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22% dos trabalhadores portugueses no Luxemburgo estão em risco de pobreza
Luxemburgo 8 min. 22.10.2014 Do nosso arquivo online
Reportagem

22% dos trabalhadores portugueses no Luxemburgo estão em risco de pobreza

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22% dos trabalhadores portugueses no Luxemburgo estão em risco de pobreza

Foto: Arquivos LW
Luxemburgo 8 min. 22.10.2014 Do nosso arquivo online
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22% dos trabalhadores portugueses no Luxemburgo estão em risco de pobreza

Os trabalhadores portugueses no Luxemburgo são os mais expostos ao risco de pobreza. Segundo um relatório do Statec divulgado na semana passada, no ano passado 22,1% dos imigrantes portugueses viviam com menos de 1.665 euros por mês, considerado o limiar da pobreza, num país em que as rendas podem ultrapassar os mil euros. À Caritas chegam todos os dias portugueses em desespero.

Daniela e Rogério Santos chegaram ao Luxemburgo há um ano. Ele já veio com contrato para trabalhar como empregado de mesa num restaurante, mas depois das férias de Verão, o contrato não foi renovado. "Dois dias antes de voltar ao trabalho recebeu uma carta em casa a dizer que já não era preciso voltar ao serviço", conta Daniela Santos ao CONTACTO.

Com um filho de sete anos que sofre de autismo, e sem terem conseguido até agora uma escola adaptada para o menor, Rogério foi obrigado a ir trabalhar para as obras, mas o que ganha mal dá para a família viver. "Este mês trouxe 1.376 euros, porque não conseguiu trabalho para o mês todo", diz Daniela.

O casal deixou Valadares, em Vila Nova de Gaia, quando Rogério perdeu o emprego e deixou de conseguir pagar os tratamentos do filho. "Aos seis anos iam cortar-lhe as ajudas todas. O meu marido estava desempregado, pagávamos 68 euros de terapia da fala e psicóloga por mês, e decidimos emigrar. Se ficássemos, íamos ter de pagar o custo total dos tratamentos, 180 euros por mês, e se já não conseguíamos pagar 68, imagine 180". O marido decidiu então aceitar o convite de um antigo colega para vir para o Luxemburgo, mas um ano depois, a família vive na angústia de ficar sem o salário de Rogério nas empresas de trabalho temporário, única fonte de rendimentos do casal.

"Para já, temos as contas em dia, mas já o avisaram lá nas obras que em Dezembro não vai haver trabalho durante três semanas, por causa das férias no sector da construção", conta Daniela. "Para nós vai dando, mas o meu filho está a crescer e já tivemos de ir pedir roupas para ele a uma associação em Esch".

Gráfico: Michèle Winandy / Contacto

Segundo um relatório do Statec divulgado na semana passada, no Luxemburgo 22,1% dos trabalhadores portugueses estão em risco de pobreza. Um valor que aumentou no último ano (ver quadro) e é superior à taxa de pobreza da população em geral (15,9%), representando mais do triplo dos luxemburgueses em risco (6,4%). Cerca de um quarto dos portugueses ganham menos de 1.665 euros por mês, considerado o limiar de pobreza, o que os coloca na situação de "working poor" ("trabalhadores pobres"): pessoas que apesar de trabalharem, correm o risco de cair na miséria.

"Na maioria dos casos, os portugueses trabalham em sectores em que a mão-de-obra não é qualificada, com salários mais baixos, e por isso estão em maior risco de caírem na pobreza", explica ao CONTACTO Paul Zahlen, um dos responsáveis do relatório "Coesão social e emprego", do gabinete de estatísticas do Luxemburgo. Com rendimentos médios de 1.920 euros por mês (contra 3.229 no caso dos luxemburgueses), os portugueses têm mais problemas para chegar ao fim do mês. Cerca de 59% dos portugueses dizem que têm dificuldades para fazer face às despesas correntes, contra apenas 19% dos luxemburgueses.

O rendimento médio e mediano dos portugueses (ponderação entre a média dos rendimentos mais altos e mais baixos do país) é muito inferior ao do resto da população
O rendimento médio e mediano dos portugueses (ponderação entre a média dos rendimentos mais altos e mais baixos do país) é muito inferior ao do resto da população
Gráfico: Michèle Winandy / Contacto

"HÁ PORTUGUESES A SOFRER", DIZ A CARITAS

À Caritas chegam cada vez mais casos de portugueses em dificuldades, cerca de 60 por mês, mas há também imigrantes de origem cabo-verdiana, guineense e de São Tomé empurrados pela crise.

"Já vi aqui pessoas a chorar", conta Amílcar Monteiro, agente sócio-educativo no Serviço de Solidariedade e Integração da organização católica. "Não diria que há fome, mas sofre-se muito e durante muito tempo. As pessoas são resistentes e pensam que a vida vai melhorar, mas sofrem muito, e mesmo assim não querem regressar a Portugal, porque dizem que lá não vêem futuro. Aqui ainda têm esperança".

Certo é que o desemprego e a pobreza também estão a aumentar no Luxemburgo. A situação levou mesmo o arcebispo do Grão-Ducado a pedir às organizações católicas que intervenham em casos de precariedade, entregando cabazes de alimentos. "Já entreguei alguns a vários portugueses", diz Amílcar Monteiro. "Não eram pessoas com fome, mas estavam a passar momentos difíceis", conta o assistente social, frisando que o risco de pobreza não afecta apenas os recém-chegados.

"Ultimamente começa a haver problemas não só com os recém-chegados, mas também com quem cá está há vários anos, e que até gozavam de uma situação de estabilidade, mas que começam a sofrer com o desemprego, ou se vêem em dificuldades porque o marido ficou incapacitado ou porque houve um divórcio", explica. Com salários baixos e contratos precários, basta um membro do casal perder o emprego para a família ficar exposta ao risco de pobreza.

"O problema é que a renda de casa é muito elevada, cerca de mil a 1.200 euros. A ganhar 1.600 euros por mês, mesmo trabalhando os dois, se um deixar de trabalhar há o risco de não conseguirem pagar a renda, e depois é impossível viver e fazer face às despesas normais. E há muitas pessoas que só conseguem trabalho vinte horas por semana, a trabalhar nas limpezas e a ganhar 700 euros por mês", frisa Monteiro.

À Caritas chegam todos os dias portugueses à procura de trabalho ou de alojamento, uma das maiores dificuldades para os novos imigrantes.

"O alojamento é o cancro do Luxemburgo, mas é uma doença que se podia resolver com a intervenção do Estado. Os serviços sociais não dão resposta", denuncia o assistente social. O problema não é só o valor exorbitante das rendas, a que acresce a caução e a comissão de agência, que pode chegar a três meses de renda: antes de assinar um contrato de arrendamento, as agências imobiliárias "exigem também um contrato de trabalho indeterminado, e agora algumas até querem que as pessoas ganhem o triplo do valor da renda", explica. Por essa razão, "as pessoas são obrigadas a viver em quartos por cima dos cafés ou do outro lado da fronteira", onde as rendas são mais baratas, "o que depois aumenta os problemas de integração e da educação das crianças".

Daniela e Rogério Santos conhecem bem o problema. Depois de um ano a tentarem encontrar casa no Luxemburgo, acabaram por ir viver para Rédange, em França, a três quilómetros da fronteira luxemburguesa, mas agora não conseguem uma escola adaptada para o filho, o que impede a mãe de trabalhar.

"Pedimos para ele frequentar uma escola especial no Luxemburgo, mas até agora não conseguimos autorização, e ele vai duas horas por dia a uma escola normal aqui em França", conta a mãe da criança.

PORTUGUESES JÁ NÃO SÃO BEM-VINDOS

Em declarações ao CONTACTO em vésperas da visita de Pedro Passos Coelho ao Luxemburgo, esta quarta-feira, o agente sócio-educativo da Caritas diz que a mensagem do Governo luxemburguês é para travar a chegada de portugueses.

"Começa a haver um sentimento de que há demasiados portugueses no Luxemburgo, e o primeiro-ministro Xavier Bettel disse isso mesmo durante a visita a Portugal [em Março], quando disse que aqui também já havia problemas de alojamento e desemprego. Quando um primeiro-ministro diz isto, a mensagem é clara", lamenta Amílcar Monteiro. O assistente social recorda a "liberdade de circulação na Europa", e diz que se o Luxemburgo já "não é um paraíso", a crise em Portugal não deixa alternativa aos portugueses.

"Se o meu filho estivesse em dificuldades e a solução estivesse no Inferno, eu ia pedir licença ao diabo", garante o português, a trabalhar há 30 anos na Caritas do Luxemburgo. "Ninguém tem o direito de dizer 'portugueses, não venham para cá', mas é preciso avisar as pessoas para que estejam conscientes das dificuldades que vão enfrentar".

Paula Telo Alves


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