido, posteriormente, sumariamente fuzilado pelos nazis.

Lavando a roupa no rio. À esquerda, em pé, Betty Bech. De chapéu de palha Gilberte Bodson de Muyser com a sua filha Sonia também de chapéu
Lavando a roupa no rio. À esquerda, em pé, Betty Bech. De chapéu de palha Gilberte Bodson de Muyser com a sua filha Sonia também de chapéu
Foto: Col Aschman-Bodson

A chegada a Portugal

Vindos por caminhos diferentes, a S. Sebastian vão chegando todos os membros da comitiva. De Pierre Krier, porém, nem sinal. Com o aviso das autoridades espanholas de que a Grã-Duquesa teria de abandonar o país em 24h (e viva a lealdade de Franco a Hitler!), a partida prepara-se para as 6 da manhã do dia seguinte. Será nessa altura que, sem que ninguém já o esperasse, chega o ministro Krier na sua famosa ambulância. A coluna de 17 carros transportando 72 pessoas põe-se rapidamente em marcha, tendo à frente o carro do príncipe Felix e em último lugar o automóvel de Bodson.

No dia 23 e debaixo de chuva entravam em Portugal por Vilar Formoso. Como referiu nas suas Memórias António Hartwich Nunes, responsável pelo Posto de Turismo daquela vila raiana (ver Revista E de 6 de junho de 2015), “os dias 23 e 24 de junho foram os de maior tormenta. Chegaram à fronteira, nestes dois dias, umas duas mil pessoas, de comboio e de automóvel. (...) Na gare não se podia dar um passo, era um bloco de gente.”

Na véspera, já Hartwich dera conta da chegada da irmã do príncipe Félix, Zita de Habsburgo, a imperatriz da Áustria deposta, com os filhos e comitiva. Sobre a chegada de Charlotte do Luxemburgo àquela fronteira, escreveria: “ainda no dia 23, pela manhã, chegou a Grã-Duquesa de Luxemburgo, com a família e comitiva. Chovia. Falei um instante ao ajudante de campo do Príncipe e dei-lhe indicações de que precisava. Não falei à Grã-Duquesa porque toda a manhã andei ocupado com a cozinheira da Imperatriz Zita. A Imperatriz já tinha telefonado várias vezes para Vilar Formoso. Tinha muita pressa na cozinheira. Consegui que seguisse essa tarde para Lisboa, por isso mesmo não falei à Grã-Duquesa Carlota; justo, visto a Grã-Duquesa já ter almoçado e a imperatriz estar à espera da cozinheira…”. Dali seguiriam todos para a zona de Coimbra. Segundo o Diário de Notícias de 25 de junho, os ministros ficaram em hotéis da cidade, enquanto a soberana e a família se instalavam no Hotel do Buçaco. No dia seguinte, Dupong e Bech dirigem-se a Lisboa para se encontrarem com Salazar. Este acaba por conceder à Grã-Duquesa e aos seus ministros o estatuto de refugiados, na condição de se absterem de qualquer atividade ou declaração política. Neutralidade “oblige”...

Otto, Adélaïde e Charlotte, filhos da imperatriz Zita de Habsburgo, e a prima Marie Gabrielle, filha da grã-duquesa do Luxemburgo (da esq. para a dir.), no telhado da Casa de Santa Maria, em Cascais
© Collections photographiques de la Maison grand-ducale de Luxembourg

Finalmente a salvo, muitas das senhoras do grupo aproveitaram a estada em Coimbra para lavar roupa no Mondego. Numa destas deliciosas imagens, cedidas por Sonia Aschman-Bodson, vê-se a própria, de chapéu de palha, juntamente com a mãe, também de chapéu, para além de outras senhoras e raparigas. A escassez de dinheiro e vestuário era tal que, ainda em França, os filhos da Grã-Duquesa emprestaram roupa interior às crianças do casal Bodson.

Conta o Diário de Notícias que no dia 26 de junho, depois de ter almoçado em Coimbra, a Grã-Duquesa partiu para Cascais. Aí fica instalada na Casa de Santa Maria, propriedade do cônsul honorário do Luxemburgo em Lisboa, Manuel Espírito Santo. Quanto ao governo, depois de uma breve estada nas Caldas da Rainha, fica, por algum tempo, na Pensão Royal da Praia das Maçãs.

A escassez de dinheiro e vestuário era tal que, ainda em França, os filhos da Grã-Duquesa emprestaram roupa interior às crianças do casal Bodson.  

Dessa espécie de férias, guardam boas recordações, apesar de alguns contratempos. Conta-nos, mais uma vez, Sonia Aschman-Bodson, que um dia, estando a brincar na praia, lhe levaram os sapatos. Como era os únicos que tinha, o pai foi à polícia pedir ajuda. Seriam encontrados nos pés de uma criança cigana que muito provavelmente teria visto a possibilidade de finalmente ter uns sapatinhos...

Outra coisa de que Sonia se lembra bem foi de a meia irmã Andrée quase ter morrido afogada naquele mar bravio. Valeu-lhe o pai ser um nadador exímio. Contudo, Victor Bodson teve grande dificuldade em vencer a força da corrente.

Casa José Maria Posser de Andrade onde residiu a Grã-Duquesa depois de ter saído da casa de Santa Maria e até à sua partida para os Estados Unidos
Casa José Maria Posser de Andrade onde residiu a Grã-Duquesa depois de ter saído da casa de Santa Maria e até à sua partida para os Estados Unidos
©Victor Bodson- Col Aschman-Bodson

Refugiados em Sintra

A Praia das Maçãs acolheu também centenas de refugiados dos Países Baixos. A gerir esta espécie de colónia encontrava-se a baronesa neerlandesa Marie Harinxma thoe Slooten, que chega a propor ao ministro Joseph Bech que aqui instalasse também os refugiados luxemburgueses. De Londres, Bech responder-lhe-ia a 22 de Agosto de 1940: “Praia das Maçãs, onde passei tão bons momentos na minha mansarda da Pensão Royal, parece-me verdadeiramente predestinada para refúgio de Luxemburgueses”.  Apesar dessa resposta, poucos esforços foram feitos nesse sentido e os luxemburgueses que chegaram a Portugal acabaram, como tantos outros, por ficar espalhados por várias localidades.

A 9 de agosto os ministros e famílias mudaram-se para o Monte Estoril. Dupong e Bech partilharão o palacete Posser de Andrade (que ficava na esquina da Av. de Sabóia com a Conde de Moser), alugado pela Grã-Duquesa, que aqui se instalara já desde o final do mês anterior, depois de ter abandonado a casa de Espírito Santo. Os Bodson ficam nas imediações, numa casa ou pensão mais modesta. Pelas referências de Sonia Aschman-Bodson, esse imóvel localizar-se-ia no início da Rua de Belmonte.

Praia das Maçãs, onde passei tão bons momentos na minha mansarda da Pensão Royal, parece-me verdadeiramente predestinada para refúgio de Luxemburgueses. 

Para a Grã-Duquesa, a estada em Portugal não foi propriamente um mar de rosas. Primeiro, a insegurança era grande. Nos meios diplomáticos falava-se da possibilidade de uma invasão hispano-alemã de Portugal. Esta chegou, de facto, a ser ponderada por Hitler, com o nome de código Operação Felix. 

Enquanto aumentava a pressão sobre Charlotte do Luxemburgo para que regressasse ao seu país, a soberana era confrontada com os remoques do seu povo. Para muitos luxemburgueses, a partida da família grã-ducal e do seu executivo era um escândalo e melhor teria sido que tivessem ido para a Suíça ou para Itália de onde, com a ajuda do rei e de Mussolini, poderiam, mais tarde, regressar. Como vimos, isso era impensável.

Entretanto, partiam para os Estados Unidos, a convite de Roosevelt, o príncipe Felix e os filhos. A utilização do cruzador americano Trenton, para os transportar, criou algum sururu nos meios políticos, tendo um senador republicano questionado o secretário de Estado: “por que razão um cruzador americano tinha transportado sete refugiados reais, saudados com todas as honras devidas a uma família reinante? E, se fazia parte da política dos Estados Unidos transportar, em navios americanos, outras cabeças coroadas europeias?”.

Em Lisboa, a Grã-Duquesa tinha outras preocupações. A principal era o pedido de encontro feito pelos representantes da sua Câmara de Deputados.

Embora se tivesse prontificado a recebê-los, nem o governo português autorizava o encontro em território nacional – por causa da neutralidade lusa –, nem os Estados Unidos, por razões idênticas, disponibilizava a sua legação ou os seus navios ancorados no Tejo. Tentativas para a reunião ser em Espanha também não resultaram e um regresso a França estava fora de questão.

O objetivo da Câmara dos Deputados era convencer a soberana a regressar, alegando que os alemães estavam a ser muito correctos e que a vida se tinha normalizado. O marido, o seu governo e os diplomatas estrangeiros que Charlotte consultara tinham uma opinião contrária. Será neste contexto que acabou por responder: “o meu coração diz sim, mas a minha razão diz não”.

O fim da administração militar no Luxemburgo e a entrada a 1 de agosto de Gustav Simon, um Gauleiter (governador provincial), viria dar-lhes razão. Ao contrário do que afirmara na véspera da invasão, a Alemanha anexava o Luxemburgo. Se a soberana tivesse ficado, o resultado seria, provavelmente, idêntico.

Pensão Zenith ( anexo) na Rua Belmonte, nº 2.  Monte Estoril. A família Bodson ficou aqui instalada entre 30 de Agosto e 2 de Outubro de 1940
Pensão Zenith ( anexo) na Rua Belmonte, nº 2.  Monte Estoril. A família Bodson ficou aqui instalada entre 30 de Agosto e 2 de Outubro de 1940
©Victor Bodson- Col Aschman-Bodson

A actuação do governo do Gauleiter Simon não deixaria margem para dúvidas. No final de outubro chegava a Lisboa uma mensagem oral (se fosse escrita poria em perigo quem a enviasse) do antigo líder da Câmara de Deputados, Albert Wehrer. “Não há nada a esperar dos alemães. A única salvação do país é a vitória dos aliados e toda a política futura deve ir nesse sentido”. A mensagem já só seria recebida pelo ministro Pierre Krier, o único ainda em Lisboa, por tentar trazer a mulher e a sogra retidas em França.

Impedidos pela neutralidade portuguesa de ter qualquer atuação política, a Grã-Duquesa e os seus ministros vão debater-se com a escolha do país de exílio. Estados Unidos, Canadá ou Reino Unido? Por várias razões, tanto de segurança como económicas, a escolha recairia no Canadá, onde a vida era bastante mais barata do que em Londres ou em Washington. Tendo em conta as dificuldades financeiras, muitos dos que acompanhavam a Grã-Duquesa foram dispensados e regressaram ao Luxemburgo.

Entre eles Jean Peiffer, motorista de Pierre Krier, posteriormente aprisionado e maltratado pelos nazis. Muitos anos mais tarde, por ironia do destino, o filho de Peiffer casaria com uma filha de Sonia Aschman-Bodson.

Os que ficaram precisavam de vistos para o Canadá, o que não era fácil. Enquanto esperavam, a Grã-Duquesa e o ministro Joseph Bech seguiriam a 19 de agosto para Londres, para conversações com os aliados. A 5 de setembro, a soberana faz uma alocução, em luxemburguês, na BBC, na qual protestava contra a anexação do seu país. “Este ’Gauleiter’ entrou na cidade do Luxemburgo à frente da polícia militar alemã. No discurso que então pronunciou proclamou o caráter alemão do povo luxemburguês. Paulatinamente suprimiu o uso da língua francesa, que desde há séculos era a língua oficial do país, impôs o uso do alemão, aboliu a Constituição, retirou a fórmula de fidelidade a Sua Alteza Real a Grã-Duquesa e proibiu os termos Grão-Ducado e país do Luxemburgo”. Teve um enorme impacto.

Porto de Lisboa na despedida de Pierre Dupong a 25 de Setembro de 1940. Da esquerda para a direita: Gilberte Bodson - de Muyser, as filhas Sonia e Mimy, Georgette Bech – Delahaye. De costas para a mãe, Betty Bech
©Victor Bodson - Col. Aschman - Bodson

Cruzando o oceano

No dia seguinte, Bech e a soberana regressavam ao Monte Estoril. A 25 de setembro, vencidas grandes dificuldades para encontrar passagens para a América, embarcaram no Excalibur, rumo a Nova Iorque, a cunhada do príncipe Félix com o seu filho mais velho, Georgette e Betty Bech (mulher e filha do ministro respectivamente) e o casal Dupong. Com eles iam os cães da Grã-Duquesa. Os quatro filhos de Dupong e a cozinheira Suzanne Busch só seguiram dia 2 de outubro no Excambion, juntamente com os Bodson e Charles Bech. Como o navio ia superlotado, não havia camas para todos.

Victor Bodson e o juiz de Paz Peter Elvinger sacrificaram-se, dormindo na morgue do navio. Se o primeiro ainda conseguiu uma cama desmontável, o segundo teve de contentar-se com um caixão que, quando o mar estava picado, deslizava por todo o lado.

No mesmo navio viajaram outros membros da família Bourbon-Parma. O príncipe René, irmão de Zita de Habsburgo e do príncipe Félix, e três dos seus filhos. Conta Sonia Aschman-Bodson que, por brincadeira, ela e a sua irmã Mimy gostavam de chamar, às escondidas, à princesa Anne Antoinette Françoise – que mais tarde casaria com Miguel da Roménia – “Framboise” (a framboesa). Esta, muito compenetrada no seu papel principesco, tinha sempre à sua volta uma tripulação masculina disposta a satisfazer todos os seus pedidos.

Quanto aos príncipes, eram “uns verdadeiros diabos” que só faziam disparates. O mais perigoso foi quando se penduraram em cabos e quais pequenos tarzans “voaram” sobre a amurada, com o risco de caírem à água.

Quanto aos príncipes, eram “uns verdadeiros diabos” que só faziam disparates. O mais perigoso foi quando se penduraram em cabos e quais pequenos tarzans “voaram” sobre a amurada, com o risco de caírem à água.  

Em Lisboa ficava Bech, que depois seguiu para Londres, onde o governo luxemburguês no exílio ficou oficialmente sediado.

Ficava também Krier, ainda à espera da mulher e da sogra (chegariam em dezembro). Durante esse tempo, esteve encarregado de resolver os problemas dos refugiados, nomeadamente dos que em 11 de novembro de 1940 ficaram retidos dez dias em Vilar Formoso, antes de serem recambiados para França.

Finalmente, a 3 de uutubro, a Grã-Duquesa e a sua mãe Maria Ana de Portugal embarcavam em Cabo Ruivo no Yankee Clipper, um dos hidroaviões que faziam a ligação Lisboa-Nova Iorque. Maria Ana de Bragança não voltaria a pisar terra portuguesa nem luxemburguesa, já que morreria no exílio em 1942.

Nas vésperas da partida de Charlotte, e a pedido do próprio, exonerou Manuel Espírito Santo do cargo de cônsul honorário do Luxemburgo em Lisboa, em funções desde 21 de outubro de 1938. Sobre este assunto, escreveria Joseph Bech: “Os motivos que o levaram a pedir a demissão são: demasiado trabalho. Pertencendo, com os seus dois irmãos, a um importante banco [Banco Espírito Santo] que tinha negócios importantes com a Alemanha, temia criar dificuldades ao banco e aos irmãos. Numa palavra: um dos casos típicos do medo que a Alemanha inflige aos portugueses privados ou públicos. M. Espírito Santo prestou-nos grandes serviços desde a nossa chegada aqui, quer à casa soberana, quer ao governo, quer aos refugiados luxemburgueses. Assim teremos de ser indulgentes em relação a certas coisas…”.

O futuro Grão-Duque e o pai são recebidos como heróis pelo povo luxemburguês, em setembro de 1944
O futuro Grão-Duque e o pai são recebidos como heróis pelo povo luxemburguês, em setembro de 1944
Foto: Arquivo Luxemburger Wort

Durante a guerra, a Grã-Duquesa e o marido, embora sediados no Canadá, fariam inúmeras conferências nos Estados Unidos, angariando, assim, fundos para o apoio aos seus concidadãos refugiados. Quanto ao governo no exílio, e apesar das suas famílias terem permanecido no Canadá, os ministros acabariam por se instalar em Londres. Só após o desembarque na Normandia é que as suas famílias se lhes reuniriam.

A 10 de setembro de 1944 começava a libertação do Luxemburgo. O príncipe Félix e o seu filho mais velho, Jean, chegariam pouco depois, bem como os membros do governo. O entendimento deste com a Union, composta pelas forças da Resistência, não seria fácil.

Quanto à Grã-Duquesa, os aliados só dariam luz verde ao seu regresso em abril de 1945. 

Margarida de Magalhães Ramalho

A autora do artigo é investigadora do Instituto de História Contemporânea da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (IHC-FCSH/UNL). Já publicou dezenas de livros na área da História.