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A aldeia que mudou os nomes das ruas para luxemburguês

A aldeia que mudou os nomes das ruas para luxemburguês

Foto: Pierre Matgé
Luxemburgo 13 min. 18.07.2018

A aldeia que mudou os nomes das ruas para luxemburguês

Paula TELO ALVES
Paula TELO ALVES
Estamos em 2018. Todo o Grão-Ducado foi ocupado pela língua francesa. Todo? Não! Uma aldeia povoada por irredutíveis luxemburgueses resiste ainda e sempre ao invasor. Ou melhor, três: o município de Frisange e as duas aldeias que fazem parte da autarquia, Aspelt e Hellange. Ali, de um dia para o outro, as ruas mudaram de nome. O francês desapareceu das placas para dar lugar ao luxemburguês. Aconteceu em 2004 e desorientou os GPS. Numa altura em que voltam a surgir propostas para mudar os nomes das localidades para luxemburguês, Frisange é um caso de estudo.

Foi de um dia para o outro. A Rue de l’École converteu-se na Schoulstrooss. A Grand-Rue passou a Groussgaass. Em alguns casos, a nova designação cortou completamente com o nome antigo – caso da Belle-Vue, que passou a Beim Ieweschte Bësch (“Ao fundo da floresta”, em luxemburguês).

Frisange foi um bastião do ADR durante duas décadas. Gast Gybérien, um dos fundadores do partido nacionalista, que vive na localidade, foi burgomestre de 1982 a 2005. No último mandato, em 2004, assinou uma deliberação camarária para mudar o nome das ruas para luxemburguês. No texto, a que o Contacto teve acesso, datado de 13 de abril de 2004, explica-se a medida em dois pontos. “É necessário promover uma política ativa em favor da língua luxemburguesa, para preservar a nossa identidade nacional”. O segundo ponto acrescenta: “Com esta denominação dos nomes das ruas em língua luxemburguesa, a autarquia de Frisange pretende contribuir para a salvaguarda da nossa língua materna”. Ironicamente, à exceção dos anexos com os novos nomes das ruas, o documento está todo escrito em francês.

Catorze anos depois, há quem continue a não se habituar à ideia, mas também há quem defenda a iniciativa. Henri, 80 anos feitos, bebe uma cerveja Bofferding ao balcão do Café Klein, na Lëtzebuergerstrooss, a rua onde fica o restaurante de Léa Linster, distinguido com uma estrela Michelin. Numa mistura de luxemburguês e francês, a jornalista do Contacto pergunta-lhe o que pensa da mudança. Henri diz que só aceita responder se puder falar “op Lëtzebuergesch” (em luxemburguês). “Henri, seja simpático, fale lá francês com a jornalista”, intercede a dona do café, uma francesa que gere há dois anos o estabelecimento centenário. “Mas eu falo francês como uma vaca espanhola!”, protesta o luxemburguês.

Frisange fica a pouco mais de um quilómetro de França. Todos os dias milhares de fronteiriços passam por ali para vir trabalhar para o Grão-Ducado, e a rua principal está pejada de letreiros em francês. Se o objetivo da mudança das placas das ruas era eliminar o francês da paisagem, a batalha parece perdida: há um ’coiffeur’ (cabeleireiro), uma ’boucherie’ (talho), uma ’épicerie’ (mercearia), um ’orthopédiste’ (ortopedista), uma ’agence d’assurances’ (seguradora) e um ’salon de bronzage’ (solário). Na fachada do restaurante da chefe luxemburguesa Léa Linster, onde uma refeição não custa menos de 150 euros, sem contar com o vinho, um cartaz em letras gigantes diz: “Avec amour” (“Com amor”). Mais à frente, um marco da “Voie de la Liberté” recorda o caminho percorrido pelas tropas aliadas para libertar França, Bélgica e o Luxemburgo dos ocupantes nazis.

Henri entrou na escola primária pouco depois do fim da Segunda Guerra Mundial. “Não tínhamos livros, não tínhamos nada. No terceiro ano começámos a aprender francês, mas os professores não sabiam falar, porque durante a guerra era proibido falar francês”, conta. “Quando não se aprende, não se pode ensinar”.

Henri hesita à procura das palavras, a tentar explicar a complicada situação linguística do Luxemburgo, e garante que as antigas placas em francês não o incomodavam: “Para mim, não era um problema”. Mas sempre diz que o francês não passa de uma língua administrativa, como estabelece a Constituição, que em 1984 atribuiu ao luxemburguês o estatuto de idioma nacional: “A língua dos luxemburgueses é o luxemburguês”.

“Os jornais são em alemão, as leis em francês. É por isso que temos de aprender tudo. Mas nas férias em Itália ou na Suíça, podemos desenrascar-nos em qualquer língua”, diz Henri. Depois, acrescenta: “Daqui a nada temos mais estrangeiros que nacionais. Eles falam a língua deles e não querem falar luxemburguês, mas têm de vir para o Luxemburgo para ganhar a vida deles“. E se os nomes das localidades fossem mudados para luxemburguês em todo o país, como sugere uma proposta apresentada recentemente numa consulta à população organizada pelo Governo? “Pourquoi pas?” (Por que não?), responde Henri. “A mim não incomoda”.

GPS à nora

A mudança incomodou pelo menos os GPS. Durante dois anos – o tempo que demorou a substituir os mapas, na altura através de CD –, a maioria dos sistemas de navegação continuaram a indicar os nomes das ruas em francês. Em alguns casos, a nova designação não tinha qualquer ligação com o nome anterior. “As pessoas ligavam-nos a perguntar por que é que o sistema não encontrava as ruas”, conta um ex-funcionário da Navteq, a empresa especializada em mapas digitais responsável pela atualização dos GPS, na época da mudança. “Ainda hoje há sistemas de navegação que não atualizaram a base de dados, e pode ser problemático”, diz o antigo funcionário luxemburguês, que prefere não ser identificado.

Em Aspelt, uma aldeia a três quilómetros de Frisange, os novos nomes ainda continuam a despistar visitantes. “Há pouco tempo um senhor andava aí perdido, porque o GPS não encontrava a Rua da Escola. Agora é a Schoulstrooss”, conta Maria João Gomes, gerente do Café du Village. “O meu marido ia levar as crianças à paragem do autocarro e disse-lhe: ’Siga-me, que eu digo-lhe onde é’”.

Maria João acabou de servir bacalhau à casa a duas dezenas de trabalhadores portugueses da construção, o café vai-se esvaziando, e agora tem finalmente tempo para conversar. Na rua Péiter vun Uespelt-Strooss (a antiga Pierre d’Aspelt) passa um reboque carregado de fardos de palha. “Isto era uma terra de lavradores. Ainda há um senhor que tem 40 cavalos, e na casa aí em frente o senhor tem quatro vacas”, conta a portuguesa. Não fosse a mistura de línguas – a imigrante salta de luxemburguês para francês e português como quem muda de canal –, e a fotografia do Grão-Duque ao lado da televisão, sintonizada na TVI, e podíamos estar numa aldeia em Portugal.

Em Aspelt, no café português da aldeia, falam-se as três línguas do país. E até há clientes luxemburgueses que em vez de “Moien” entram a dizer “Boa tarde”.
Em Aspelt, no café português da aldeia, falam-se as três línguas do país. E até há clientes luxemburgueses que em vez de “Moien” entram a dizer “Boa tarde”.
Foto: Pierre Matgé

Um luxemburguês entra a desejar “boa tarde” em português. Tem 50 anos, é da terra, e até hoje a mudança não se entranhou. “O problema é que quando alguém me pergunta por uma rua em luxemburguês, não sei onde fica”. Patrick acha que estava bem como está noutras localidades, em francês e luxemburguês, e satiriza algumas das traduções aprovadas pela autarquia no tempo em que o ADR governava. “Eu se for a Mondorf, vou a Mondorf, não vou a ’Munnerëf”, diz, pronunciando a palavra em tom de desdém. “Os luxemburgueses dizem ’Diddeleng’ [Dudelange] e ’Beetebuerg’ [Bettembourg], mas ninguém diz ’Munnerëf’”. Apesar disso, tanto em Frisange como em Aspelt a rue de Mondorf passou mesmo a Munnereferstrooss, mas com um erro de ortografia: falta o trema na terceira sílaba.

Professor, como é que se diz “Mairie” em luxemburguês?

O edifício da Câmara Municipal de Frisange fica na Munnerëferstrooss, que nos cartões de visita da autarquia aparece grafada com o trema que falta nas placas da rua. Mas em vez de “Gemeng” (Câmara Municipal, em luxemburguês), continua a chamar-se “Mairie”, com a designação francesa escrita em letras de betão. “É um edifício dos anos 50”, explica o novo burgomestre, Roger Beissel, “mas talvez venha a mudar quando construirmos o novo edifício, daqui a um ano”. O nome das ruas em luxemburguês é que é para ficar. “Há sempre pessoas que gostam de se queixar, mas não houve problemas”, defende este nativo de Aspelt, eleito em outubro passado na coligação “Är Equipe” (A vossa equipa). O número 2 do Executivo camarário, Carlo Raus, é militante do DP, o partido do primeiro-ministro Xavier Bettel, mas Beissel garante que, no seu caso, não tem cor política.

Foto: Pierre Matgé

Em Aspelt, a rua Péiter vun Uespelt esvaziou-se de gente. Os tratores regressam vazios, a sacolejar rua acima. Abaixo do café português, a porta esculpida em madeira de um restaurante asiático, fechado há anos, continua a alegrar a rua com um delírio de dragões coloridos, uma incongruência no meio das antigas quintas e casas rurais.

No fim da rua fica o restaurante “Am Kraeltgen”, que serve pratos típicos luxemburgueses e tem uma sala de jogo de “quilles” nas traseiras, uma espécie de bowling à luxemburguesa. Nas paredes veem-se retratos da aldeia a preto e branco, do tempo em que o comboio ali chegou e as caleches circulavam nas ruas. São imagens do “velho Luxemburgo”, um passado que alguns nacionalistas parecem querer ressuscitar, quando não havia nem automóveis nem estrangeiros no país.

Maria João Gomes desmonta os mitos nostálgicos. “Eles não estão nada a perder a identidade deles. A minha mais velha diz que se sente mais luxemburguesa do que portuguesa: ’Eu nasci no Luxemburgo, sou luxemburguesa’”. Foi a professora que disse à menina de 12 anos que ela era luxemburguesa, apesar de só ter passaporte português, e Maria João Gomes já se informou para poder dar à filha a nacionalidade do país onde nasceu (o que passou a ser possível a partir dos 12 anos, com a lei proposta pelo lusodescendente Félix Braz). As filhas falam luxemburguês e Maria João responde em português, porque detesta a língua. “Fui à escola em Mondorf, que era um sítio de gente rica, só havia mais uma portuguesa. Quando eu dizia mal uma palavra em luxemburguês, os luxemburgueses riam-se e eu chorava. E eu disse: ’Já não quero aprender luxemburguês’”. Ainda hoje, depois de ter trabalhado muitos anos em pastelarias luxemburguesas e de ter aprendido o idioma a falar com os clientes, Maria João não gosta de falar luxemburguês. Mas o marido anda há três anos nos cursos noturnos da comuna, e a imigrante reconhece que é importante. Apesar disso, a portuguesa acha que os luxemburgueses não vão conseguir pôr toda a gente a falar luxemburguês. “Não vai dar. Aqui na rua metade das pessoas não são luxemburguesas, só se ouve falar francês. E na escola é a mesma coisa, metade das crianças fala francês. Os pais são franceses, vivem aqui em Frisange e trabalham nos bancos, e não os vejo a falar luxemburguês para os filhos”. E a falar luxemburguês ou não, os portugueses já fazem parte do país, defende a imigrante de 51 anos, que chegou ao Grão-Ducado com 11. “Uma aldeia luxemburguesa sem um café português não é uma aldeia luxemburguesa”.

Luxemburguês não enche medidas de imigrantes

Quando um dia os historiadores tentarem situar o ponto de viragem na importância conquistada pelo luxemburguês, um dialeto frâncico-moselano convertido em língua nacional em 1984, são capazes de ter as mesmas dificuldades que o sapo na panela ao lume. Na história, a água começa por estar fria, depois passa a morna, com a temperatura a subir lentamente. Resultado: o animal só se dá conta do ponto de ebulição quando já é demasiado tarde. Seja como for, é pouco provável que os historiadores escolham como marco a data apontada por José. “Foi quando vi um anúncio do Cactus em luxemburguês, há mais de dez anos, ainda por cima com um erro. Achei ridículo”.

José chegou ao Luxemburgo com dois anos, fala luxemburguês “melhor do que muitos luxemburgueses”, e achou a mudança dos nomes das ruas “absurda”. Quando trocou Aspelt por Esch-sur-Alzette, foram precisos dois funcionários e várias pesquisas na internet para encontrarem a rua com o nome em luxemburguês e emitirem o certificado de mudança de residência. “Foi bastante criticado na aldeia, porque as pessoas não percebiam por que é que era preciso gastar dinheiro para mudar o nome das estradas”, recorda. (O Contacto questionou a autarquia sobre o custo da mudança, mas não obteve resposta em tempo útil).

Apesar de falar luxemburguês fluentemente, José critica a importância que o idioma adquiriu nos últimos anos. “É uma língua de integração para subir na sociedade luxemburguesa e fazer parte do clube das elites, sobretudo para entrar na política e na Função Pública. Mas também é evidente que é uma língua de exclusão, porque não permite chegar a cargos importantes na política. Não conheço nenhum político que não fale luxemburguês”. E acha que a obsessão com a língua e a identidade nacional “é energia mal gasta, quando há outros problemas para resolver”. “Agora dá-se uma importância maluca ao luxemburguês. É como no novo slogan do DP, ’Zukunft op Lëtzebuergesch’ (O futuro em luxemburguês), é uma forma de populismo”. Para José, o idioma devia ser ensinado nas escolas, mas para os imigrantes de primeira geração, que chegam já adultos, “é preciso um esforço enorme”, que não está ao alcance da maioria dos estrangeiros.

Cristiane é baiana, e quando chegou ao Luxemburgo, há dois anos, só conhecia uma palavra das três línguas oficiais: “Bonjour”. Mas esse não foi o seu maior problema. “O meu corpo não aguentou o frio, perdi dez quilos. Fiz um monte de exames e a médica não tinha remédio para me dar. O meu corpo sofreu um choque, a médica falou que eu tive um choque térmico. O meu corpo estava habituado durante 33 anos ao calor, e quando eu cheguei tinha gelo. Eu nunca tinha visto gelo! Fiquei com 49 quilos”. Agora já está a recuperar o peso perdido, mas “a língua ainda ’tá difícil”. “Já percebo alguma coisa de francês, mas luxemburguês não falo nada”, diz, num sotaque cantado.

Cristiane faz limpezas em casa de uma família francesa, em Frisange, e a patroa não parece ter problemas para dar ordens à brasileira. “Como ela sabe que eu não falo, ela me mostra, ou coloca no tradutor [do telemóvel] e mostra pra mim”. Sem as novas tecnologias, Cristiane teria mais dificuldades para se orientar no labirinto de ruas em luxemburguês. Quando começou a trabalhar em Frisange, há sete meses, não havia maneira de fixar o nome da paragem onde tinha de sair. “As plaquinhas eu não entendo nada.” A solução foi engenhosa. “Quando eu vim pela primeira vez por causa do trabalho tirei foto e guardei. Toda a vez que eu vinha, eu olhava a foto da paragem”.

Paula Telo Alves

Nota: corrige as datas em que Gast Gybérien foi burgomestre de Frisange, de 1982 a 2005, e não a partir de 1995, como se indicava no artigo em versão impressa.


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