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Luíza e o comportamento das bactérias
Luxemburgo 4 min. 10.06.2021
10 de junho

Luíza e o comportamento das bactérias

10 de junho

Luíza e o comportamento das bactérias

Luxemburgo 4 min. 10.06.2021
10 de junho

Luíza e o comportamento das bactérias

Ricardo J. Rodrigues
Ricardo J. Rodrigues
Há uma bactéria chamada E.coli que vive nos intestinos humanos. Na maior dos casos, ajuda as funções digestivas, mas há variantes que podem provocar infeções graves. Luíza Andrade, brasileira de 18 anos, desenvolveu uma investigação sobre o assunto. E com isso ganhou um prémio de jovem cientista luxemburguesa, indo agora representar o Grão-Ducado na Expo Science de Toulouse.

Fala naquele português que parece que dança, a língua de Camões com ritmo de samba. Quando chegou ao Luxemburgo nem sabia que ia gostar tanto de ciências, mas foi a primeira de muitas descobertas que fez. “Biologia, física e química foram boas surpresas, penso que é por aqui que eu vou seguir a minha vida”, diz agora num dos laboratórios do Liceu Michel Lucius em Limpertsberg. Chama-se Luíza Vadillo Andrade, tem 18 anos, é brasileira e há uns meses ganhou o prémio Jonk Fuerscher, que premeia os jovens cientistas do Grão-Ducado.

O seu projeto de investigação tem um nome complicado: “Bacterial resistance to ampicillin and growth rate of Eschericia coli” – ou, em português, “A resistência bacteriana à ampicilina e a taxa de crescimento da E.coli”. Basicamente, o que a estudante do liceu tentou perceber foi como uma bactéria que vive no intestino humano (a E.coli), resistia às infecções quando em contacto com um antibiótico (a ampicilina) e sujeita a diferentes temperaturas.

“Basicamente eu isolei duas colónias de bactérias, uma delas estava em contacto com o antibiótico e outra não. Depois expu-las a três temperaturas diferentes - 25°C, 35°C e 45°C – durante 44 horas”, explica Luíza. Quando retirou as amostras das incubadoras, percebeu que, em todos os casos, a E.coli exposta à ampicilina era sempre mais eficaz no combate das infeções. “É como se elas ganhassem superpoderes”, ri-se agora. “Mas isto também pode ser importante para combater diarreias e problemas graves nos países onde há maiores riscos de contaminação da comida e das águas.” As nações africanas, acima de tudo, mas também o (seu) Brasil.

É verdadeiramente por isso que Luíza quer ser cientista. “Quero trabalhar na área da biomedicina, investigar patologias e acima de tudo curar doenças. O momento que todos vivemos recentemente foi extraordinário, se pensarmos bem no assunto. O mundo foi obrigado a fechar-se todo em casa por causa de uma pandemia terrível de covid-19 mas, em menos de um ano, os cientistas foram capazes de descobrir e produzir vacinas que permitem agora a perspetiva de regresso à normalidade. É simplesmente fantástico”, diz.

Luíza nasceu em Sumaré, cidade de 300 mil habitantes no interior do estado de São Paulo, e veio para o Luxemburgo há quatro anos. “O meu pai trabalhava na área de inovação e tecnologia e encontrou um trabalho aqui. No ano antes de eu vir, tirei um curso de inglês para me preparar. E então vim aqui para a escola internacional do Liceu Michel Lucius, que tem aulas nessa língua.” Ficou admirada com as condições da escola – sobretudo os laboratórios – e com o facto de um ensino te tanta qualidade ser gratuito.

No país fascinou-a o descanso: “Aqui tenho garantias de acesso à saúde, à educação e à segurança que não podia usufruir da mesma maneira no Brasil. Isso compensa muitas vezes as saudades de casa”, explica. Mas provavelmente o que a apanhou mais desprevenida foi perceber a oportunidade de continuar a falar tantas vezes português no centro da Europa. “Há tantos portugueses, brasileiros e cabo-verdianos aqui que uma pessoa nunca se sente demasiado sozinha. É muito curioso andar na rua e ouvir tanta gente falar na minha língua. Isso ajudou muito a compensar as dificuldades que eu tive no francês, sobretudo no início.

No dia em que foi apresentar a sua investigação sobre antibióticos e bactérias ao concurso de jovens cientistas, estava realmente nervosa. “Foi no final de março e não havia ninguém na assistência, só o júri à minha frente. E eu tremia com medo de que alguma coisa corresse mal. Senti a responsabilidade de estar a representar a minha escola, a minha família e, apesar de ter falado em inglês, também estava a representar a minha língua, o português.”

Atrás dela uma tela, na mão um botão para ir passando as conclusões num powerpoint. Os olhos dos jurados postos nela e os nervos a dissiparem-se à medida que os minutos iam passando. No Brasil, a família assistia ao seu triunfo online – o fórum estava a ser transmitido em direto para todo o mundo. “Eles acordaram todos às seis da manhã para poderem ver-me”, diz emocionada. “E o mais engraçado de tudo é que a maioria deles não fala sequer inglês, por isso não entendiam uma palavra daquilo que eu dizia.”

Depois da apresentação, o alívio. O júri elogiou-lhe imediatamente o trabalho desenvolvido, fez críticas construtivas para o caso de querer continuar a investigação. E, no anúncio dos prémios, descobriu que acabara de tornar uma das três representantes do Luxemburgo na Expo Sciences de Toulouse, onde serão apresentados projetos de todos os países europeus. Um orgulho para o Grão-Ducado, com sotaque português dos trópicos.  

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