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A escola prática de Francisco Pinto Balsemão

  • A escola do Diário Popular
  • A influência de Adriano Moreira, Mário Soares e Marcello Caetano
  • A fundação do Expresso
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A escola prática de Francisco Pinto Balsemão

A escola prática de Francisco Pinto Balsemão
Biografia

A escola prática de Francisco Pinto Balsemão


por Diogo RAMADA CURTO/ 24.09.2021

O ex-primeiro-ministro, Francisco Pinto Balsemão, intervém durante a cerimónia de comemoração dos 40 anos da tomada de posse do VII Governo Constitucional da Democracia Portuguesa, no Palácio de São Bento.LUSA

A biografia do homem que mudou o rumo da comunicação social em Portugal, pelo olhar do historiador Diogo Ramada Curto.

 

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A escola do Diário Popular
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A “escola prática” onde Francisco Pinto Balsemão aprendeu política e muitas outras coisas foi o Diário Popular. Claro que existiram experiências anteriores, como as que se sucederam na Faculdade de Direito, na Força Aérea e nos dez meses no Ministério da Saúde. Porém, a entrada no mundo do trabalho, dos negócios e da política foi feita naquele jornal vespertino, de que o seu tio e o seu pai eram accionistas principais.   

Em 1963, quando contava 25 anos de idade, ingressou no jornal, que fora criado em 1942. De início, na qualidade de secretário da redacção, depois, até à venda do jornal em Janeiro de 1971, dobrou-se de jornalista e chegou a administrador. O director do jornal, Martinho Nobre de Melo, catedrático da Faculdade de Direito de Lisboa e um dos teóricos do corporativismo, servia de escudo protector do regime salazarista, mas primava pela ausência. Balsemão percebeu cedo quais as frentes de combate que tinha diante de si: primeiro, competia-lhe ganhar a confiança do director; depois, era necessário conquistar a redacção, composta por 40 a 50 jornalistas, divididos politicamente; por último, tinha de saber defender os interesses de família face a um outro administrador, Brás de Medeiros, com ligações ao futebol.     

Em jeito de balanço de vida, Balsemão descreve os seus contributos, no sentido de melhorar o jornal: divisão da redacção em secções; criação de uma rede de colaboradores; com tiragens crescentes e uma afirmação bem popular, ensaiou algumas tentativas destinadas a “puxar para cima” o jornal, foi o caso do Suplemento Literário, onde veio a conhecer e a admirar Agustina, Vieira da Silva e Ruben A.; patrocínio de grandes reportagens, como a que empreendeu nos Estados Unidos ou a que incidiu sobre o baile  de Antenor Patiño; convites para a entrada de mulheres no jornalismo, como sucedeu com Maria Antónia Palla; e, muitas outras iniciativas, tal como a da recuperação do concurso de Miss de Portugal, que desafiava as convenções ridículas de Salazar sobre fatos de banho, numa época em que o turismo se desenvolvia a olhos vistos. 

Quanto às questões políticas, propriamente ditas, a aprendizagem do Diário Popular revelou dois aspectos interligados. Por um lado, o dia-a-dia do jornal, feito no contacto directo com os jornalistas (cujos nomes, características e orientações políticas são objecto de uma cuidadosa descrição), fez com que tomasse “consciência de que existia um muro intransponível chamado Censura” (pp. 135, 147). Uma tal constatação levou-o a querer ir mais longe e a acreditar que a luta pela liberdade de informação fazia parte de um combate maior por todas as “outras liberdades, pela democracia e, portanto, pela mudança de Regime” (pp. 136, 148). 

Por outro lado, Balsemão explica por que razão o jornal não terá dado a devida cobertura à questão ultramarina. Considera, então, reiterando uma opinião que é a todos os títulos consensual entre investigadores, que a Censura exercia sobre todas as notícias da Guerra Colonial um apertado controlo, em comparação com as que diziam respeito a quaisquer outros temas da actualidade. E acrescenta, de forma discutível e em contradição com o factor explicativo anterior, que existia, na década de 1960, um consenso mais alargado sobre o que se passava em África, não se encontrando ainda disseminada em Portugal uma visão anti-imperial, tal como veio a suceder nos anos 70.  


Adriano Moreira na sua intervenção na apresentação do seu livro "A Nossa Época - Salvar a Esperança" esta tarde na Academia das Ciências de Lisboa em Lisboa.
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A influência de Adriano Moreira, Mário Soares e Marcello Caetano
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Adriano Moreira na sua intervenção na apresentação do seu livro "A Nossa Época - Salvar a Esperança" esta tarde na Academia das Ciências de Lisboa em Lisboa.
LUSA

 A primeira politização de Balsemão, na auto-representação que constrói ao longo das suas Memórias, não se limita à sua participação no Diário Popular. Ela vive da memória dos contactos que estabeleceu com outros políticos, que estiveram, em determinada altura das suas vidas, no centro de processos de tomada de decisão. Foi o que sucedeu, durante a década de 60, nas relações que estabeleceu com três figuras a que atribui papel de relevo: Adriano Moreira, Mário Soares e Marcello Caetano. 

No que respeita ao primeiro, com quem travou conhecimento, desde que o entrevistou para a revista da Força Aérea, Mais Alto, as observações são genéricas. O seu papel na condução de reformas e, sobretudo, no suscitar de uma ideologia lusotropicalista de integração e de representação do colonialismo português como algo de excepcional, culmina com a ideia de que a mesma ideologia, valorizadora da cultura e língua portuguesas, veio a inspirar a criação da CPLP. Ao reformismo de Moreira, Balsemão faz suceder a sua influência em tempos de democracia, reconhecendo muito simplesmente que a lusofonia badalada em tempos pós-coloniais é o prolongamento de uma ideologia colonial.

Discordo dessa leitura, que se baseia na própria imagem que de si próprio Moreira forjou, mas não posso deixar de admitir que a mesma carapuça foi recentemente enfiada por um historiador de ofício, num exercício que pretende ser de análise e síntese histórica (que nada tem que ver com o registo mais pessoal próprio da escrita de memórias). Refiro-me a um artigo, em modo comemorativo, de Pedro Aires de Oliveira, onde se faz o elogio declarado do reformismo de Adriano Moreira (Público, 12-9-21). É que sempre que a auto-representação ardilosa de Moreira é reproduzida não só se fica com uma imagem mítica do passado, mas também, ao pôr-se o foco no seu presumido pacifismo reformista, deixa-se na sombra o papel dos militares e combatentes, remetendo-os para a responsabilidade no uso da força e da violência.     

Em relação a Mário Soares, que conheceu em 1968, depois do exílio em S. Tomé de cerca de oito meses, Balsemão confessa a sua solidariedade e o modo como o seu exemplo contribuiu para a sua própria politização. Mas foi a figura de Marcello Caetano que mais influência teve na sua politização. No clima da Primavera Marcelista, quando se pensava numa transição para a democracia, sem necessidade de se passar por uma revolução, Balsemão viu com bons olhos o convite para integrar como independente as listas eleitorais da União Nacional. Passou, então, a fazer parte da denominada Ala Liberal na Assembleia Nacional, entre 1969 e 1973.        


Francisco Pinto Balsemão: Uma lição de coerência e transparência
Coerência, transparência e humildade, são algumas das virtudes reveladas por Francisco Balsemão nas suas memórias. Qualidades que faltam na política portuguesa considera o historiador Diogo Ramada Curto na crítica que faz à biografia que é hoje apresentada publicamente em Lisboa.

Do ponto de vista de quem escreve umas memórias, onde se cruzam aspectos da vida privada, com amizades, impressões sobre conhecidos e dimensões relativas à esfera pública, dos negócios e da política, a primeira esfera é sempre a mais delicada. Porém, reconheça-se que há da parte de Balsemão uma extrema sensibilidade e transparência em saber reconhecer o fim de um primeiro casamento (1964-1971), do qual teve dois filhos, seguido de um curto período, conturbado do ponto de vista afectivo, mas que terminou com um segundo casamento que dura até hoje, perfazendo meio século. Uma mudança  que corresponde, por sua vez: à sua participação na Ala Liberal, onde veio a ter dissabores tanto com colegas, como com o próprio Marcello Caetano, que se mostrou sempre receoso de enveredar por uma via reformista, sobretudo no que respeitava aos direitos de liberdade de expressão; ao processo de venda do Diário Popular(Janeiro de 1971), o qual se afigura indissociável de um processo mais generalizado de compra de jornais e editoras por parte de grupos económicos e de bancos; e, por último, ao projecto de criação do semanário Expresso, cujo primeiro número saiu em Janeiro de 1973.

Bem interessante se afigura a ideia de que a Ala Liberal, que integrou outras figuras de relevo como Miller Guerra ou Sá Carneiro, interessadas numa espécie de terceira via, se caracterizou por um extremo individualismo, logo, por uma falta de unidade ou coesão. Deste individualismo e falta de coordenação, é bem revelador o episódio de Sá Carneiro que um dia lhe mostrou, já prontos, dois projectos de lei sobre o direito à reunião e à associação, pretendendo que Balsemão os subscrevesse de imediato, sem sequer lhe dar tempo para os ler (p. 201).  Em contrapartida com essa falta de coordenação e de sentido de grupo, o Expresso surgiu, na opinião de Balsemão, como um projecto “que foi um factor de coesão dessa terceira via” (p. 202).  

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A fundação do Expresso
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Do relato sobre a criação e o funcionamento inicial do Expresso, não estão ausentes duas farpas em Marcelo Rebelo de Sousa – sem “talento para gestor” e armado em enfant terrible quando pôs, irresponsavelmente, em risco a relação cordial que se procurava manter com a Censura (pp. 222, 235). Mas o mais importante são as questões de fundo cujo elenco consta do editorial da autoria de Balsemão, escrito no final do primeiro ano de vida do semanário. Por parte de quem tanto presava a liberdade, o objectivo consistiu sempre em tornar viável, económica e empresarialmente, a produção de um semanário que se transformou, rapidamente, na principal arena de um espaço público e de uma sociedade civil em trânsito para a democracia.

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa (E), conversa com Francisco Pinto Balsemão, durante a sessão de apresentação do projeto “Círculo de Inovação.
O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa (E), conversa com Francisco Pinto Balsemão, durante a sessão de apresentação do projeto “Círculo de Inovação.
LUSA

A esse respeito, não se esqueça que a maior parte dos órgãos de comunicação eram propriedade de grandes grupos económicos (pp. 212-213, 243). Conforme explicou, recentemente, Mário Matos e Lemos: “Marcello Caetano procurou que os bancos comprassem esses jornais” para quebrar a sua atitude hostil ao Estado Novo (“Para uma história da imprensa diária portuguesa no século XX”, in Idem, Jornais diários portugueses do século XX. Um dicionário, 2.ª ed., Imprensa da Universidade de Coimbra, 2020, p. 85). Assim sendo, sobravam poucos jornais que não estivessem enfeudados ao poder político-económico: o Diário de Lisboa e a República, os jornais desportivos, o Jornal do Fundão, o Comércio do Funchal e o Notícias da Amadora

Tal como Balsemão escreveu no editorial quando o Expresso fez um ano de vida, eram muitos os inimigos do êxito alheio. Mas o certo é que o jornal tinha adquirido junto dos seus leitores os meios necessários para prosseguir de modo livre e independente, sem se ter de submeter a nenhum grupo económico, nem tão-pouco ter de se vergar ao controlo do poder político (pp. 242-245). 

Neste sentido se compreende a satisfação com que, num artigo a todos os títulos raro e excepcional, Balsemão tivesse feito passar uma mensagem em que punha em causa a Guerra Colonial: não havia solução militar para o problema do Ultramar, por isso, sem se descortinar um desfecho, ao fim de treze anos de guerra, a única certeza era a do custo da guerra que não só desviava, como impedia que outros investimentos fossem feitos na educação, saúde e infraestruturas. Isto é, a guerra, ao impedir uma solução pacífica, hipotecava a modernização do país.

Enfim, a argumentação de Balsemão em relação à guerra não era muito diferente do que conhecia bem à escala do funcionamento do seu jornal. Isto é, da mesma forma que, para manter um jornal livre e independente, era preciso assegurar a sua viabilidade económica e empresarial, também, para criar as condições necessárias para a transição para uma sociedade livre e democrática, era necessário suscitar o desenvolvimento económico e os investimentos públicos destinados à criação de um Estado social. Em suma, sem desenvolvimento não poderia haver democracia, da mesma maneira que, se o Expresso não fosse rentável economicamente, nunca poderia ser um órgão de comunicação livre e independente. 

    

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