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O recorde luxemburguês de João
Luxemburgo 3 4 min. 09.06.2021
10 de junho

O recorde luxemburguês de João

10 de junho

O recorde luxemburguês de João

Luxemburgo 3 4 min. 09.06.2021
10 de junho

O recorde luxemburguês de João

Ricardo J. Rodrigues
Ricardo J. Rodrigues
Tem 17 anos e, há menos de um mês, bateu para o Luxemburgo o recorde masculino de 200 metros mariposa nos Campeonatos da Europa de Natação, em Budapeste. O nadador João Soares Carneiro nasceu no Grão-Ducado, mas é em português que melhor se exprime. Voz a um campeão.

Dois minutos, um segundo e noventa e dois centésimos. Quando emergiu das águas, João Soares Carneiro, 17 anos, percebeu imediatamente que tinha batido o recorde nacional luxemburguês de 200 metros mariposa. “Senti logo qualquer coisa de diferente, senti que tinha nadado abaixo dos dois minutos e dois segundos e, quando saí da água, veio muita gente dar-me os parabéns. Mas a única coisa que eu pensava era que ainda havia de bater este recorde mais vezes, quero aliás bater este recorde muitas vezes, e um dia quero ir aos Jogos Olímpicos ganhar uma medalha para o Luxemburgo.” Paris, em 2024, ou Los Angeles, em 2028, são a sua meta.

João é luxemburguês de origem portuguesa, nasceu em Niederkorn mas passou uma boa parte da vida em Portugal – e fala a língua perfeitamente. No dia 18 de maio deste ano bateu estabeleceu para o Grão-Ducado um novo recorde nacional no Campeonato da Europa de Natação, que se realizou o mês passado em Budapeste. Lançou-se às águas da pista 3, e é agora junto a esse número que é fotografado – no tanque de alto rendimento da Coque, em Kirchberg. “Estive nas camadas jovens da seleção portuguesa, mas há pouco mais de um ano decidi que eram as cores do Luxemburgo que iria representar.” Apesar de ainda ter idade para esperança, treina com os séniores – e isso é experiência que lhe está a permitir dar o salto, superar-se.

A vida na piscina começou ainda antes de completar um ano, a família levava-o às aulas de natação para bebés em Arlon. A mãe, belga, e o pai, lisboeta que trabalha nas instituições europeias, perceberam cedo a sua apetência para os desportos aquáticos. “A partir dos três anos, treinava três vezes por semana no [clube de natação] Swimming Luxembourg e ao sábado tinha mais um treino na Bélgica. Nessa altura tinha outras atividades também: pingue-pongue, aulas de violino e de solfejo, que fui abandonando para me dedicar ao que realmente gostava: nadar.”

Tinha 10 anos quando bateu o primeiro recorde da sua vida, em infantis e em 200 metros estilos, nos capeonatos nacionais de pista curta. “A partir dos 13 anos já treinava com outro ritmo, ia para a piscina sete dias por semana. Às vezes custa não poder ir sair com os meus amigos, fazer o que os outros adolescentes da minha idade fazem, mas sei que estou a trabalhar pelas cores de um país – e isso é muito importante.” Hoje, tem treinos bidiários – das seis às oito da manhã e novamente das 18h às 20h.

Num campeonato em que participou na Madeira, falaram-lhe pela primeira vez na existência de um centro de alto rendimento em Rio Maior, e pensou que ali podia desenvolver-se ainda mais como atleta. “Foi em 2017. Na Páscoa desse ano convenci o meu pai a irmos a Portugal e treinei com os atletas do Benfica. Dei-me bem e depois é que começou o processo a sério: convencer os meus pais a mudar-me para Portugal.” A resposta materna começou por ser um não redondo, a do pai era nim – afinal, tinha estado com ele em Lisboa e visto como se dera bem no clube encarnado. No final do verão cederam. Próximo destino: Portugal.

Tornou-se atleta benfiquista e era em Rio Maior – que acolhe o centro de alto rendimento da Federação Portuguesa de Natação – que vivia e treinava. Entrou também para a seleção portuguesa pré-júnior e completou o 10° ano no Ribatejo. “Adorei viver lá e percebi que em Portugal há um calor completamente diferente, uma proximidade maior.” O nível da natação também estava mais desenvolvido no país do Sul. Percebeu imediatamente que ia viver uma experiência valiosa.

Ficou de 2 de setembro de 2017 a 14 de junho de 2018 em Rio Maior. “Tornei-me mais tuga com isso, e gostava de provocar o treinador, o que às vezes não corria bem.” Quando vivia em Portugal, defendia constantemente o Luxemburgo, agora diz que faz o exato contrário. “Decidi voltar no final do ano letivo, as saudades de casa eram muitas. Agora, tenho saudades de lá. Sou português, também, e serei sempre.”

A decisão de nadar por apenas um dos países aconteceu em maio de 2019, quando foi convocado pelo Luxemburgo para os Jogos das Pequenas Nações da Europa. Ficou aí a decisão tomada, e desde então é atleta luxemburguês. Apesar de correr hoje pelo clube Dauphins de Ettelbruck, todos os treinos que cumpre hoje são feitos com a seleção nacional. As coisas estavam a correr bem desde o regresso. E depois veio a pandemia.

“Foi horrível, ter de parar entre março e maio de 2020”, conta. Quando pode voltar à piscina, os primeiros dias foram estranhos, mas o corpo adaptou-se rápido. Começou a participar nos primeiros campeonatos, tentar estabelecer os mínimos para o Europeu. Carimbou o passaporte para Budapeste e foi lá que se conseguiu superar. “Bati um recorde para o Luxemburgo e vou bater mais. Mas também português. Sou as duas coisas e isso é algo mesmo bom.”

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