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A fortuna de Isabel dos Santos também se construiu no Luxemburgo
Luxemburgo 6 min. 22.01.2020

A fortuna de Isabel dos Santos também se construiu no Luxemburgo

A fortuna de Isabel dos Santos também se construiu no Luxemburgo

Foto: Lusa
Luxemburgo 6 min. 22.01.2020

A fortuna de Isabel dos Santos também se construiu no Luxemburgo

Ricardo J. RODRIGUES
Ricardo J. RODRIGUES
Empresária usou fundos estatais angolanos, um dos países mais pobres do mundo, para adquirir participações na marca de jóias suíça De Grisogono – em parte através de uma empresa de fachada no Luxemburgo. Só nesta jogada, Angola perdeu 120 milhões de dólares (108,2 milhões de euros).

Já a De Grisogono estava em queda livre quando se enviaram os convites para a festa. A marca de jóias pode não ser um nome reconhecível para o leitor comum, mas é uma das mais conceituadas entre as estrelas de cinema. A festa que a companhia suíça organiza todos os anos à margem do Festival de Cinema de Cannes é, aliás, o lugar onde toda a gente quer estar. Em 2017, aconteceu num dos mais caros hotéis da cidade, o Cap-Eden-Roc, e contou com convidados como Leonardo diCaprio, Antonio Banderas ou Naomi Campbell.


Isabel dos Santos já não participa na reunião de Davos
Nome da empresária angolana saiu da lista de participantes do encontro do Fórum Económico e Mundial, depois de investigação jornalística ter revelado milhares de ficheiros que mostram os esquemas financeiros que terá usado para enriquecer.

Os anfitriões do evento eram Isabel dos Santos, filha do antigo presidente angolano, e o seu marido, Sindika Dokolo. Segundo os documentos libertados esta semana pelo Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação (ICIJ) – que em Portugal foram divulgados pelo Expresso e pela SIC, nos Estados Unidos pelo New York Times e no Reino Unido pelo Guardian, numa investigação que está a ser chamada de LuandaLeaks – Dokolo adquiriu a marca de jóias em 2012, com dinheiro da companhia estatal de diamantes angolana, a Sodiam. É um dos muitos negócios suspeitos da mulher mais rica de África, que tem uma fortuna avaliada em dois mil milhões de euros.

Entre os mais de 700 mil documentos que agora vieram a público há fortíssimos indícios de que Dokolo convenceu a angolana Sodiam, que produz alguns dos maiores diamantes do globo, a investir na compra da Di Grisonogo, que os transforma em jóias. Para isso, a Sodiam terá pedido um empréstimo superior a 100 milhões de euros ao BIC, um banco detido parcialmente por... Isabel dos Santos. A taxa de juro foi fixada em 9 por cento, o que garantia uma boa margem de lucro ao BIC.


Isabel dos Santos diz que investigação baseia-se em documentos falsos
A investigação do ICIJ analisou milhares de ficheiros relativos aos negócios de Isabel dos Santos, que ajudam a reconstruir o caminho que a levou a tornar-se a mulher mais rica de África. Empresária diz que informações são falsas e que fugas foram coordenadas com Governo angolano.

Quando foi comprada, a joalheira vivia já um mau momento. Com ações baixas, era um potencial bom negócio, mas também podia entrar numa espiral descendente e nunca recuperar. Para acalmar as eventuais dúvidas da Sodiam foram contratados os serviços de uma consultora baseada nas Ilhas Virgens Britânicas, a Almerk International – que aconselharia os investidores e receberia um prémio caso o negócio se concretizasse. As coisas pareciam bem, avançou-se e a Almerk recebeu o dinheiro. Quem é o dono da consultora? Sindika Dokolo.

Para adquirir a De Grisogono, Dokolo usou uma série de “shell companies”, que em português podem ser traduzidas como empresas de fachada. São companhias inativas, muitas vezes têm apenas um apartado postal e um email – mas nem sequer um número de telefone – que são usadas para fazer operações finaceiras sem deixar rasto. E é aqui que o Luxemburgo entra na história.

Sindika Dokolo investiu o seu dinheiro e o da Sodiam num fundo de investimento maltês chamado Victoria Holding Limited, que depois o movimentou para a recém formada De Grisogono Holding, com morada no Luxemburgo. Foi a partir do Grão-Ducado que o negócio foi feito com os suíços, sendo as ações depois distribuídas por uma outra série de empresas de fachada em Hong Kong, no Reino Unido e em Itália.


Investigação jornalística revela esquemas financeiros de Isabel dos Santos
Entre os esquemas expostos está o da petrolífera Sonangol, que terá permitido à filha do ex-presidente angolano desviar mais de 100 milhões de dólares para o Dubai. Investigação mostra também o envolvimento de vários portugueses.

Curiosamente, a Sodiam investiu na joalheira, mas não tinha qualquer voz nas decisões da empresa. E, se a folha de despesas aumentou, a de receitas nunca subiu. Renovaram-se as luxuosas lojas da marca em Londres, organizaram-se festas esplêndidas na Riviera francesa, enquanto as lojas de Las Vegas e Saint Moritz atingiam mínimos históricos. Em agosto de 2017, meses depois da noite opulenta em Cannes, aconteceria algo que mudaria todas as peças do tabuleiro.

Ao fim de 38 anos na presidência de Angola, José Eduardo dos Santos cedia finalmente a cadeira. Nos anos anteriores, o chefe de Estado tinha assinado vários decretos que permitiram às empresas da filha a aquisição de ações em alguns dos mais importantes negócios do Estado. O New York Times põe as coisas nestes termos: “Isabel tornava-se parcialmente dona do maior banco do país, da sua maior empresa de telecomunicações, da maior empresa de cimentos e da maior exportadora de diamantes, ao mesmo tempo que criava uma parceria com o gigante petrolífero estatal [a Sonangol] para comprar a maior empresa petrolífera portuguesa [a Galp]”. Mas agora as coisas pareciam estar a mudar.

Já depois da subida de João Lourenço ao poder, a Sodiam decidiu retirar-se completamente do negócio da De Grisogono, alegando “motivos de interesse público”. O novo presidente da diamantífera, Eugénio Pereira Bravo da Rosa, admitiria em 2018 que, com os juros, o empréstimo ao banco de Isabel dos Santos ascendia já a 200 milhões de dólares [180 milhões de euros] – dinheiro pago pelos contribuintes angolanos. “Não ganhámos um único centavo com este negócio”, responderia agora aos investigadores do ICIJ. “Se corrupção é usar influência política para obter vantagens, então acho que foi isto que aconteceu aqui.”

Angola, recorde-se, é um país onde um terço da população vive com menos de um euro por dia – ou seja, em pobreza extrema. É também, como dizia em 2015 o colunista Nicholas Kristof no New York Times, “o país mais mortífero para miúdos que existe no planeta”: mais de um quarto das crianças estão subnutridas, uma em cada seis crianças morre antes de completar cinco anos, uma em cada 35 mães morre durante o parto. Metade da população não tem acesso a cuidados de saúde, um quarto é analfabeta. O dinheiro que a mulher mais rica de África e o seu marido desviaram do erário público teria seguramente melhor uso.


Ggeorges Chikoti é o novo embaixador de Angola no Luxemburgo e em Bruxelas.
Georges Chikoti, embaixador de Angola. “Quero trabalhar com os empresários luxemburgueses”
O último ministro angolano das Relações Exteriores da presidência de José Eduardo dos Santos é agora embaixador de Angola em Bruxelas e no Luxemburgo. Georges Chikoti diz que quer trabalhar com os empresários luxemburgueses. O diplomata fala ainda sobre os problemas da comunidade no Grão-Ducado e a transição do poder em Angola.

Dos Santos e Dokolo têm estado quase sempre calados desde que o escândalo rebentou no passado domingo. Mas disseram duas coisas. A primeira é que consideram a libertação de 700 mil documentos ao mesmo tempo a prova de que existe uma “caça às bruxas” em marcha. A segunda é que Dokolo afirma que não só não ganhou dinheiro no negócio da De Grisogono como perdeu 103,7 milhões de euros.

De facto, entre os documentos libertados pelo ICIJ e que o Guardian já analisou, não há registo de transferências da De Grisogono para as outras empresas do casal. Mas o Ministério Público angolano acusa-os de terem adquirido a preço meramente simbólico um colar com um diamante de 163.41 quilates, avaliado em 30 milhões de euros – alegamente uma cortesia da Sodiam pelo papel de Dokolo na compra da marca de jóias suíça, também ela lesiva para o Estado. Os advogados da família negaram que alguma vez tenham sido beneficiados.

A De Grisogono é uma das pontas do iceberg. Para contar a história da fortuna da mulher mais rica de África é preciso analisar as mais de 400 empresas de que ela e o marido são proprietários – e este caso não envolve mais de meia dúzia, uma das quais no Luxemburgo. Neste momento levanta-se outra questão, a da cumplicidade das consultoras europeias e americanas neste processo. Esta semana, o jornalismo cumpriu a sua missão. E mostrou que um rei, ou uma rainha, vai nu.


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