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10 de Junho. Festa portuguesa enche a Place de la Constitution

10 de Junho. Festa portuguesa enche a Place de la Constitution

Luxemburgo 3 min. 10.06.2019

10 de Junho. Festa portuguesa enche a Place de la Constitution

Portugueses destacam “união” da comunidade no Luxemburgo e que muita coisa mudou, desde que os primeiros portugueses chegaram ao Grão-Ducado.

 São cinco da tarde e cheira a sardinhas na Place de la Constitution. É o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas e, como não podia deixar de ser, ouve-se o “apita o comboio” e uma longa fila de minhotas e campinos forma a tradicional corrente humana que avança ao som da canção de Quim Barreiros. Mais à frente, está António que é maquinista mas de outros comboios. A cargo do assador, enquanto vira sardinhas, diz ao Contacto que este ano “estão boas”. Também à frango assado. Ali perto, Dilan da Silva, membro do grupo folclórico As Tricanas de Differdange, afirma que é um dia de “união e celebração” e que, apesar de ter nascido no Luxemburgo, se sente “completamente português”. Mas se, hoje, a comunidade está mais bem integrada nem sempre foi assim. Por isso, recorda “os que tiveram o mérito de chegar ilegalmente sem nada, só com a força da vontade”.

É o caso de um dos anfitriões da festa. Por ali, José Ferreira Trindade certifica-se de que tudo corre bem com as comemorações. Há 49 anos, o fundador do Centro de Apoio Social e Associativo (CASA) atravessou a fronteira ‘a salto’ e chegou ao Luxemburgo com 18 anos. Proveniente de Borralha, Águeda, deixou para trás as fronteiras de um dos países mais pobres da Europa, submetido a uma ditadura de quase meio século. Da fábrica em que trabalhava, escolheu um caminho, nem sempre fácil, que muitas outras gerações de imigrantes tomaram durante as décadas seguintes. “Cheguei à Gare do Luxemburgo e fui logo perseguido pela polícia mas como era jovem não me conseguiram apanhar. Depois, na Rue de Strasbourg, houve um alentejano, que, entretanto, se tornou meu amigo, que me disse: ‘és português, vem para aqui’. Foi a minha sorte. Senão era possível que me apanhassem e, como era clandestino sem papéis, mandavam-me embora no comboio seguinte”, recorda ao Contacto. Quis essa mesma sorte que começasse a trabalhar logo no dia seguinte. A 9 de março de 1970, o jovem que escapou à polícia passou a ser funcionário do aeroporto onde acabaria anos mais tarde por se tornar chefe do controlo de segurança de passageiros.

Hoje, é reformado da Luxair e tem dupla nacionalidade depois de uma vida dedicada ao associativismo e à comunidade portuguesa. “Eu tive dificuldades para me legalizar e prometi a mim mesmo que, um dia, se pudesse, ia ajudar os portugueses que chegassem ao Luxemburgo para não passarem por aquilo que eu passei. Tinha de os ajudar”. Para além da sua carreira na companhia aérea, passou a dedicar uma parte do seu tempo a ajudar os que chegavam de Portugal. Foi assim que surgiu o CASA nos anos 80. “Nos anos 70 e 80, quando não havia livre circulação de bens e pesssoas havia muitos obstáculos para as pessoas se legalizarem e houve muitos luxemburgueses que ajudaram nesse sentido porque havia muitos portugueses que vieram a salto e que estavam a trabalhar na agricultura ou nas vinhas. Aqui, a procura de mão de obra era grande”. E conseguiram facilitar a legalização de muitos, ultrapassando em “poucos dias” barreiras burocráticas que normalmente demoravam “dois ou três meses”.

A situação é atualmente muito diferente mas nem por isso importa menos juntar a comunidade portuguesa. “Continuo a estar ao lado dos mais desfavorecidos”. Questionado se se sente mais português ou luxemburguês, José Ferreira Trindade não tem dúvidas: “Eu sou sempre português e não abandono as minhas origens”. Para celebrar a comunidade portuguesa, há já 32 anos que o CASA organiza esta festa. “O Ministério [português] dos Negócios Estrangeiros deu a tutela à associação” quando havia alguma divisão entre as organizações no Luxemburgo.

O segundo dos dois dias terminou com a entrega de medalhas e com a presença de vários representantes associativos e políticos em que a ministra da Família, Corinne Cahen, reiterou que “a integração é um compromisso de todos”.


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