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A 22ᵃ eurodeputada portuguesa foi eleita no Luxemburgo
Luxemburgo 4 min. 02.06.2019 Do nosso arquivo online

A 22ᵃ eurodeputada portuguesa foi eleita no Luxemburgo

A 22ᵃ eurodeputada portuguesa foi eleita no Luxemburgo

Foto: Anouk Antony / Luxemburger Wort / Contacto
Luxemburgo 4 min. 02.06.2019 Do nosso arquivo online

A 22ᵃ eurodeputada portuguesa foi eleita no Luxemburgo

Uma confusão administrativa fez com que Isabel Wiseler-Lima conseguisse o passaporte luxemburguês sem perder a nacionalidade portuguesa, muitos anos antes de o Luxemburgo permitir a dupla nacionalidade. Nasceu em Lisboa e veio para o Luxemburgo com três anos, dez anos antes do 25 de abril. Vai assumir um dos seis mandatos do Luxemburgo em Bruxelas.

Paula Telo Alves (com Lusa)

A eurodeputada Isabel Wiseler-Lima, com dupla nacionalidade, escolheu um cravo para representar a Europa durante um dos debates da campanha, e considera que o 25 de abril faz parte da sua identidade. "A minha identidade política está ligada à Revolução. Eu tinha 13 anos, mas tinha a consciência do que era uma ditadura e do que era viver livre na Europa".

Eleita em 26 de maio, a cabeça de lista dos cristãos-sociais (CSV), o partido de Jean-Claude Juncker, nasceu em Lisboa e veio para o Luxemburgo com três anos, dez anos antes da Revolução dos Cravos. A eurodeputada, de 57 anos, lembra-se de em criança atravessar as fronteiras, para ir de férias a Portugal, e de "sair de um mundo livre para entrar numa ditadura", recordando o medo de falar alto em público e o receio da polícia. "Eu lembro-me perfeitamente de o meu pai levar jornais escondidos no forro da mala para mostrar à família o que se dizia de Portugal cá fora. E com uma criança no carro, não imagino o medo que ele passou".

Por isso, continua a pensar que "a liberdade, o Estado de Direito, são as coisas mais importantes que a gente tem", defendendo que a União Europeia "é o melhor garante desses valores". E recorda a importância da entrada de Portugal na então Comunidade Económica Europeia. "Há críticas à política económica europeia, e com razão, mas quando se vê o que trouxe a Portugal... Eu lembro-me como era, os bairros de lata, em Lisboa, antes do 25 de abril". 

O pai, hoje reformado, chegou ao Grão-Ducado em 1964, para trabalhar como pintor numa empresa de construção. A mãe era costureira. Após o 25 de abril, a família quis voltar definitivamente a Portugal, mas desistiu ao fim de seis meses. "Viram que a vida não se desenvolvia como eles tinham imaginado, habituados ao Luxemburgo, e resolveram voltar".

Isabel Wiseler-Lima licenciou-se na Sorbonne, em Literatura Francesa, e é até hoje professora de francês. Casou mal acabou o curso, com Claude Wiseler, que viria a ser ministro dos dois últimos Governos de Juncker. Só depois de os três filhos saírem de casa é que decidiu candidatar-se às autárquicas, em 2005, altura em que dizia, a brincar, que era "casada com a política". Foi eleita para a assembleia municipal da capital e em 2017 chegou a vereadora, cargo de que vai abdicar para assumir o mandato em Bruxelas. 

No gabinete de vereadora da capital luxemburguesa, um cargo de que vai abdicar para assumir o mandato em Bruxelas.
No gabinete de vereadora da capital luxemburguesa, um cargo de que vai abdicar para assumir o mandato em Bruxelas.
Foto: Gerry Huberty / Luxemburger Wort / Contacto

A eurodeputada pediu o passaporte luxemburguês quando casou, numa altura em que não era possível ter dupla nacionalidade. Mas uma confusão administrativa fez com que nunca abdicasse da nacionalidade portuguesa, uma exigência das autoridades luxemburguesas. "Fui à Embaixada e disse: 'Quero abdicar da nacionalidade portuguesa'. Responderam-me: 'Ah, mas só pode abdicar da nacionalidade portuguesa se já tiver outra nacionalidade'", conta. "Eu volto às autoridades luxemburguesas e digo: 'Olhe, eles não me deixam abdicar'. E deram-me a nacionalidade luxemburguesa. E quando me deram aquele papelinho, o senhor disse: 'Agora era bom que fosse à Embaixada abdicar da nacionalidade portuguesa'. Eu saí toda contente dali. Se era só 'bom', não era obrigatório", recorda, a rir. 

"Tive a sorte de nunca ter tido de abdicar. Mas também respeitei a lei luxemburguesa, e nunca fiz uso da nacionalidade portuguesa enquanto as duas não foram permitidas", sublinha.  


Sete meses depois de ter falhado a eleição nas legislativas do Luxemburgo, Monica Semedo conquista um lugar no Parlamento Europeu para o DP, o partido de Xavier Bettel.
Monica Semedo e Isabel Wiseler-Lima, as duas eurodeputadas lusófonas do Luxemburgo
Filha de imigrantes cabo-verdianos no Luxemburgo, Monica Semedo, que não conseguira ser eleita nas legislativas de outubro, conquista agora um assento no Parlamento Europeu, pelo DP. E bate mesmo a cabeça de lista do CSV, Isabel Wiseler-Lima, a outra eurodeputada do Grão-Ducado que fala português.

Hoje, vê com preocupação as dificuldades linguísticas dos portugueses no país, que representam 16% da população. "Quando não se sabe luxemburguês, há uma exclusão de facto, porque os luxemburgueses falam luxemburguês entre eles, e isso acontece frequentemente no dia a dia, e na política muito mais. Quando ainda por cima não se sabe francês, então aí é mesmo um problema". 

O seu partido foi contra o direito de voto dos estrangeiros nas legislativas, no referendo de 2015, mas a eurodeputada lamenta a fraca participação dos portugueses nas restantes eleições: só dez por cento estavam recenseados nestas europeias e havia apenas vinte por cento inscritos para votar nas últimas eleições autárquicas. "Fala-se muito do direito de voto a nível nacional, mas quando já se tem o direito de votar a nível comunal e europeu e não se utiliza, custa-me imenso". 

Leia a entrevista na íntegra na próxima edição do jornal Contacto, dia 5 de junho.

Correção: inicialmente, este artigo referia que o pai de Isabel Wiseler-Lima chegou ao Luxemburgo em 1961, quando isso aconteceu em 1964.

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