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10 de Junho: Camões muda-se esta semana para Merl
Luxemburgo 7 7 min. 08.06.2016

10 de Junho: Camões muda-se esta semana para Merl

O busto de Camões, limpo e restaurado, vai estar presente nas comemorações do 10 de Junho, esta sexta-feira, às 10h, em Merl

10 de Junho: Camões muda-se esta semana para Merl

O busto de Camões, limpo e restaurado, vai estar presente nas comemorações do 10 de Junho, esta sexta-feira, às 10h, em Merl
Foto: Foto: Manuel Dias
Luxemburgo 7 7 min. 08.06.2016

10 de Junho: Camões muda-se esta semana para Merl

A inauguração do novo local do busto de Luiz de Camões, na place Joseph Thorn, em Merl, na cidade do Luxemburgo, decorre esta sexta-feira, com uma cerimónia alusiva ao 10 de Junho-Dia de Portugal, na presença da ministra da Administração Interna portuguesa, Constança Urbano de Sousa, e da burgomestre da capital, Lydie Polfer.

A inauguração do novo local do busto de Luiz de Camões, na place Joseph Thorn, em Merl, na cidade do Luxemburgo, decorre esta sexta-feira, com uma cerimónia alusiva ao 10 de Junho-Dia de Portugal, na presença da ministra da Administração Interna portuguesa, Constança Urbano de Sousa, e da burgomestre da capital, Lydie Polfer.

A mudança de “morada” do busto do poeta nacional português da place Léon XIII em Bonnevoie para Merl gerou polémica, quando foi anunciada em Outubro. Foi criticada a troca de um bairro popular por um mais “chique”, e o embaixador de Portugal foi acusado de não ter consultado os mecenas que em 2006 pagaram a escultura – a Santa Casa da Misericórdia do Luxemburgo e os empresários António Silva, José Vieira e Manuel Cardoso. Carlos Pereira Marques desmente e explica que todos foram contactados e concordaram para que fosse encontrado um novo local. “Percebi que havia um grande descontentamento com o local em Bonnevoie, e a ideia era pôr o busto num local mais digno e mais moderno”, disse o diplomata em Outubro ao CONTACTO. Há dias, adiantou-nos mais alguns passos desse processo.

Desde o final de Março, nos Ateliers dos Museus da cidade do Luxemburgo, Camões esteve a preparar-se para a sua nova “casa” em Merl. No piso -1 do Hall Victor Hugo, em Limpertsberg, onde só se entra com uma autorização especial, o local parece uma cave do Museu do Louvre. Há obras embrulhadas, esculturas à espera de serem limpas, técnicos a restaurar quadros do séc. XIX, e à entrada de uma sala reconhecemos “Nana”, de Niki de Saint Phalle, a matrona azul gigante da place Hamilius. Deitada numa caixote aguarda pelo fim das obras do Royal Hamilius.

O busto vai ficar "mais elegante, mais valorizado e até vai parecer maior"
O busto vai ficar "mais elegante, mais valorizado e até vai parecer maior"
Foto: Manuel Dias

Camões espera por nós em cima de uma mesa cheia de ferramentas. O bronze brilha de novo, ganhou novo esplendor, sentimos uma ponta de orgulho nacional. Para o fotografarmos, a escultura só pode ser manipulada com luvas e por um técnico daquele serviço.

“A obra esteve dez anos em Bonnevoie, sujeita a todo o tipo de intempéries e à poluição atmosférica. O busto tinha oxidações importantes, verdete corrosivo”, explica Gisèle Reuter, chefe do Departamento de Restauração e Conservação das Colecções dos Museus da Cidade do Luxemburgo. “O busto foi limpo, tratado das oxidações, o bronze foi retocado, restaurado e coberto de uma cera micro-cristalina que o protegerá de novas oxidações”, explica a responsável, que chefiou e coordenou a restauração da obra.

UM NOVO PEDESTAL

O arquitecto Jean-Paul Carvalho concebeu um novo pedestal para o busto de Camões
O arquitecto Jean-Paul Carvalho concebeu um novo pedestal para o busto de Camões
Foto: M. Dias

Em Merl, Camões vai também ter um novo pedestal, cuja concepção foi entregue ao arquitecto Jean-Paul Carvalho, que já tinha assinado a nova sede do Instituto Camões, inaugurada em Março e que esta segunda-feira foi um dos laureados dos Prémios de Construção do Luxemburgo (Bauhärepräis OAI 2016, ver pág. 23) pelo seu projecto “1535°”, situado em antigas instalações da Arbed, em Dudelange.

O novo pedestal do busto de Camões é uma concepção do arquitecto Jean-Paul Carvalho. A estrutura vai ter a forma de "L" e não vai ficar como mostra esta maquete, mas perpendicular ao Instituto Camões, por forma a olhar a praça e os visitantes do centro cultural.
O novo pedestal do busto de Camões é uma concepção do arquitecto Jean-Paul Carvalho. A estrutura vai ter a forma de "L" e não vai ficar como mostra esta maquete, mas perpendicular ao Instituto Camões, por forma a olhar a praça e os visitantes do centro cultural.
Maquete: Jean-Paul Carvalho

O novo pedestal é uma estrutura em forma de “L”, com 22 cm de profundidade, 1m16 de comprimento e uma coluna de 1m20 de altura. O busto (22 cm x 28 cm) vai estar colocado em cima da coluna, e duas placas, uma com o nome dos mecenas e outra com as datas de nascimento e morte do poeta, vêm assentes na barra lateral do “L”.

O arquitecto diz que o “L” não é uma referência ao Luxemburgo, deve-se ao “acaso”, foi apenas “a forma ideal encontrada para criar uma leitura entre o busto e as placas”.

O novo pedestal tem uma forma de "L"
O novo pedestal tem uma forma de "L"
Foto: M. Dias

“Um busto é algo para ser observado e por isso tem que ficar ligeiramente mais alto do que uma pessoa. Em Merl, o rosto do Camões vai ficar colocado mais alto do que em Bonnevoie, entre 1m85 e 1m90 de altura. Uns vão poder olhar o busto de frente e as pessoas mais baixas vão ter que levantar ligeiramente a cabeça”, explica o arquitecto.

“Quisemos também integrar o pedestal e o busto à nova praça e por isso montámos o pedestal num canteiro onde há uma árvore que cria um fundo natural à escultura. O novo pedestal é uma espécie de ’móvel’ em betão arquitectónico, diferente do betão industrial. Tem tonalidades claras e ângulos vivos. O betão é muito difícil de trabalhar de forma precisa. Na madeira é fácil trabalhar os cantos, mas no betão os cantos podem quebrar. A Sopinor fez a cofragem da estrutura, colocou o betão e depois deixámos secar 48 horas. Pode demorar até três dias, depende da meteorologia, a temperatura ideal para o betão secar é entre os 17 os 22 graus, sem muita humidade, para que fique sem manchas. Graças ao trabalho minucioso da Sopinor ’móvel’ ficou muito elegante”, regozija-se o arquitecto.

“Escolhi um betão claro para que o busto e as placas saíssem valorizados e não o pedestal em si. Em Bonnevoie, o pedestal era quase da mesma cor do busto e este não sobressaía. Hesitámos entre fazer vir pedra de Portugal, mas também havia a considerar o factor tempo. Também pensámos no mármore, mas não é uniforme, tem manchas e isso iria distrair o olho”.

“O pedestal vai ficar posicionado perpendicularmente ao Instituto Camões e assim o poeta vai olhar para a praça e para as pessoas que vão ao Centro Camões e não para a estrada. Também a nova disposição – o busto numa coluna e as placas numa parte inferior – vai permitir apreciar melhor a obra sem ser distraído pelas placas, e depois pode ler-se as inscrições num segundo tempo. Em Bonnevoie, a obra estava sobrecarregada”, diz Jean-Paul.

Gisèle Reuter concorda: “Em Bonnevoie o pedestal não estava à boa altura para valorizar a obra, a base era demasiado larga para o busto que parecia uma cabeça pequena, parecia que sufocava, era um conjunto demasiado compacto, com uma disposição antiquada”.

Gisèle Reuter é a chefe do departamento de restauração e conservação das colecções dos museus da cidade do Luxemburgo
Gisèle Reuter é a chefe do departamento de restauração e conservação das colecções dos museus da cidade do Luxemburgo
Foto: Manuel Dias

“No novo pedestal, Camões vai ficar muito elegante, valorizado, a base é adaptada às proporções do busto. O granito era demasiado escuro conjugado ao bronze. Esta disposição é mais aérea, Camões vai parecer mais arejado, maior até”, diz a especialista em arte. O betão branco e a opção de colocar as placas com as inscrições lateralmente “é uma apresentação mais moderna da obra”, diz ainda Gisèle Reuter.

Pormenor técnico, em Merl, o busto não vai assentar directamente no pedestal como em Bonnevoie, vai estar sobre uma haste. “Pedi ao Jean-Paul para criar uma base ligeiramente inclinada para que a água da chuva pudesse ser evacuada. Em Bonnevoie quando chovia a água estagnava nos locais de junção do busto com o granito. No Inverno até gelo se formava na base do busto e isso contribuiu às oxidações”, diz a perita em conservação e restauração.

“O busto é oco e o tempo do Luxemburgo provoca condensação e humidade no interior, o que resulta em oxidação. No novo pedestal criei evacuações para permitir a ventilação, para evacuar chuva, o que vai contribuir para uma maior longevidade da obra”, acrescenta Jean-Paul. “Acho que faz todo o sentido mudar o busto para Merl. Antes, o Instituto Camões era no boulevard Royal e o busto estava em Bonnevoie. Agora o Camões e o instituto estão juntos. O facto de a nova sede do Instituto Camões também ter sido concebida por Jean-Paul Carvalho dá ao conjunto uma coerência”, diz ainda Reuter, que confia não ter ouvido falar na polémica.

O busto de Camões já está pronto para mudar-se para Merl
O busto de Camões já está pronto para mudar-se para Merl
Foto: Manuel Dias

Quem paga a factura, o Estado português ou o Estado luxemburguês? “Nem uma coisa nem outra!”, responde Reuter. “A obra foi uma oferta de um grupo de privados à cidade do Luxemburgo, ou seja, o busto de Camões é propriedade da capital. Nós tratamos do transporte, da restauração e da instalação no novo local. As despesas ficam a cargo da autarquia como para qualquer uma das 60 esculturas ao ar livre que estão ao nosso cuidado na cidade. Não dependemos do Estado nem do Ministério da Cultura”, precisa Reuter.

“O trabalho de Jean-Paul Carvalho e da empresa Sopinor, de Orlando Pinto, foram executadas a título gracioso”, faz questão de frisar o embaixador de Portugal.

O busto de Camões é instalado já hoje ou quinta-feira em Merl, mas a inauguração oficial do novo local acontece na sexta-feira às 10h, numa cerimónia alusiva ao 10 de Junho e aberta ao público.

“O autor do busto, Mário Rodrigues de Castro foi convidado para estar presente na inauguração, mas não vai poder estar porque se encontra em Portugal”, esclarece Pereira Marques.

José Luís Correia

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Blummennidderleen Inst. Camoes_pl. Leon XIII_Lux-Bonnevoie le 10.06.2011