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A beleza dos bairros de má fama
Opinião Luxemburgo 3 min. 14.05.2022
A fava

A beleza dos bairros de má fama

A rue de Strasbourg é um caldeirão para a diversidade.
A fava

A beleza dos bairros de má fama

A rue de Strasbourg é um caldeirão para a diversidade.
Foto: AP
Opinião Luxemburgo 3 min. 14.05.2022
A fava

A beleza dos bairros de má fama

Ricardo J. RODRIGUES
Ricardo J. RODRIGUES
O Quartier de la Gare é o bairro de pior fama da capital, mas também é o mais cosmopolita, aquele onde o Luxemburgo se faz realmente cidade.

Além do Casal Ventoso, o bairro de pior fama que existia em Lisboa era o Intendente. Supermercado de droga, campo fértil de prostituição, a morada certificada da ralé, do bas-fond e dos que estavam perdidos para sempre. Mudei-me para lá em 2013.

António Costa era presidente da câmara de Lisboa nessa altura – e tinha decidido fazer da recuperação do bairro a sua bandeira. Instalou a sede do município no largo da má-fama, impôs policiamento, convocou comerciantes para arejarem o espaço. E as coisas começaram realmente a mudar. O Intendente lavou a cara, abriu os cafés, bares, restaurantes e lojas mais cool da cidade, vieram concertos e espetáculos. Nos anos seguintes, tornou-se num novo epicentro lisboeta.

A Gare está a ferver e há um mundo de gente a descobrir beleza num lugar que sempre foi mal amado.

Tal como eu, dezenas de profissionais, liberais e de bolsos rotos, começaram a ocupar a zona. Jornalistas e bailarinas e atores e fadistas e pintores e músicos e trabalhadores sociais mudaram-se para aqui. Sentia-se um vento fresco naquelas ruas e, sem plano, tornámo-nos uma comunidade. Todos os dias nos deixávamos ficar a fazer planos para o mundo diante de copos de vinho ou cerveja. Nos cinco anos em que vivi no Intendente, senti como Lisboa fervia.

Éramos, apesar de tudo, forasteiros. Mesmo que agora enchêssemos os antigos bares de alterne e ocupássemos os palcos das stripers para dançar David Bowie, Pulp ou Strokes, as velhas prostitutas não desapareceram das esquinas, os junkies continuavam a fumar chinesas nos becos, seguiam histórias de pancadaria de meia-noite ou três da manhã. O Intendente tinha isso e tinha a maior diversidade cultural da capital. Era a pátria dos sem-papéis, das associações recreativas das mais esquecidas vilas portuguesas, de campos de jogos que já ninguém joga.

Mas, antes de mim ou do António Costa, houve uma associação que se instalou no Largo e se chamou a si própria Largo. Foram eles que tentaram juntar estes mundos todos. Puseram mulheres da vida a falar com artistas, imigrantes a mostrarem quem eram, criaram bandas com gente do mundo inteiro, organizaram festivais para celebrar o planeta que cabia nas ruas do meu bairro. E foi também isso que fez o Intendente apetecível. Aqui estavam todas as classes sociais, todos os níveis de educação e todas as culturas em uníssono. Éramos vizinhos e tínhamos um projeto em comum.

Há dias, soube que a associação Largo tinha saído do largo, graças a um aumento brutal do preço da renda. E não deixo de pensar quão cruel é a expulsão dos que fizeram dos vizinhos verdadeiramente vizinhos.

O que é que esta história tem a ver com o Luxemburgo, onde vivo agora? Se calhar pouco. Mas há uns dias andei a percorrer o bairro da Gare, na capital do Grão-Ducado, e dei por mim a apostar que a mesma coisa está prestes a acontecer aqui. O Quartier de la Gare é o bairro de pior fama da capital, mas também é o mais cosmopolita, aquele onde o Luxemburgo se faz realmente cidade. Começam a aparecer os cafés, restaurantes e lojas cool. Há uma nova onda de gente a ocupar as casas. E há gente a trabalhar no terreno para que o bairro seja bairro. A Gare está a ferver e há um mundo de gente a descobrir beleza num lugar que sempre foi mal amado. Aos poucos, vai limpando a face. Esperemos que recolha uma lição que o Intendente não aprendeu: É que a limpeza não se faz excluindo. Faz-se integrando.

(Grande Repórter)

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