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A crise de habitação é um travão para a emancipação das mulheres
Opinião Luxemburgo 5 min. 10.10.2020

A crise de habitação é um travão para a emancipação das mulheres

A crise de habitação é um travão para a emancipação das mulheres

Foto: Pierre Matgé
Opinião Luxemburgo 5 min. 10.10.2020

A crise de habitação é um travão para a emancipação das mulheres

No dia em que dezenas de organizações promovem uma manifestação nacional pelo direito à habitação digna e acessível, é preciso não esquecer que o problema da habitação também é um problema de mulheres. Uma crónica de Jessica Lopes.

Lá estávamos nós sentadas nas escadinhas da Achada na Mouraria, dois anos após eu ter saído de Lisboa, a coscuvilhar, tal como costumávamos fazer. Recordávamos com nostalgia todas as pessoas que por esta altura já deixaram de viver na cidade e os bons momentos que tivemos quando ainda lá estávamos todos. Muitos saíram de Lisboa nestes últimos anos para procurar oportunidades no estrangeiro ou simplesmente decidiram substituir a capital por lugares mais acessíveis em Portugal. Enquanto passamos em revista ao pessoal todo, fala-se sobre um casal amigo em tom de brincadeira: "Já vai algum tempo que esses dois não se podem ver à frente, mas para onde é que ela vai agora? Conforme estão as coisas não consegue pagar renda sozinha. Volta para os pais?”. Com um sorriso, tento esconder um certo embaraço. Parece quase uma indireta: também eu  estou perto dos trinta e depois de trabalho e estudos no estrangeiro voltei para o Luxemburgo, para a casa da minha mãe.

As coisas podem parecer mais fáceis no Luxemburgo, com um ordenado mínimo três vezes superior ao de Portugal, mas na realidade, a crise da habitação cá também está dramática. A habitação é a principal despesa para os residentes e também é sem duvida a sua preocupação número um . Apesar do lançamento de alguns programas de habitação de baixo custo, nada é realmente feito para travar a especulação imobiliária e o aumento exponencial dos preços da habitação nos últimos anos. O Eurostat revela esta semana que, entre o segundo trimestre de 2019 e o segundo trimestre de 2020, os preços subiram 13,3% no Luxemburgo e isso no meio da pandemia. Este aumento louco dos preços obriga muitos residentes a fugir do Grão-Ducado e irem viver perto das fronteiras, mas também afeta desproporcionalmente as mulheres.

Como uma crise de habitação, que parece ser uma crise generalizada, que nos toca quase todos, independentemente do género, afeta mais as mulheres que os homens? Como é que sentadas nestas escadinhas em pleno “gossip” acabamos à volta destas perguntas sérias: Até que ponto é que a crise de habitação nos impede de sermos realmente livres enquanto mulheres?

É um problema de mulheres, principalmente pelo facto das mulheres ganharam menos que os homens. Essas teimosas desigualdades salariais persistem embora em teoria a igualdade salarial tenha sido consagrada no Código do Trabalho desde 1974 no Luxemburgo. As mulheres ganham em média 5,5% menos que os homens pelo mesmo trabalho e a diferença é de 43% na reforma. Também há seis vezes mais mulheres a ter contratos a tempo parcial que homens. As mulheres ganham menos, pelo que pagam mais, proporcionalmente, em renda. A situação é ainda mais crítica para as mulheres jovens, idosas, imigrantes, negras, em situação irregular, mães solteiras e mulheres com deficiência que, para além de gastarem enormes proporções dos seus rendimentos em habitação, enfrentam situações de discriminação constante na procura de casa.

Esse risco de precariedade faz que inúmeras mulheres tenham que comprometer a sua independência e tenham de ficar em situações que talvez já não as fazem felizes ou até as põe em perigo. Nos casos mais extremos, a escolha é entre a violência e a pobreza. Em 2019, no Luxemburgo, a polícia teve de intervir 849 vezes em resposta à violência doméstica. 110 vezes mais que no ano anterior. Em 64% dos casos, a vítima de violência é uma mulher. Embora ainda não haja números para o ilustrar, sabemos que o confinamento é uma situação de risco para as vítimas de violência doméstica e que esses números serão provavelmente ainda mais elevados para o ano 2020. Sabemos, também , que na grande maioria das vezes não há queixas.

Uma habitação digna também se torna cada vez mais uma condição para poder trabalhar. Faz-me pensar no que escrevia Virgina Woolf no seu ensaio “A room of one’s own”: “Uma mulher precisa ter dinheiro e um teto só para si, um espaço próprio, para poder escrever.” A autora reflete sobre a falta de tempo, de educação, mas também de espaço físico para as mulheres poderem ter condições iguais aos homens para escrever. Hoje, num mundo cada vez mais virado para o teletrabalho isso continua relevante e não só para mulheres que escrevem ficção, mas para todas as mulheres que tem de ter um espaço adequado para pensar e trabalhar. Conhecemos todos esses casais, em que o marido tem o trabalho importante e por consequência um quarto fechado para poder trabalhar. Nem sempre sobra espaço para as mulheres que também fazem em média quatro vezes mais trabalho doméstico e continuam mais envolvidas na educação dos filhos. O trabalho dentro de casa esbateu as fronteiras entre a vida privada e profissional, tendo assim um impacto negativo nas carreiras de muitas mulheres.

Este sábado no Luxemburgo, dezenas de organizações apelam a manifestar nas ruas da capital pelo direito a habitação com preços acessíveis. Sem duvida uma luta de mulheres. Já de regresso das férias e longe das minhas amigas, lá vou marchar, com a nossa conversa na cabeça, tendo a esperança que também eu, em breve, tenha um teto só para mim.

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