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A estatística é a minha prima
Editorial Luxemburgo 4 min. 21.12.2018 Do nosso arquivo online

A estatística é a minha prima

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Editorial Luxemburgo 4 min. 21.12.2018 Do nosso arquivo online

A estatística é a minha prima

Paula TELO ALVES
Paula TELO ALVES
Culpar 90% dos alunos portugueses pela incapacidade de chegar ao pódio é uma forma barata de dar palmadinhas no próprio ego, ainda que as evidências apontem para o contrário, e seja o próprio ministro da Educação a fazer "mea culpa" e a prometer soluções.

Se uma notícia lhe disser que a esperança média de vida no Luxemburgo ronda os 82 anos, e tiver dois minutos para escrever um comentário, o que lhe ocorre dizer?

a) A vida é demasiado curta.

b) A vida é demasiado longa.

c) Tenho um tio em Pétange que já passou dos 85 e está são como um pêro, essas estatísticas são falsas.

Se respondeu a) e b), está a dar a sua opinião. Se respondeu c), está a meter os pés pelas mãos, e a confundir opinião com os comezinhos factos. O facto de o seu tio, deus lhe dê saúde, estar vivo aos 85, três anos para lá do limite que os habitantes do Luxemburgo podem, em média, esperar viver, de acordo com as estatísticas sobre longevidade, não põe em causa esses mesmos dados.

Parece uma evidência, mas há muito quem prefira a hipótese c) sempre que se noticiam dados oficiais, e no Luxemburgo isso acontece  com frequência. Publicam-se notícias sobre atrasos crónicos na emissão de documentos para obter a reforma, com testemunhos de imigrantes devidamente identificados, à espera há um, dois, cinco, 11 anos, e haverá sempre alguém para afiançar: "Eu consegui os meus papéis num mês. Essas pessoas não pedem os documentos a horas / não vão aos sítios certos / só podem estar a mentir [riscar o que não interessa]". 

Acontece o mesmo sempre que o jornal escreve sobre mobilidade social e educação no Luxemburgo. No Grão-Ducado, dados do Ministério da Educação Nacional mostram há anos uma realidade que parece imutável: só um em cada dez portugueses chega ao Clássico, o ramo mais elitista do ensino secundário, contra metade dos luxemburgueses. A esmagadora maioria dos alunos portugueses - nove em cada dez - acaba no ensino técnico ou no modular, agora rebatizado preparatório. São dados de fonte oficial, o Ministério da Educação do Luxemburgo, que este ano mandatou o Luxembourg Centre for Educational Testing (LUCET), um organismo público da Universidade do Luxemburgo, para avaliar o ensino no país. O LUCET conclui que o ensino no Luxemburgo "mantém uma certa constância na discriminação de grupos de risco", apontando os estrangeiros, em particular os alunos lusófonos, e as crianças com baixo estatuto sócio-económico.

Apesar disso, em comentário às notícias, há leitores que repetem variantes da hipótese c): "Não concordo, porque a minha filha / prima / eu própria [riscar o que não interessa] conseguiu ir para o clássico". A partir daí, não há possibilidade de diálogo que resista. Há quem salte para o passo ilógico seguinte, que é dizer que elas próprias / a amiga / a prima [riscar o que não interessa] conseguiram chegar ao Clássico porque se esforçaram / estudaram / têm pais dedicados e interessados, sendo que os outros 90% deverão, presume-se, ser irredimíveis calaceiros / deficientes mentais / com pais a quem deveria ser retirada a tutela.

Este excecionalismo português que se encontra em comentários recorrentes é tão absurdo como alguém negar a evidência da morte, só porque ele próprio, afinal, está vivo. Mas talvez sirva um propósito que não tem nada a ver com a lógica: denegrir os outros, culpando 90% dos alunos portugueses pela incapacidade de chegar ao pódio, é uma forma barata de dar palmadinhas no próprio ego, ainda que as evidências, mais uma vez, apontem para o contrário, e seja o próprio ministro da Educação a fazer "mea culpa" e a prometer soluções.  

Diz-se que o jornalismo está em crise, mas talvez a crise de incredulidade que se deduz de alguns comentários vá para além do que é razoável imputar ao jornalismo. O jornalismo tem a missão de informar, ouvindo vários pontos de vista, relatando com rigor os factos. E se há dúvidas sobre esses factos, há que consultar as fontes, em vez de recusar olhar para além do próprio umbigo. O Relatório Nacional da Educação está aliás disponível na internet, em francês e alemão, e pode ser consultado por todos na página do LUCET, que tem uma frase em epígrafe que remata bem esta questão: "Without data, you’re just another person with an opinion” (sem dados, você é apenas mais uma pessoa com uma opinião). E se é verdade que todos temos direito à nossa opinião, como diz outra frase famosa, ninguém tem direito aos seus próprios factos.


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