Escolha as suas informações

A dificuldade de encontrar cravos vermelhos no Luxemburgo
Opinião Luxemburgo 3 min. 30.04.2022
A fava

A dificuldade de encontrar cravos vermelhos no Luxemburgo

A fava

A dificuldade de encontrar cravos vermelhos no Luxemburgo

Foto: Patrícia de Melo Moreira/AFP
Opinião Luxemburgo 3 min. 30.04.2022
A fava

A dificuldade de encontrar cravos vermelhos no Luxemburgo

Ricardo J. RODRIGUES
Ricardo J. RODRIGUES
Se falamos de Portugal, tenho mais orgulho nos Cravos do que nos Descobrimentos.

(Grande Repórter)

Pelo terceiro ano consecutivo, passei o 25 de Abril no Luxemburgo. Ficar no centro da Europa é uma decisão difícil para mim neste dia – durante anos desci a Avenida da Liberdade em Lisboa, envergando orgulhosamente um cravo vermelho na lapela, emocionando-me com toda a gente, tanta gente, que ia estrada abaixo comigo. 

Na minha vida vi países serem libertados, lobos serem devolvidos à natureza, minorias alcançarem direitos inimagináveis. E isto eu sei: a conquista da liberdade é o maior espetáculo do mundo.

O 25 de Abril não é da esquerda nem da direita, é de Portugal. E isso significa que também é de milhares de portugueses que fugiram da guerra, da miséria e da ditadura para se instalar no Luxemburgo.

Tinha 15 anos quando comecei a celebrar precisamente isso. Chega Abril e eu sinto um batimento no peito, uma alegria pela mais bela revolução que o mundo teve. Se falamos de Portugal, tenho mais orgulho nos Cravos do que nos Descobrimentos. 

É certo que achámos metade do mundo, é extraordinário que nos tenhamos posto em caravelas que viravam a cada tempestade, que tenhamos ido ver nelas o que os mapas não mostravam. Mas terminar uma ditadura de quase cinco décadas enfiando flores nas carabinas faz-me estremecer. Uma coisa é fazer a estrada que ninguém conheceu, outra é percorrer o caminho que toda a gente sabe e mudar-lhe as curvas.

O 25 de Abril não é da esquerda nem da direita, é de Portugal. E isso significa que também é de milhares de portugueses que fugiram da guerra, da miséria e da ditadura para se instalar no Luxemburgo. Aos saudosistas do antigo regime não posso apresentar senão factos. Da educação que não tiveram, da fome que passaram, dos irmãos que morreram em África. Nenhum indicador mostra que o meu país estava melhor antes dos cravos. Nenhum. Nem as contas, nem o crime, nem o respeito – como tanta gente teima em dizer.

Eu, que sou jornalista, não poderia nunca fazer o meu trabalho em ditadura. E, mesmo que já tenha nascido depois da revolução, devo-lhe a paixão da minha vida. É por isso que todos os anos, desde que tenho 15, faço questão de ir descer a avenida no dia em que se celebra a democracia. 

Acho extraordinário que um grupo de militares tenha deposto uma ditadura e decidido entregar o poder ao povo. A história do mundo raras vezes nos ofereceu semelhante poesia. Tivemos cravos, em vez de munições, nos canos das espingardas. E tanto que eu gostava de ver a Europa disparar hoje flores no lugar de balas.

Na última semana, tentei comprar cravos vermelhos em várias floristas do Luxemburgo. Fui a supermercados e casas especializadas, tentei fazer encomendas com antecipação, expliquei a história do dia inicial, inteiro e limpo para comover os meus interlocutores. Mas, na manhã de 25 de Abril, percebi o meu falhanço. Podia comprar rosas ou orquídeas, tulipas ou jacintos, mas nenhum cravo vermelho.

Nessa noite, no entanto, jantei em casa de uma amiga que fizera incursão semelhante à minha pelas flores. Ligou-me, entusiasmada, e disse que as tinha encontrado. Fomos comer a casa dela, e admirámos um ramo inteiro. Eram dez, orgulhosos e abertos, como Portugal se tornou há 48 anos. No fim da noite peguei num e espetei-o na lapela. E, mesmo antes de entrar em casa, pensei que faltam flores ao Luxemburgo, e estas em particular. Flores que nos celebrem a vida e a dignidade. Viva o país que nos fizemos depois deste dia, bem feitas as contas. Vivam os cravos. Viva a liberdade.

Siga-nos no Facebook, Twitter e receba as nossas newsletters diárias.