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“A canábis é toda a minha vida”

“A canábis é toda a minha vida”

“A canábis é toda a minha vida”

“A canábis é toda a minha vida”


por Sophie WIESSLER/ 22.06.2019

Foto: Lex Kleren

No momento em que o Governo estuda a entrada em vigor de uma legislação que legalize o uso do canábis recreativo para todos os residentes no Luxemburgo, existe já há mais de 20 anos um produtor desta planta especial no norte do país. Aqui fica o relato da aventura deste homem, Norbert Eilenbecker, com duas décadas de ligação a esta plantinha “milagrosa”.

Perto de Kalborn é quase impossível ver; no entanto, é aqui, na parte mais norte do Luxemburgo, que 14 hectares de cânhamo se estendem até a perder de vista, neste pequeno recanto da comuna de Clervaux. Há cerca de 23 anos que Norbert Eilenbecker cultiva esta planta com amor, mas sobretudo com paixão.

“Estou fascinado por ela”, confessa-nos depois da nossa chegada aos seus campos, de um verde muito vivo. Este antigo produtor leiteiro trocou rapidamente as vacas pelas flores e as plantas; um só traço do seu passado é visível: um estábulo que ele assinala com um gesto vivo, quando anda na sua labuta.

Foto: Chris Karaba

Depois de duas décadas, quase uma vida, que o seu trabalho é à volta do cânhamo industrial. A sua descoberta data de 1996, altura em que a lei luxemburguesa passou a autorizar a exploração desta planta: Norbert procurava, nesse momento, um projeto inovador e decidiu lançar-se, primeiro com um só hectare, e depois com doze.

“Éramos os únicos na época a interessar-nos pelo CBD [canabidiol]”, explica.

Nada de ilegal neste trabalho: o cânhamo industrial explorado por este agricultor serve para produzir óleos, chá e até mostarda. E não ultrapassa o limite europeu de 0,3% , fixado pela União Europeia, da taxa de tetraidrocanabinol, conhecido por “THC”, a molécula responsável pelos efeitos psicadélicos da planta. 

Norbert, com o seu sócio André Steinmetz, cria a empresa Cannad'Our que oferece uma série de produtos feitos com base no cânhamo. “Pode fazer-se tanta coisa com esta planta, é completamente criminoso não a aproveitar”, defende. Ele próprio consome a planta para controlar as dores da artrose quem tem no ombro.

Se é verdade que este homem com uma certa idade não se parece a Walter White, as máquinas que o rodeiam dão a ambiência de estarmos mesmo no “Breaking Bad”: ouvem-se assobios, quando numerosos líquidos se misturam, numa sinfonia de tubos de ensaios e outros recetáculos, todos colocados para extrair do cânhamo aquilo que tem de melhor. 

A colheita é feita em setembro, mas Norbert tem à sua disposição a matéria-prima durante todo o ano, conservada com uma boa temperatura, quer dizer com 6% de humidade no máximo. No total, 15 pessoas são necessárias para fazer uma colheita. “Tudo o que produzimos vem diretamente dos nossos campos. É uma produção 100% local”, proclama com orgulho Norbert. 

Mas todo este trabalho vale a pena, o cultivador assegura que esta planta é “mágica”. Segundo ele, “mais de 40 doenças podem ser tratadas com a ajuda do canábis”.

Reumatismo, depressões e até a doença de Parkinson, podem ser bastante aliviadas com a toma de CBD. Uma situação que o governo luxemburguês não discute de momento, mesmo havendo já 250 médicos do Grão-Ducado que podem receitar canábis aos seus doentes, desde o mês de janeiro deste ano. 

A reputação de Norbert Eilenbecker e do seu sócio André Steinmetz está estabelecida. Muitos são os clientes que vêm do estrangeiro para comprar a canábis em Kalborn: os belgas, os alemães são os mais entusiastas e os produtores asseguram mesmo a expedição da mercadoria pelo correio.

Com o projeto de legalização do governo a zona de cultura destes homens poderá crescer. Um mercado potencial que poderá atrair novos produtores. Uma concorrência que não faz medo a este antigo leiteiro.

Foto: Lex Kleren

Atualmente, quando mais de 34 lojas de CBD tem as portas abertas no Luxemburgo, a empresa Cannad'Our tem, só ela, mais de 3.000 clientes. “É sobretudo um crescimento feito boca a boca, nós não fazemos publicidade. Muitas famílias da região vêm aqui comprar produtos para se tratar”, conta.

Alguns curiosos já se aventuraram também nos campos de cultivo. “Tive já várias vezes de jovens que vinham roubar plantas para fazer charros. Isso diverte-me, e deixo-os fazer isso”.

Enquanto Étienne Schneider e Félix Braz viajaram, no maio passado, para o Canadá, para terem uma ideia de como funcionava o modelo local de consumo da canábis legalizada, o produtor luxemburguês histórico desta planta continua perplexo sobre como será a nova legislação.

Não por uma questão política, mas por questões concretas: “Trabalhamos muitos anos com o Ministério da Saúde. Enviamos os nossos produtos para os seus laboratórios para serem analisados, mas eles não nos pediram a nós para fornecer a canábis a nível local”, entristece-se o produtor de Kalborn.

Um protesto ao governo quando este importa canábis medicinal do outro lado do Oceano? Uma coisa é certa, o cultivador lamenta particularmente esta decisão. “Falamos com Étienne Schneider há cinco meses, desde essa altura que aguardamos respostas [as nossas questões]”, informa.

Sophie Wiessler (texto) e Christophe Olinger (Vídeo)

O artigo original foi publicado em francês no Luxemburger Wort

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