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Música alternativa, memória tradicional
Luxemburgo 4 min. 10.06.2021
10 de junho

Música alternativa, memória tradicional

10 de junho

Música alternativa, memória tradicional

Luxemburgo 4 min. 10.06.2021
10 de junho

Música alternativa, memória tradicional

Ricardo J. Rodrigues
Ricardo J. Rodrigues
Cantou para milhares no Rockhal, fez a primeira parte de artistas como Ben Harper e Milky Chance, andou em tournée pela Alemanha com os Carnival Youth. Em 2018, foi considerada a cantora mais promissora do país nos Luxembourg Music Awards. A batida indie de C’est Karma, 19 anos, é bebida do mar e das raízes que tem na Gafanha da Nazaré. Ei-la.

Os verbos nem sempre são conjugados no tempo certo, a escrever admite que o vocabulário às vezes lhe falha, mas Karma Catena, para o resto do mundo C’est Karma, não tem grandes dúvidas de quais são as suas origens. “Posso ter nascido no Luxemburgo, mas identifico-me acima de tudo com a cultura portuguesa. Sou portuguesa, sem sombra de dúvida. Mesmo que fale melhor luxemburguês, mesmo que seja uma cantora do Luxemburgo. As minhas raízes são o que me valoriza, e também é isso que tento passar para a minha música.”

O nome pouco comum deve-o à mãe e ao facto de ela ter lido uma biografia do Dalai Lama durante a gravidez. “Em casa falávamos sempre luxemburguês, afinal ela veio para cá quando só tinha sete meses”, explica a rapariga. “Foi na verdade aos meus avós que eu fui beber as minhas raízes mais lusófonas.” E também agora com eles que as atualiza, sempre que visita a família na Gafanha da Nazaré, perto de Aveiro.

“Eles vinham da zona das minas de sal e o meu avô foi o primeiro a chegar, fugido da ditadura terrível de Salazar e da miséria do regime. Quando chegou, foi trabalhar para a siderurgia. Teve uma vida dura e no último ábum quis prestar-lhe homenagem com uma música.” Industrial Salt foi lançado em novembro de 2020, inclui guitarra portuguesa e integra um EP chamado Farbfilm, o seu segundo. O primeiro, de 2019, chamava-se Yellow e incluía o tema Nicole, todo ele gravado em Portugal.

“Uma das coisas que mais senti falta no segundo trabalho foi não poder fazer uma festa de lançamento, como tinha acontecido no primeiro caso”, confessa. Aí juntou amigos e música nas Rotondes, em Bonnevoie. “Eu sempre gostei muito de música alternativa. As minhas maiores referências eram provavelmente a Björk e os Cocorosie. Mas com os anos também fui aprendendo a apreciar um ritmo mais punk. E agora até o pop, que antes rejeitava completamente.”

Karma teve aulas de violino quando tinha sete anos, mas ao cabo de três acabou por desistir. “Era muito difícil ter motivação para um instrumento tão difícil. Aos 13, aprendeu a tocar guitarra em tutoriais do YouTube e foi nessa altura que começou a compor as primeiras canções. Quando completou 15 anos, os pais ofererceram-lhe um curso de canto. E isso mudou tudo.

O professor de canto era Georges Goerens, vocalista dos Seed to Tree, uma banda indie luxemburguesa, e ao fim de alguns meses ele convidou-a a atuar em dois concertos da banda. “Um dos programadores do Rockhal, uma das maiores salas de concertos do país, assistiu a um dos concertos e convidou-a para fazer a primeira parte dos Milky Chance. “Estávamos em 2018, eu tinha 16 anos e de repente estava num palco a cantar para mais de duas mil pessoas. Foi incrível o que senti, não consigo descrever em língua nenhuma”, ri-se. Um ano depois, voltaria à mesma sala para fazer a primeira parte de um concerto de Ben Harper.

Aos 16 anos comeava a fazer a cumprir a rota dos festivais. No ano de estreia acabaria também por vencer o prémio de cantora mais promissora nos Luxembourg Music Awards e assinaria a label suiço-alemã Radicalis. Começou a trabalhar nas suas composições, a preparar os EPs e a contar os dias para se fazer à estrada. Convidada para fazer a primeira parte dos Carnival Youth – sucesso global indie rock nascido na Letónia – atuou em Riga e cumpriu uma tournée pela Alemanha, que a levou a viajar por todo o país. No interior do braço tem uma tatuagem com a rota que cumpriu nesses dias de estrada.

Em França tem menos concertos, mas uma legião forte de seguidores e muito boa imprensa. “O que eu gostava mesmo agora era de atuar em Portugal”, conta. Estou a dar passos nesse sentido, vamos ver como corre”, diz com um piscar de olho. E depois, claro, há as casas onde ela é mais forte, no

Luxemburgo. No Grão-Ducado, aliás, não só atuou nas grandes salas como também em festivais como o Food for the Senses, o Sonic Visions ou o Siren’s Call.

Se há coisa que a irrita, no meio disto tudo, é quando alguém de se apercebe das suas raízes e lhe diz: “Não tens nada ar de portuguesa.” “Há uma série de estereótipos na cabeça das pessoas aqui e é preciso combater isso fortemente. Sei que as minhas primas, que falavam português em casa e não dominavam o luxemburguês tão bem como eu, foram várias vezes discriminadas na escola, e até pelos professores. Isso é inadmissível.” Acredita que as coisas podem mudar, e já estão a mudar. “Os luxemburgueses têm de olhar para os portugueses como a mais-valia que eles são, e não apenas como os construtores que estão ao seu serviço. E os portugueses têm de aprender a sair da sua bolha, perder a vergonha de mostrar-se. Temos muito valor criativo e é altura de toda a gente o saber.”

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